7/5/21
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 28/04/2021
Eduardo Oliveira e Silva

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Marcelo: o discurso da União

A intervenção nos 60 anos do início da guerra colonial e dos 47 anos do 25 de Abril é fundamental para quem quiser perceber o Portugal da década 2020.

1. Regularmente Marcelo Rebelo de Sousa faz questão de nos lembrar que raia a genialidade e que há uma diferença entre um aluno de 18 ou 20 valores e os outros, sobretudo vindo de um tempo em que um 14 era já excecional. Quando todos esperam uma coisa, Marcelo vem com outra totalmente diferente, às vezes com uma profundidade, um conhecimento cultural e uma vivência que alguns podem ter, mas não conseguem transmitir, analisar e sintetizar. Marcelo é Marcelo. É português. É produto de uma época, de uma educação e de uma sociedade que foi atravessada por muitas mudanças e convulsões. É um homem crente. É dono de pensamento complexo e sistematizado que consegue descodificar para que todos o percebam. Ele é aquele que de repente emerge e sobressai, mesmo entre mentes brilhantes. É tão diferente, tão melhor que às vezes dá vontade de o criticar, só porque sim. É praticamente insuperável a explicar, usando uma lógica surpreendente e praticamente impossível de contraditar. Quem pode não se rever no discurso dele deste 25 de Abril? Em vez das banalidades resultantes da conjuntura política do momento e proclamações panfleto-partidárias feitas por todos os outros oradores do dia, o Presidente da República serviu-nos um verdadeiro discurso da união, no sentido e ao jeito dos grandes líderes anglo-americanos. Estava lá tudo o que nos diz respeito enquanto povo e Nação, com uma explicação sobre o facto dos valores de hoje e de ontem serem diferentes, não devendo ser renegados. A memória dos navegadores. As dores dos colonizados. O orgulho das Descobertas. A glória de um soberano que dá independência a parte do seu reino. O olhar sobre um império colonial que vira império republicano. O retrato dos que fizeram a guerra colonial e dos que a rejeitaram e que, de cada lado, sofreram. O drama dos colonos que tudo perderam em África, dela tendo de fugir apesar de ser a terra deles. A frustração dos que viviam utopias. Sem omitir os que só conhecem a democracia e andam pelos 50 anos, vivendo repetidamente esperanças e desilusões. Não esquecendo, à passagem, o ressentimento legitimo de filhos das nações lusófonas independentes, que remetem culpas para os colonizadores. Houve ainda uma palavra para os que partiram à procura de vidas melhores e os muitos jovens que cá estão com as suas perplexidades. O discurso de Marcelo abarcou tudo, menos o que era óbvio e de que falamos todos os dias há mais de um ano. Disso pode ele falar diariamente. O seu retrato foi tão simples quanto profundo. É feito por quem vê de cima. Explicou que o instante em que tudo começou a mudar não ocorreu no 25 de Abril de 1974. Deu-se, isso sim, há sessenta anos quando eclodiu a guerra colonial que condicionou o Portugal de hoje e o espaço da lusofonia. Foi um momento raro, numa intervenção que poderia não surpreender tanto da parte dele, se fosse no 10 de Junho, dia de Portugal. “Que se faça a história da História” e que “se retire lições de uma e de outra, sem temores nem complexos, com a natural diversidade de juízos própria da democracia”, disse. Marcelo não se negou a si próprio e à sua circunstância de filho de um ex-ministro do Estado Novo e governador de Moçambique. Assumiu o entusiasmo de ter sido um fundador da democracia e um dos deputados da constituinte. Estava lá outro, Jerónimo de Sousa, que fez a guerra colonial na Guiné e esteve na constituinte, mas que não o aplaudiu, mas que certamente o percebeu totalmente. É gratificante verificar que temos um Presidente com uma dimensão intelectual e política fora do comum. Mesmo que nem sempre concordemos com ele no dia a dia. Em momentos especiais e complexos, ele surpreende sempre positivamente. Foi o caso no domingo.

2. Está aberta a caça ao autarca. Tem um tempo de relativo pousio, mas a cada quatro anos aparece em força. É um maná de tiros sobretudo para a espécie mais corrente: o autarca socialista e social democrata. Nesta época vale tudo para o apanhar. Boatos nas redes sociais. Notícias novas. Notícias requentadas, já publicadas há quatro anos. Inquéritos parados desde 2017. Coisas verdadeiras e outras parcialmente falsas, que são ótimas e indesmentíveis. Coisas grandes e graves. E, claro, ninharias. Há mãos invisíveis que largam bombas, setas e insinuações numa sintonia perfeita entre quem investiga e quem publica. Há naturalmente muita verdade e muita falcatrua no meio político em geral e mais especialmente no autárquico. Mais do que em qualquer outro, é neste último que se cultivam ódios de estimação e se dão facadas nas costas. Desde logo porque há normalmente meio milhão de candidatos e depois porque mexe muito com a vaidade e interesses múltiplos, por vezes enormes, que as pessoas normais ainda não conhecem. Para os eleitores e os leitores, vai ser necessário pensar bem antes de concluir se as coisas são reais ou virtuais. Há um método empírico. Se a denúncia for de um alegado contrato há probabilidade de ser fake. Se for um prédio muito alto no meio de Lisboa ou um hospital gigantesco à beira Tejo deve ser verdade. Se se trata de um projeto com vista de mar na costa alentejana, não há lugar para dúvidas. Se for uma marquise na rua do Possolo é um ataque a uma pessoa séria.

3. O caso Marquês teve uma notícia fenomenal e muito ilustrativa, na semana passada. Foi dada à estampa pelo Correio da Manhã na sexta-feira. Dizia que “Sobrinha de Sócrates reclama herança”. A cacha foi dada pela mãe da moça que referia que a avó (ou seja, a mãe de Sócrates) entregou ao filhote político 555 mil euros e esqueceu a neta órfã. Vale a pena esperar pela justificação do tio e adivinhar qual pode ser. Hipótese a) essa pergunta é infame, o que é que o senhor jornalista tem a ver com isso? Hipótese b) a minha mãe fez partilhas informais, o dinheiro que tinha no cofre estava por gavetas e eu só recebi das minhas. Hipótese c) quando o meu irmão faleceu, já a minha mãe estava pobre e falida. Hipótese d) não tenho memória da existência dessa sobrinha.

 

Escreve à quarta-feira

 


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