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Pedro Vaz 27/04/2021
Pedro Vaz

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Bem-vindos ao século XXI

Sempre achei estranho o desperdício de bidões de água utilizados pelos ciclistas, bem como os argumentos invocados para não haver alterações no comportamento dos atletas, equipas e organizações das provas.

Sou o que se pode considerar fã de ciclismo. Desde criança que gosto de ver na TV as provas de ciclismo, em especial as provas do “World Tour”, e, como fã, tenho hoje a sorte, à semelhança de milhares de portugueses de poder acompanhar com regularidade as principais provas do calendário internacional da modalidade, em especial as provas de estrada (longe vão os tempos em que só tínhamos possibilidade de ver a nossa Volta a Portugal).

O facto de ser adepto e simultaneamente uma pessoa que se preocupa com assuntos relacionados com o ambiente, em particular com os resíduos produzidos pela ação humana, tive sempre em mim um conflito interior entre o apreciar os feitos quase sobre-humanos do ciclista e a prática de atirar para a beira da estrada todas as embalagens utilizadas, após o consumo de bebidas ou alimentos.

O ciclista e a sua bicicleta são grandes atletas que quase podemos elevar a um estatuto de herói ou semideus que pedala centenas de quilómetros sob calor tórrido, chuva torrencial ou ver incrédulo a velocidade com que ultrapassam barreiras de inclinações loucas em cima de uma bicicleta. Tudo isto assume contornos de uma beleza difícil de explicar e até mesmo de proezas épicas ou poéticas, como foi o caso da conquista da Volta a França do ano passado pelo jovem ciclista esloveno Pogačar, ao bater o seu compatriota Roglic na penúltima etapa da prova num contrarrelógio individual impróprio para espetadores com problemas cardíacos.

Porém, sempre me causou alguma estranheza a forma como, até agora, sempre se desvalorizou os bidões de água totalmente reutilizáveis, que eram jogados fora ao longo das etapas ou das provas. Isto, para não falar dos resíduos produzidos pela caravana publicitária que antecede na estrada a caravana velocipédica, que espero serem hoje muito mais sustentáveis, pois recordo-me dos milhares de brindes e papéis atirados ao longo do percurso, muitos deles sem qualquer utilidade e que na realidade só produzem mais resíduos que se não forem apanhados acabam nos nossos solos.

Como referi, sempre achei estranho o desperdício de bidões de água utilizados pelos ciclistas, bem como os argumentos invocados para não haver alterações no comportamento dos atletas, equipas e organizações das provas. Um dos argumentos principais, para não se alterarem as regras que permitiam que os corredores pudessem a todo o tempo atirar para o chão os seus bidões, era que estes bidões seriam apanhados pelos fãs que se encontram ao longo do percurso a ver os ciclistas passar e assim eles não acabariam a poluir os nossos solos.

O problema é que, quem vê as provas de ciclismo não pode dizer isso sem uma pitada de hipocrisia, uma vez que a visualização atenta de qualquer prova ou etapa de 4 horas daria para constatar que os bidões seriam largados em qualquer parte, inclusive em zonas sem qualquer adepto, abandonados no meio de florestas, ou campos agrícolas, ao qual se juntariam os resíduos das embalagens dos produtos alimentares que os ciclistas ingerem ao longo de uma prova que também eram abandonados em qualquer parte e ao que consta, não me parece que os fãs se digladiassem para apanhar um qualquer embrulho de uma barra energética.

A União Ciclista Internacional, percebendo isto, veio, e bem, alterar as regras quanto ao “littering” durante as provas, passando a definir zonas específicas ao longo do percurso onde os ciclistas podem fazer aquilo que faziam ao longo de todo um percurso com centenas de quilómetros. Com essa medida obriga as organizações a terem equipas para limpar essa área após a passagem dos ciclistas. Imagine-se se a obrigação fosse ao longo de todo o percurso? Assim, com esta nova medida também se ajuda logisticamente as organizações das provas, que sabem que é naquelas zonas que podem concentrar os recursos de limpeza. Para além do mais, sabendo-se que os bidões de água, são reutilizáveis, pode até reduzir-se os custos das equipas com bidões de água, uma vez que depois de recolhidos nas zonas adequadas, podem facilmente voltar a ser utilizados pelos ciclistas.

Admito que estas alterações, a par das restantes novas regras (sobre as quais não me irei pronunciar) e que entraram em vigor no início deste mês, possam criar alguns problemas iniciais de aceitação, implementação e até de cumprimento, pois exigir aos ciclistas que pensem no ambiente quando todo o seu pensamento está por vezes na necessidade de superação dos seus limites físicos, pode ser considerado como abusivo. Mas uma mudança destas em relação aos resíduos que se produzem durante a prova é apenas uma questão de, também ela, treino e habituação até se tornar automática. Um pouco como a reciclagem que fazemos em casa. Como o slogan criado por Fernando Pessoa para uma famosa marca de refrigerante “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, também assim é nos nossos comportamentos ambientalmente sustentáveis.

Está de parabéns a UCI por estas novas regras ambientais nas suas provas e Bem-Vindos ao século XXI.

Que esta iniciativa possa servir de inspiração a outras modalidades desportivas, como o futebol, que teima em utilizar embalagens de utilização única com água para os seus atletas durante os jogos. Se os clubes não o fazem, talvez a FPF ou a Liga devessem impor a utilização de recipientes reutilizáveis, por exemplo.


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