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Óscares. Houve mais diversidade do que nunca numa cerimónia que foi um excelente sonífero

Óscares. Houve mais diversidade do que nunca numa cerimónia que foi um excelente sonífero

Diogo Vaz Pinto 27/04/2021 15:18

Hollywood teve de abdicar do lado mais faustoso da sua grande noite, e, numa cerimónia bem mais intimista, fez de tudo para garantir que, este ano, a indústria celebrava finalmente a sua diversidade.

 

No ano mais difícil para a indústria do cinema, talvez se esperasse que a noite dos Óscares pudesse ter lembrado o sonho que a ida a um desses templos da mais fabulosa das religiões profanas nos promete, isto numa altura em que é preciso convencer o público a voltar a sair de casa e pagar por um bilhete o equivalente a um mês de subscrição de algum dos mais populares serviços de streaming. Apesar dos melhores esforços do co-produtor da cerimónia, o realizador Steven Soderbergh, e ainda que as estrelas de Hollywood não tenham faltado à chamada, a sessão realizou-se num registo bastante sonolento e o sonho ficou-se pela promessa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood de fazer a sua parte para uma representação mais abrangente e diversa da indústria no seu todo. Nomadland - Sobreviver na América levou o galardão para filme do ano, e a sua atriz principal, Frances McDormand, conquistou pela terceira vez a estatueta, mas foi a autora, Chloé Zhao, quem se destacou como a primeira chinesa e apenas a segunda mulher a receber o prémio de melhor realização nos 93 anos dos Óscares, liderando a lista dos premiados numa noite que acabou por ser antes de mais uma celebração da diversidade, tentando provar o compromisso da Academia para pôr fim ao privilégio dos artistas brancos, isto depois de em 2015 e 2016 as nomeações para as categorias de representação terem contemplado apenas atores brancos. Além de McDormand, Daniel Kaluuya, Youn Yuh-jung e Anthony Hopkins foram os atores que levaram a estatueta, tendo este último admitido que não contava receber o prémio. Aos 83 anos, Hopkins tornou-se o mais velho a vencer naquela categoria, mas nem esteve presente na cerimónia, e a sua espantosa interpretação de um homem que enfrenta o temporal da demência em O Pai acabou por ser considerado o revés da noite, batendo aquele que era apontado como o preferido, Chadwick Boseman, que receberia o Óscar a título póstumo pelo seu papel em Ma Rainey: A Mãe do Blues. Ainda assim, e mesmo se a cerimónia deverá ser um absoluto fiasco em termos de audiências, este ano, dos vinte nomeados nas categorias de representação, nove eram pessoas de cor.

Em termos do espetáculo, o ambiente parecia remontar às galas bastante mais descontraídas que a Academia começou por organizar em salões de baile de hotéis. Não havia então a ansiedade de cativar audiências em todo o mundo, e o evento era bem mais informal, dirigido a uma elite que se juntava uma vez por ano para que os espíritos pudessem banhar-se nas taças de champanhe. Desta vez, em lugar do famoso Dolby Theatre, a sessão foi transmitida a partir da Estação Ferroviária de Los Angeles, tendo contado com uma lista de apenas 200 convidados. A cavernosa sala foi convertida num salão de baile que permitiu que fossem respeitadas as regras de distanciamento social. E se o público não pode rejubilar com planos lançados sobre a plateia, onde as estrelas se alinhassem em fileiras cerradas, exibindo o magnetismo dos sorrisos, dos penteados e dos vestidos cintilantes, o que desta vez se conseguiu foi uma cerimónia bem mais intimista. Em vez de os apresentadores surgirem num palco na parte dianteira da sala, como ilhas em vários níveis estavam as mesas redondas e bancas onde se distribuíam os nomeados e convidados. Havia ainda o desafio adicional de integrar filmagens feitas a partir de outros vinte locais à volta do globo onde outros protagonistas da noite seguiram e participaram na sessão, isto para contornar as limitações impostas pela pandemia. O efeito pretendido soube diluir a sensação de uma festa que ocorre no meio de circunstâncias que estão longe de ser ideais, e o registo assentou nesse tom paradoxal em que o glamour parecia olhar-se a si mesmo e cada um dos intervenientes, ao mesmo tempo que seguia o guião, parecia questionar-se o que raio fazemos aqui.

 Richard Brody, o influente crítico de cinema da New Yorker, lembrava que a mais poderosa das ficções que Hollywood já criou é a de uma audiência massiva que acolhe anualmente as suas produções e que lhes confere uma popularidade que beira a adulação, em parte por meio de um fenómeno de identificação como se aquela indústria estivesse a produzir uma espécie de “escritura secular”. Mas essa audiência mundial que, em tempos, foi muitíssimo confiável, e que era honrada na cerimónia dos Óscares, baseava-se, na verdade, numa série de exclusões, diz-nos Brody. E é isso o que a Academia tem tentado superar, correndo o risco de desvalorizar atuações geniais a favor de outras que, tendencialmente, eram desprezadas e, por isso, merecem agora destaque, ainda que com isto a cerimónia arrisque assumir tendências políticas de tal modo evidentes que possa fragilizar a sua posição junto de um público que não liga a televisão para ver galas de beneficência, mas sim para ver deuses desfilar e, com sorte, alguns espalharem-se ao comprido.

A Academia procurou contornar os constrangimentos do coronavírus adiando a cerimónia, que normalmente ocorre em fevereiro. Apesar de a campanha de vacinação estar a decorrer a bom ritmo, a passadeira vermelha teve de ser significativamente reduzida e as extravagantes festas que sucedem à gala foram canceladas. Não havendo ainda números no que respeita às audiências, as previsões eram bastante negras num ano em que faltou o burburinho que costuma cercar os grandes candidatos à vitória, com os estúdios a guardarem para mais tarde os seus principais trunfos, esperando arrancar pelas raízes aqueles que por estes dias se habituaram a receber todo o seu entretenimento no sofá. Este foi, portanto, um ano em que esteve em destaque um cinema mais autoral, filmes com menor orçamento e que nunca teriam sido grandes sucessos de bilheteira. De resto, a Academia tem tentado evitar que os Óscares se tornem irrelevantes para as grandes audiências globais e, desde 2018, algumas reformas têm sido propostas no sentido de criar uma categoria que possa abarcar essas fitas que, hoje, arrastam as massas para as salas de cinema e oferecem experiências próximas do parque de diversões. Os grandes blockbusters, sejam os filmes de super-heróis ou essas sagas que recorrem às mais estafadas fórmulas para encher as salas de adolescentes comedores de pipocas, têm ficado excluídas da grande celebração do cinema, mas a mera sugestão de se lançar uma categoria de “Melhor Filme Popular” foi recebida com pateadas e vaias por toda a parte. Assim, para já a ideia ficou na gaveta. Numa altura em que os grandes estúdios se estão nas tintas para o palmarés e preferem concentrar os seus esforços nestas grandes apostas, os serviços de streaming têm sido os principais promotores de um cinema que desafia as convenções e que é feito com grande dose de liberdade artística. Estando envolvidos numa guerra de titãs para dominar a temporada dos prémios, a Netflix conseguiu já impor-se enquanto campeã das nomeações, mas tem tido muita dificuldade em convertê-las em vitórias. Com 36 nomeações este ano, apenas ganhou sete estatuetas. Mank era o filme mais nomeado, tendo recebido 10 indicações, mas só venceu em duas categorias secundárias. Já no ano passado, O Irlandês, de Martin Scorcese, chegou à cerimónia com 10 nomeações e não levou nenhum galardão para casa.

Entre os discursos da noite, e ainda que a questão da diversidade tenha estado sempre em primeiro plano, o mais tocante foi o do realizador dinamarquês Thomas Vintenberg. Ao receber o galardão de melhor filme internacional, por Druk - Mais uma Rodada, o cineasta dedicou a vitória à filha, Ida, que morreu num acidente de automóvel poucos dias depois de o filme ter entrado em produção, em 2019. Ida tinha lido o guião meses antes, e estava encantada pela ideia de vir a ter integrar o elenco. Vintenberg tinha já dito em entrevistas que o ter trabalhado no filme acabou por ser decisivo para o ajudar a ultrapassar a perda da filha, vitimada por um condutor que estava distraído a olhar para o telemóvel. O cineasta disse que sempre tinha sonhado em receber um Óscar e que desde miúdo andava a preparar-se para o discurso que faria quando a ocasião chegasse. Acabou por agradecer à mulher e aos atores que o acompanharam num período difícil, e disse que o filme acabou por ser um monumento para Ida, que fazia assim parte daquele milagre e que o mais provável é que tenha andado a puxar cordelinhos entre as repartições dos anjos para garantir o sucesso do filme naquela noite.

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