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Abílio Martins, o último homem forte de Neeleman sai hoje da TAP

Abílio Martins, o último homem forte de Neeleman sai hoje da TAP

Sónia Peres Pinto 23/04/2021 10:50

O responsável pelo marketing, comércio digital e comunicação continuava com as mesmas funções, apesar das alterações na estrutura societária do grupo – que permitiu ao Estado passar a controlar 72,5% da transportadora. Este envolvido na polémica dos prémios em 2019, onde recebeu 110 mil euros.

Abílio Martins, o último homem forte de David Neeleman sai esta sexta-feira da TAP. “Caros colegas e amigos, hoje é o meu último dia na TAP. Todos nós dedicámos os últimos anos a um fantástico objetivo de relevância nacional: tornar a TAP melhor e mais competitiva, mais presente pelo mundo fora, com mais destinos, mais passageiros e um serviço capaz de responder com rapidez e eficácia aos nossos clientes, 24 horas por dia, sete dias por semana”, diz numa carta enviada aos trabalhadores a que o Nascer do SOL teve acesso. E na mesma mensagem apela à necessidade de Portugal precisar de ter uma TAP forte e competitiva.

O anúncio desta saída surge um dia depois de a TAP ter revelado que a empresa fechou 2020 com um prejuízo de 1230,3 milhões de euros – um resultado negativo mais de 12 vezes superior aos prejuízos de 95,6 milhões registados em 2019. E da garantia que a companhia de aviação continuava o seu processo de reestruturação.

Recorde-se que a segunda fase das medidas voluntárias da TAP, que decorreu entre 11 e 16 de abril contou com 122 adesões confirmadas, avançou a companhia em nota enviada aos trabalhadores. Mas destas apenas 100 contam para o redimensionamento do quadro de trabalhadores previstos pela companhia. Concluídas as duas fases de adesão às medidas voluntárias, a TAP conta com a saída de 730 trabalhadores. A companhia admite que ainda têm de sair mais 400 a 500 trabalhadores.

Abílio Martins, na sua carta de despedida, que continua a cumprir as mesmas funções, apesar das alterações na estrutura societária do grupo – que permitiu ao Estado passar a controlar 72,5% da transportadora. lembra que a TAP passou “a ser uma das empresas portuguesas que mais ouve os clientes em todo o mundo — ouve, analisa e age”. E acrescenta: “Realizámos mais de 100 reuniões de Comité de Cliente onde decidimos mais de 200 ações. O foco de toda a organização no cliente permitiu que a TAP deixasse de ser a segunda pior companhia da Star Alliance e passasse a integrar a média da indústria”.

Na carta diz também que a companhia aérea tem investido para conhecer melhor cada um dos clientes TAP através de sofisticadas ferramentas digitais. “O enorme capital de conhecimento que hoje temos permitiu-nos dar um salto qualitativo e aumentar as vendas. A satisfação é, naturalmente, o primeiro passo para conseguir a fidelização dos clientes. Com este objetivo em vista, fizemos tudo para que cada pessoa que viajasse connosco se sentisse realmente única”, salienta.

E deixa ainda uma palavra ao trabalho que foi realizado. “Os resultados validaram a estratégia. O NPS – indicador que mede a satisfação do cliente — duplicou em dois anos e as vendas diretas no Flytap também cresceram 129%, gerando significativas poupanças de custos. Estes dois pilares revelaram-se fundamentais na estratégia de expansão de vendas num período de grande intensidade em que abrimos 31 novas rotas. Além disso, criámos o programa Stopover — que logo no primeiro ano de atividade foi considerado um dos melhores do mundo pela revista americana Condé Nast Traveller — permitindo-nos potenciar o nosso hub: passageiros que só rodavam em Lisboa para seguir, em poucas horas, para outros destinos passaram a aproveitar a oportunidade para permanecer alguns dias em Portugal”.

Recorde-se que Abílio Martins esteve envolvido, em 2019, nos polémicos prémios pagos pela TAP ao ter recebido 110 mil euros. Ao todo, a companhia aérea pagou bónus de 1,17 milhões de euros a 180 pessoas, apesar de ter registado um prejuízo de 118 milhões de euros no ano anterior. Uma situação que levou Pedro Nuno Santos a considerar “inaceitável”.

"É falta de respeito com os trabalhadores da TAP que uma empresa que dá mais de 100 milhões de prejuízos dê prémios a uma minoria de trabalhadores", disse, na altura, o ministro das Infraestruturas, considerando que era uma decisão da gestão onde não estavam representados.

Na carta a que o Nascer do SOL teve acesso, Abílio Martins chama a atenção que, num mercado muito competitivo, a companhia aérea foi capaz de “valorizar a nossa localização geográfica e fazer dela uma verdadeira ponte entre continentes: o crescimento do mercado norte-americano traduz esta aposta totalmente conseguida que também trouxe com ela novos turistas ao nosso país. Ou seja, valorizámos a TAP e ajudámos a criar oportunidades de negócio para as empresas nacionais nos mais diversos setores de atividade, isto enquanto mantivemos a nossa força nos mercados tradicionais da TAP, como Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa”, acrescentando que “como é por todos reconhecido, a TAP é hoje uma empresa muito diferente do que era há apenas cinco anos. Somos uma empresa mais robusta, temos uma frota renovada, consistente, mais eficiente e ecológica, aviões mais confortáveis que estão, finalmente, em linha com a qualidade oferecida pelas melhores companhias europeias.

O até aqui responsável pelo marketing, comércio digital e comunicação deixa uma palavra às equipas que fizeram essa transformação. De pessoas para pessoas, em conjunto, liderámos a transformação da comunicação e cultura da TAP. Não só concebemos e implementamos os projetos, como os soubemos comunicar e celebrar com toda a organização, veiculando em cada um deles os nossos valores”.

E deixa uma garantia: “É por tudo isto que terei sempre muito orgulho em ser TAP. A TAP não passa, fica connosco, ficará comigo. Como saberão, estive nesta magnífica empresa de corpo e alma, do primeiro ao último minuto, sempre com a paixão e a energia do primeiro dia, e ajudei a corporizar os valores que fazem da TAP a Love Brand de Portugal.

Abílio Martins reconhece as dificuldades que a TAP enfrenta atualmente e admite que “deve continuar a ser nos próximos anos para que seja possível dobrar este cabo das tormentas”. Mas lembra que “temos todos a noção de que os momentos mais desafiantes testam a nossa força e capacidade de superação. Este último ano confrontou-nos com um teste sem paralelo em que todos estivemos à altura das circunstâncias, revelando capacidade de sacrifício e concentração”.

Ainda esta semana, Pedro Nuno Santos garantiu que a equipa que vai liderar os destinos da TAP vai ser divulgada “nos próximos dias” ou, o mais tardar, “nas próximas semanas”. Mas tal, como o Nascer do SOL já avançou, Miguel Frasquilho, atual presidente do conselho de administração da TAP, se perfila para ser reconduzido no cargo. E não deve ser caso isolado: também Ramiro Sequeira, até aqui CEO interino da companhia área – depois da saída de Antonoaldo Neves –, deve permanecer em funções, e será acompanhado por Alexandra Reis – contratada pelo Grupo Barraqueiro de Humberto Pedrosa para as compras da TAP – e Arik De, nos últimos anos responsável pelo departamento de redes e controlo de receita da companhia (este último escolhido e contratado pela anterior administração liderada por David Neeleman). Há, no entanto, ainda uma vaga por preencher, que será indicada pelo Ministério da Defesa. 

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