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Slávia. Na altura de puxar o brilho a um velho senhor embaciado

Slávia. Na altura de puxar o brilho a um velho senhor embaciado

Afonso de Melo 22/04/2021 18:00

Derrotados pelo Arsenal na Liga Europa, os checos perderam a hipótese repetir a sua melhor prestação de sempre, as meias-finais de 1995-96.

Dolorosamente derrotado em casa pelo Arsenal (0-4), o velho Slávia de Praga não conseguiu repetir a melhor temporada europeia pós-UEFA e classificar-se, tal como em 1995-96, para as meias-finais da Liga Europa e que, na altura, se chamava precisamente Taça UEFA.

Digo e repito muitas vezes: antes da Confederação Europeia existir com toda a força da sua ganância e transformar as competições entre clubes (e entre selecções também) numa galinha de ovos de ouro para a qual o verdadeiro futebol não importa, já se disputavam, um pouco por toda a Europa, provas internacionais da mais rija competitividade. Uma delas era a Mitropa Cup, cujo nome nasceu da concentração da palavra alemã Mitteleuropa, ou Europa Central, e que punha em disputa, como se está mesmo a ver, os campeões dos países mais centrais, da Áustria à Jugoslávia ou da Hungria à Checoslováquia.

A Copa Mitropa teve início no ano de 1927, tempo em que, tirando a Inglaterra, que teimava em não querer misturar-se com o resto da maralha justificando que, sendo os melhores do mundo, não tinham de o provar jogando contra os irritantes plebeus do lado de cá da Mancha, os clubes mais fortes se encontravam junto às margens o Danúbio. Um deles era o Akademický Cyklistický Odbor Slavia, da cidade de Praga, fundado em 1892.

1938! Falo de tempos em que os clubes também tinham o péssimo hábito de mudar de nome como quem muda de camisa. Nos anos que se seguiram transformou-se no Sportovní Klub Slavia Praha e, em seguida, no Sokol Slavia Praha. Em 1938, os dirigentes do Slávia roíam-se de inveja dos rivais da porta ao lado, o Sparta de Praga, que vencera a primeira edição da tal Copa Mitropa, batendo o Rapid de Viena na final, e gabavam-se disso com um orgulho mais do que justificado.

Os anos iam passando e as presenças do Slávia na prova não tinham atingido o sucesso: 1928, eliminado na primeira ronda pelo Admira Viena (1-3 e 3-3); 1929, finalista derrotado pelo Ujspesti (1-5 e 2-2); 1930, afastado na eliminatória inicial pelo Ferencvarós (2-2 e 0-1); 1931, outra vez na primeira ronda, face à Roma (1-1 e 1-2); 1932, uma bronca descomunal nas meias-finais – depois de uma vitória caseira por 4-0 frente à Juventus, os checos foram recebidos à pedrada em Turim, abandonando o relvado depois de o guarda-redes Planicka ter sido atingido ficando com a cabeça rachada. Salomonicamente, o comité de organização da prova castigou os dois clubes com expulsão e o Bolonha ficou sem adversário na final.

Na época seguinte, nova queda na primeira eliminatória, face ao Áustria Vienaa (3-1 e 0-3); em 1934, repetiu-se a história, desta vez frente ao Rapid de Viena (1-3 e 1-1); em 1935, dupla azia: eliminados à primeira pelo Szegedi (1-4 e 1-0) e com o Sparta a conquistar o seu segundo troféu; em 1936, o Sparta voltou a jogar a final, perdida para o Áustria, Áustria esse que eliminou o Slávia nos quartos-de-final (0-3 e 1-0); em 1937, de novo na ronda um, aos pés do Ferencváros (2-2 e 1-3).

Eis que chega, finalmente, o ano de 1938. Um dos mais belos da história do clube. Pelo caminho ficaram o Beogradski (3-2 e 2-1) e o Inter de Milão – ao tempo sob o nome de Ambrosiana já que o termo Internazionale era muito ligado aos ideais comunistas e muito mal visto na Itália fascista – (9-0 e 1-3). Na final, os velhos conhecidos do Ferencváros ainda foram a Praga empatar na primeira mão a duas bolas, mas a vitória dos checos na Hungria foi clara e límpida como os olhos da Michelle Pfeiffer – 2-0.

 Outras equipas checoslovacas ganhariam a Mitropa Cup nos anos seguintes, como foi o caso do Spartak de Praga, do Spartak Trnava e do Internacional de Bratislava, do Tatran Presov e do Banik Ostrava, por exemplo. Mas o aparecimento da Taça dos Campeões esvaziou a prova já que, na sua maioria, os clubes com calendários cheios preferiam participar na nova competição do que na antiga. O Slávia deixou Leicester e Rangers pelo caminho, mas não resistiu ao poder do Arsenal. Mas tem um nome muito antigo ao qual é preciso puxar o brilho embaciado.

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