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Na rota faraónica da literatura e dos vinhos verdes

Na rota faraónica da literatura e dos vinhos verdes

Rita Homem de Mello 22/04/2021 17:01

Porque como Pessoa dizia “Boa é a vida. Melhor é o vinho”, nada melhor que brindar a Primavera neste fim de semana solarengo de 20 e 21 com 2 dedos de conversa sobre literatura e vinhos.

Esta é uma iniciativa para decantar até à última gota. Organizado pela Comissão de Viticultura da Região Dos Vinhos Verdes (CVRVV) em parceria com a editora Aletheia, este evento é um convite tentador à verdadeira comunhão entre a palavra e o palato.

São livros como “Noite Fantástica” de Stephan Zweig; “Álvaro Cunhal no País dos Sovietes” de Helena Matos (texto) e José Milhazes (legendas); “O Coração De Cão” de Bulgakov; “Coração, Cabeça e Estômago” de Camilo; «O Retrato de Dorian Gray», de Oscar Wilde, «Foi Assim» de Zita Seabra; «A Incredulidade de Padre Brown» de G. K. Chesterton, ou «Egipto, notas de viagem» de Eça de Queirós, que se associam a diferentes marcas e produtores. São eles a Quinta Da Raza, a Quinta de Lourosa, a Adega de Ponte de Lima, a Quinta da Lixa, a Quinta De São Gião, a Casa da Tojeira, os Vinhos Norte, o Solar das Bouças, a Adega de Ponte da Barca e a Veercope.

Foi sob a chancela de «Egipto, notas de viagem» com a moderação de Ana Colaço que o jornal I, mediante inscrição, participou neste desafio on line.

Além do livro em análise, os participantes receberam em suas casas, uma garrafa desta monocasta produzida em 2019 em Celorico de Basto, bem como outro exemplar «Receitas Para Vinhos Verdes», onde dez reconhecidos chefes como José Avillez, Francisco Meirelles, Aimé Barroyer ou Hélio Loureiro sugerem pratos como Cherne em engaço e vinho verde branco, sorvete de vinho verde com frutos do bosque e suspiro ou biqueirões marinados com geleia de vinho verde.

Esta sessão teve lugar às 12 horas de domingo e teve como anfitrião o Avesso da Quinta da Raza e o «Egipto, notas de viagem» de Eça de Queirós. O brinde perfeito que deu mote à interessante conversa entre os produtores Mafalda e José Diogo Teixeira Coelho, o enólogo Pedro Campos, e o Professor Joaquim Magalhães, docente de literatura na Universidade de Letras do Porto e diretor do solar Condes de Resende.

No tempo de Eça não havia Zoom nem Teams «Deus nos dê paciência para aturar tanta civilização» foi assim, neste tom informal que Joaquim Magalhães iniciou a conversa. Uma conversa que partiu da viagem ao Oriente para estar a par e passo com a viagem ao coração das Terras de Basto, ou melhor, do ‘País de Basto’ como tão bem lhe chamava Ruben A.

Com o inconfundível monte da Senhora Da Graça em plano de fundo e as vinhas em redor, os produtores apontaram algumas das mais genuínas razões para viajar até Basto. Da visita à adega da Quinta, às provas, ao enoturismo, às caminhadas ou passeios de bicicleta na extensa e verdejante ciclovia, ou às atividades radicais como o parapente ou o rafting no Tâmega para os mais aventureiros, não faltam motivos para uma escapadela.

No ano de 1869, Eça nos seus vinte e poucos anos parte para o Egipto com o seu amigo Conde de Resende, numa viagem que incluiu a inauguração do Canal de Suez e outras tantas aventuras.

Que vinhos terá Eça bebido nesta viagem? Terá levado na mala alguma das garrafas que bebia nos repastos dos Vencidos da Vida no restaurante lisboeta O Tavares? Que castas terá degustado a ver as ghawazis a dançar? Que alegrias terá brindado em Alexandria, cidade de Cleópatra, ou em pleno Cairo no Shepheard’s Hotel?

“São sete horas da noite. O gás flameja no largo corredor lajeado; os aparelhos cintilam; os dragomanos circulam. Um árabe percorre os corredores, batendo numa larga placa de metal, como para o anúncio de um velho rito. Aquele som velado, doce e penetrante, espalha-se num eco esbatido pelas largas salas. É o jantar. A imensa sala, adornada de colunas, está cheia de luz; os cristais faíscam; os árabes, os escravos núbios, os criados franceses servem-se apressadamente. Àquelas mesas estreitas senta-se um mundo bem diferente daquele que se move vagarosamente pelas ruas do Cairo: aqui é o nosso mundo, europeu, civilizado, sábio, filosófico, egoísta e rico. São embaixadores, poetas, engenheiros, loretas, caricaturistas, pintores, fotógrafos, burgueses, dândis, lordes, jornalistas, críticos e agiotas. O rumor das palavras tem uma tonalidade alegre.”

O Avesso da Quinta da Raza, tem igualmente esta tonalidade alegre de que Eça nos fala. Mas não só alegre, também mineral e cítrica. De acordo com o enólogo Pedro Campos, “não é um vinho que tenha que ser bebido no ano seguinte à colheita. É um vinho que evolui de forma positiva na garrafa, o que em grande parte, eleva a experiência da sua degustação. O enólogo sublinha também que as zonas montanhosas privilegiam esta casta.

A sua etimologia deriva do latim “aversum” e significa contrário, oposto. Tanto os produtores, como o enólogo brincaram com o seu significado, alegando que na verdade é uma casta difícil de trabalhar, mas sendo um vinho que se engarrafa um ano após a vindima, permite-lhe um ph equilibrado e um certo envelhecimento.

Lemos no posfácio escrito pelo Sir Raymond Carr na 5ª edição revista e aumentada do livro de Maria Filomena Mónica «Eça de Queirós» que este autor realista era também ele alguém avesso ao sistema. “Era, de facto, alguém que mantinha relações difíceis com o establishment literário.” Também a acalentar esta ideia, o professor Joaquim Magalhães chegou a lembrar dois episódios em que Eça bateu em dois professores em diferentes instituições de ensino.

Avesso foi também à época o Oriente e todas as descrições que o escritor documentou neste livro em jeito de narrativa de viagem. As paisagens; os turbantes; os haréns; os magrebinos; os mucharabiehs; as mulheres; os tocadores de durbaka; os stambulines; o haxixe em bolo; os félas; os cofiós, “espécie de faixas brancas que servem de cinta aos árabes do Cairo e de turbante aos beduínos”; as dançarinas ou os bazares.

«Um dos bazares mais curiosos é o bazar das drogas: era um aroma inexplicável, feito de todas as especiarias ardentes e excitantes; a confusão que se nota em todos os bazares, ali, redobra: sacos, grãos, pastilhas, massas escuras, bolos esverdeados, geleias, os doces da cozinha árabe destacam a sua coloração indigesta e espalham um aroma irritante. Confesso, cheio de humildade, que ignoro quase todos os nomes, a utilidade, o valor daquelas matérias coloridas enjoativas e sujas. Frutas secas, pastéis, drogas, tudo ali se reúne em confusão. As coisas estão em montras, em cima de papéis ou dentro de caixas sem tampa ou de sacos abertos; amontoam-se indiferentemente o henné, o antimónio, o pistache, o âmbar escuro, o mastik, a noz-moscada, as tâmaras, a canela!»

Não há dúvida, que este Oriente, tal como o vinho em causa, inseriu-se numa rota que foi magnificamente descrita do avesso, ou seja, na sua essência mais pura e verdadeira. E porque o avesso soa sempre a resistência, como referiu um dos intervenientes, «Este avesso é excelente, e tal como o Alvarinho, deveria ser uma casta icónica dos vinhos verdes.»

Talvez seja ainda pertinente estabelecer mais dois paralelismos entre este vinho e este Egipto queirosiano. O Nilo versus Tâmega e o azul, cor escolhida para o rótulo, tão presente e viva em toda a narrativa.

Comecemos pelos rios. Se Eça faz uma comparação entre o Nilo e o Tejo, dizendo que «O Nilo ali é estreito, menos largo que o Tejo. Uma vegetação poderosa, profunda, violenta, cobre as margens e vem mergulhar as suas raízes na água.», também as margens do Tâmega, ali tão perto das vinhas da Raza e do Vale d’Água, outra propriedade da família Teixeira Coelho, vem ancestralmente mergulhar as suas raízes. Raízes que remetem a antepassados não ilustres como os de A Casa de Ramiro, mas sim como os da Casa do Outeiro, de onde Diogo Teixeira Coelho descende, e onde nascido e criado, ganhou o amor à terra.

Regressemos ao azul. No que diz respeito a esta cor, Mafalda Teixeira Coelho, explicou que a origem desta escolha para o rótulo deve-se, mais do que à cor do mosto desta casta, a uma homenagem ao mar.

Sendo de Lisboa, e tendo virado a sua vida do avesso por causa do vinho, era a cor que mais sentido fazia. «Aqui só me falta o mar.» Diogo por sua vez explicou que cada cor dos rótulos está em sintonia com a cor do respetivo mosto. «O rótulo do Azal do vinho Dom Diogo é mais esverdeado porque se associa ao limão verde, o Alvarinho é bronze porque é mais carregado e o Arinto é amarelo porque nos lembra a fruta madura.»

Podemos intuitivamente também associar o azul elétrico do rótulo ao mar de Cádis, às túnicas azuis dos felás, aos turbantes, às paisagens. « É no céu que vemos Deus… E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar donde ele tira força, consolação e esperança. A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no. No Egipto não há céu : aquela profundidade lisa, imóvel, sempre eternamente azul, é um deserto, é uma solidão.»

 

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