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Um ginásio na rua para o bairro. "Foi o melhor que fizeram aqui"

Um ginásio na rua para o bairro. "Foi o melhor que fizeram aqui"

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 23/04/2021 14:22

O espaço ainda nem devia estar a funcionar, mas o certo é que está e até já leva gente de fora a Casal de Cambra, freguesia do concelho de Sintra. Espaços de street-workout têm nascido nos últimos anos em vários pontos do país, com as autarquias a investir nestes ginásios de calistenia – o treino em que o corpo é a carga. Quem pratica a modalidade agradece – e os últimos meses de barras e ginásios fechados à conta da pandemia foram penosos. Mas há outros músculos que parecem exercitar-se para lá do corpo quando passa a haver um local de treino comum num bairro.

Ainda há restos de fitas a vedar o acesso, mas as barreiras já não são muito evidentes e as barras a estrear pedem que se façam umas elevações mesmo a quem não domina muito mais truques. Diferentes estruturas metálicas e marcas no chão formam um espaço de “street-workout” e se os praticantes de calistenia não precisam de introduções, para um leigo chegará ir ao YouTube para perceber o princípio de treino que assenta em usar como carga o corpo e que tem ganho adeptos ao longo da última década. Por cá também têm despontado recintos destes em diferentes pontos do país, que vão além do que começaram por ser circuitos de manutenção e agora são zonas de treino mais organizadas, ginásios de rua como os que se associam às praias da Califórnia ou aos bairros de Nova Iorque.

Estamos entretanto nos subúrbios da grande Lisboa, no Parque Urbano de Casal de Cambra, o último ponto no mapa de quem segue a modalidade com afinco. É o caso de Emanuel Pardal, 35 anos, que apanhamos num treino matinal, ao lado da filha que lhe pede de vez em quando que use os elásticos que traz na mochila não para treinar a resistência mas para improvisar um baloiço nas barras. “Um amigo veio cá e disse-me que tinha de vir conhecer”, conta o enfermeiro de cuidados intensivos, que tem estado a formar-se nesta área e espera iniciar-se como treinador.

De Loures, Emanuel nunca tinha ido a Casal de Cambra e não conhecia o parque urbano. A vida destes primeiros tempos do parque tem sido assim, entre utilizadores locais e ‘forasteiros’, com o passa palavra a fazer de anfitrião já que o novo espaço, fruto de uma intervenção de requalificação nos últimos meses, não foi ainda inaugurado e supostamente os equipamentos estão ainda fechados. O espaço de workout tem pouco mais de 15 dias e no parque há outros aparelhos de manutenção que esta semana ainda estavam embrulhados, mas a junta de freguesia que funciona também dentro do parque sabe que já há utilizadores. “As pessoas veem ali os equipamentos novos e querem fazer exercício”, assente ao i o autarca Mário Santos, que admite que agora nesta etapa de desconfinamento foram deixando de colocar fitas, depois de gastos centenas de metros, mas apelando no entanto a que se mantenham os cuidados.

A renovação do parque procurou criar um local de encontro intergeracional,  explica o presidente da Junta de Freguesia de Casal de Cambra, em que além deste espaço de street-workout – que até aqui tinha apenas um exemplar no concelho em Massamá – há uma pista para os mais velhos poderem andar, depois de a população ter pedido uma zona com piso estável, e um parque infantil também renovado, além de uma lagoa onde estão previstas outras atividades como paddle surf. Nas últimas semanas tem funcionado  num dos edifícios da junta um dos centros de vacinação da covid-19 no concelho e a deslocação de pessoas das freguesias de Sintra acabou por servir de cartão de visita do novo parque e por isso Mário Santos não estranha que já haja pessoas a vir de fora do concelho para treinar e espera que a pandemia permita que mais possam usufruir do resto do parque ao longo dos próximos meses, um investimento de mais de 100 mil euros participado pela Câmara Municipal de Sintra e pela junta. 

Voltamos à zona de treinos que chama a atenção numa das entradas. No fim de semana, treinava-se com música a sair de rádios trazidos de casa. São perto das 11h de um dia de semana e há menos de movimento. Emanuel, começa por ter o espaço só para si. Numa mochila traz os apetrechos de um verdadeiro praticante, além de elásticos por exemplo magnésio para as mãos, e conta que começou a fazer treinos de calistenia há dois anos. As mudanças no corpo são muitas. Com um trabalho exigente, as dores lombares eram fortes e deixou de precisar de tomar anti-inflamatórios desde que iniciou a modalidade. “É um treino que se for bem feito nos permite treinar todos os músculos do corpo, melhorar a postura. O conceito é que o corpo é a carga, pode ser regulado à condição física da pessoa e o risco é menor”, explica.
Treina quase diariamente, treinos planeados com diferentes funções. Depois do embate que foi a vida no hospital nos últimos meses, a hipótese de o fazer a tempo inteiro como treinador ganhou também corpo e sublinha que, tal como aconteceu com o cross-fit há uns anos, esta é uma das novas tendências na área do desporto, que ainda sofre dos preconceitos iniciais de ser associada a treino nas prisões ou divisões raciais, quando é um princípio de exercício que pode ser experimentado por todos, de crianças a  adultos, mesmo mais velhos. Se esta paixão ganhou forma, as condições para ser enfermeiro ao longo de um ano de pandemia mostraram-lhe que o caminho talvez seja mesmo por aqui. “É uma profissão muito mal tratada, somos um número”, lamenta, com as férias do ano passado por gozar e a prática desportiva, mesmo a exigente, a servir de contrapeso a um ano duro.

Enquanto Emanuel se eleva nas barras, vão chegando mais algumas pessoas ao parque – o céu vai aguentando a chuva que ameaça com um sol confortável para treinar ao ar livre. Um grupo de miúdos sem grandes planos ensaia umas elevações, também sem grande sucesso.  Igor, Bernardo e Ruben são alunos do 6º ano, contam, e gostavam de fazer “aquilo” apontam. Aquilo são coisas como Emanuel pendurado numa barra com o corpo na horizontal. O novo ginásio de rua tornou-se também um dos spots populares nas horas sem aulas e naquele dia têm três para gastar. No confinamento, estavam em casa e agora não hesitam em dizer que aquele espaço é melhor do que estar a jogar computador à frente do ecrã. Não dá para saber se porque é novo ou se será para durar, mas aos 12, 13 anos mostram preocupação com o corpo. “Engordei um bocado em casa”, diz um deles. “Eu como, como, como e não engordo”, diz matreiro o outro. A sorte não é igual para todos mas o exercício dos mais velhos chama-lhes a atenção. 

Numa barra à frente, João Valente, de 34 anos, faz as suas elevações. Revê-se nos miúdos mais novos com quem agora partilha no parque no lugar de adulto. “No meu tempo não havia nada disto e pode ser que seja bom para não andarem a fazer outras coisas piores na rua”, diz. Por ele, não tem dúvidas: “Moro aqui desde que nasci e foi a melhor coisa que aqui fizeram”. Trabalha em remodelações e começou a treinar Kickboxing em casa há 12 anos. “Há muita gente que não tem dinheiro para andar em ginásios. Eu optei por comprar as minhas coisas e treino em casa mas há os pequenos pobres que nem para isso. Somos todos pobres de alguma maneira”, diz.

Também a aproveitar o espaço está Luís Bemhaga, com um exercício mais moderado mas focado. Cabo-verdiano a viver há um ano em Casal do Bispo, ali ao lado, com um mestrado em solicitadoria interrompido durante a pandemia por ter deixado de conseguir suportar os custos, descobriu o novo ginásio nos treinos que faz questão de manter enquanto espera começar a trabalhar como segurança e voltar a poder pagar a faculdade. 

Agora, corre os dois quilómetros de Casal do Bispo até ali até ali e complementa os treinos de carga que faz em casa com garrafões de água com cinco litros cheios. “Aqui é o corpo que trabalha mas nunca é só o corpo que trabalha. Para mim o treino é físico e psicológico”, descreve, depois de explicar que procura ler sobre a prática para aplicar com método. Em Cabo Verde treinava num ginásio e por agora o orçamento não dá. “Mesmo para a aprendizagem, o desporto é muito importante. Sem desporto a nossa mente não fica liberta. O stresse é uma carga que deixa o corpo sob tensão e temos e a libertar para conseguir apreender. Quando vemos o nosso corpo evoluir, é a nossa autoestima que aumenta. Tudo que faças aqui ou em qualquer outro lado é para o bem-estar do corpo, mas o primeiro a ficar satisfeito é o psicológico”, sublinha.

Uma modalidade à espera de desconfinar Em três utilizadores do espaço na manhã desta reportagem, só Emanuel é praticante de calistenia. Stanislav Nosov fundou há 12 anos a Associação Portuguesa de street-workout. Ao telefone de Braga, considera positiva a abertura de mais parques mas sublinha que o último ano, mesmo que mais pessoas se tenham rendido à prática desportiva ao ar livre, não foi um bom ano para a modalidade. “Foi destrutivo”, diz.
Muitos parques estiveram fechados, bem como os ginásios. Grupos de praticantes deixaram de ter onde treinar e as competições pararam. A associação tem conhecimento de cerca de 400 praticantes de street-workout no país e cerca de 20 atletas ativos, mas voltar a organizar competições torna-se complicado com os treinos perturbados e algum receio de fazer má figura. 

Hoje treinador, o bichinho da calistenia ficou-lhe de miúdo. “Fazíamos truques mas não era pela competição. As escolas russas são muito bem equipadas, todas tinham este tipo de equipamentos, barras, faz parte da cultura física da nossa cultura.” 

Em 2010, já a viver em Braga, começou a treinar com um amigo. Foi o tempo em que a modalidade apanhou boleia no YouTube, sobretudo com praticantes nos Estados Unidos, com contributos de modalidades como artes marciais e habilidades circenses. Em pouco tempo, tinham um grupo de 50 pessoas e o street-workout foi ganhando adeptos por cá, ao mesmo tempo que começaram a surgir espaços de treino. Mesmo como espaço de treino na rua sem qualquer ambição de competir, acredita que é um bom investimento. “Em bairros sociais, pode ser uma forma de a malta ficar ocupada e desviar-se de outras coisas da rua e fazer desporto ao ar livre é sempre uma boa alternativa. Nas barras podem treinar-se todos os grupos musculares. Quem quiser pode ficar ‘quadrado’, mas qualquer pessoa pode fazer só para se sentir bem.” 

O desporto como forma de inclusão Mário Santos explica que antes da intervenção no parque urbano de Casal de Cambra havia equipamentos antigos na freguesia que incentivavam menos a fruição do espaço e que a ideia foi transformar o recinto num local onde todos se sentissem bem e encontro intergeracional, também na vertente da inclusão. E o desporto como eixo dessa intervenção já não é de agora numa freguesia que tem um bairro social e que historicamente é mais carenciada, embora hoje menos do que no passado, sublinha o autarca. 

Um dos motivos de orgulho local é a Escola de Luta Olímpica de Casal de Cambra, de onde já saíra medalhados, quer em luta olímpica quer em luta greco-romana. A autarquia cede também o campo de futebol do parque ao Clube O Despertar de Casal de Cambra, onde o defesa-esquerdo do Sporting  Nuno Mendes deu os primeiros espaços como jogador. “A nossa preocupação foi criar espaços que toquem todas as idades e no caso dos jovens tirá-los da rua e dar-lhes uma ocupação desportiva”, explica o autarca.

Depois da requalificação, há planos para uma nova intervenção na freguesia num baldio de 26 mil metros quadrados, onde haverá também um equipamento de street-workout, continuando a devolver vida de comunidade aos bairros. “Com este movimento da por causa da vacinação, que está feito num salão que é também o nosso novo teatro e só conseguiu ainda ter uma peça devido à pandemia, o que muitas têm dito é que não conheciam o parque. É novo? Já cá está há 20 anos, só que não tinha vida.”

 

 

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