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Kazuo Ishiguro e a Andróide Klara

Kazuo Ishiguro e a Andróide Klara

Carlos Fiolhais 22/04/2021 15:24

No seu mais recente romance, o Nobel japonês interroga-se o que distingue um homem de um robô - poderá algum dia um robô revelar-se humano, isto é, amar e ser amado?

 

No seu discurso do Nobel proferido em Estocolmo em Dezembro de 2017 o escritor inglês de origem japonesa Kazuo Ishiguro escreveu uma passagem que de certo modo pré-anuncia o seu oitavo e mais recente romance, Klara e o Sol, saído há pouco na Gradiva:

“E ao dobrar da esquina - ou teremos já dobrado essa esquina? - estão os desafios colocados pelos espantosos avanços da ciência, da tecnologia e da medicina. As novas tecnologias genéticas, como a técnica de edição genética CRISP [que valeu o prémio Nobel da Química de 2020 às suas descobridoras] - e os progressos da inteligência artificial e da robótica trar-nos-ão benefícios extraordinários, salvadores de vidas, mas poderão também criar meritocracias selvagens semelhantes ao apartheid e desemprego em massa, incluindo o daqueles que agora fazem parte das elites profissionais.

Portanto, aqui estou eu, um homem na casa dos sessenta [Ishiguro tinha 63 anos quando recebeu o Nobel], a esfregar os olhos e a tentar distinguir os contornos, lá fora na névoa, de um mundo que até ontem eu não suspeitava existir. Poderei eu, um escritor cansado, de uma geração intelectualmente cansada descobrir agora a energia para olhar para este lugar estranho? Terei ainda algo que possa ajudar a dar um sentido de perspectiva, a fornecer camadas emocionais aos argumentos, às lutas e às guerras que sobreviverão quando a sociedade se debater para se ajustar a estas mudanças gigantescas? 

Terei de prosseguir e dar o meu melhor. Ainda acredito que a literatura é importante e sê-lo-á particularmente quando atravessarmos esse terreno difícil.”

Retirei a citação, que peço desculpa por ser um pouco longa, do livrinho de Ishiguro A Minha Noite no Século XX e Outras Pequenas Descobertas (Gradiva, 2018). Tendo lido com bastante gosto o novo romance de ficção científica Klara e o Sol, cujo lançamento internacional ocorreu em março de 2021, com edição portuguesa simultânea numa excelente tradução de Maria de Fátima Carmo (que já tinha traduzido o discurso do Nobel), concluo que há três anos os temas da inteligência artificial e da robótica, em particular da criação de robôs de forma humana que interagem com os humanos, preenchiam a mente do escritor no seu processo criativo. Ishiguro descreve a vida numa sociedade futura, usando como é comum nele um discurso na primeira pessoa do personagem principal, que neste caso é um androide, pertencente à série dos AA (Amigos Artificiais). A máquina, que tem muito de humano, embora esteja cognitiva e socialmente abaixo dos humanos, faz de “dama de companhia” a uma adolescente, Josie, numa época incerta num sítio incerto dos Estados Unidos. O Sol do título explica-se porque a robô funciona com energia solar, sendo para ela o “astro-rei” uma espécie de deus, uma entidade da qual depende estritamente e à qual por isso pede auxílio quando necessita. Em civilizações antigas, como a egípcia, a romana, a inca e a asteca, o Sol era uma divindade, pelo que não admira que um robô primitivo seja capaz de conceber um deus solar com base na sua experiência de vida.

Os autores de ficção científica propõem-nos viagens no espaço e no tempo apenas à procura de ver os seres humanos de outra perspectiva. Se vamos, como num romance de Júlio Verne, à Lua, é para, com a distância, ver melhor como somos na Terra. Se vamos, como num romance de H. G. Wells a um futuro distante numa máquina do tempo, é para observar melhor a nossa sociedade actual. Também esta visão imaginada por Ishiguro de um futuro distópico é uma tentativa de conhecer melhor os nossos medos e os nossos dilemas de hoje, numa época atravessada pelas questões que o autor levantou no seu discurso de Estocolmo. A questão de fundo, quer na ciência quer na literatura, é aquela que já estava no porta do templo de Delfos na Antiga Grécia: “Conhece-te a ti próprio”. Quem somos? Percebemos melhor através do pensamento de Klara, apesar das suas aparentes insuficiências (ou talvez mesmo por causa delas), quem somos. A questão-chave do livro é: o que há de único no homem? O que é que nos distingue de um robô? O que é que sentimentos como o amor têm de intrinsecamente humanos? Poderá algum dia um robô revelar-se humano, isto é, amar e ser amado?

De facto, esta novela de antecipação reflecte não apenas os temas da inteligência artificial e da robótica, mas também o da edição genética, outro dos grandes desafios da ciência de hoje que vai determinar a nossa vida amanhã. O autor antecipa uma profunda desigualdade social em resultado de manipulação genética. Há pessoas que são “elevadas” e outras, que não tendo sido sujeitas a esse processo, dificilmente poderão competir com elas. Klara foi comprada pela mãe de Josie, para minorar a solidão desta. A jovem padece de uma estranha doença (talvez por falha do processo de “elevação”) e, no mundo em que vive, o ensino faz-se à distância (uma premonição, pois o romance foi concluído antes da actual pandemia!). A robô é muito simpática e faz o melhor que pode (e a sua tecnologia lhe permite) para cumprir a sua missão de dialogar com a “dona” e demais humanos em redor. Tem um interior cheio de electrónica, mas um exterior de forma humana (está já a ser preparado um filme e vamos ver como Klara vai ser no cinema). É muito boa observadora, tirando partido das imagens que a sua visão focalizada em pormenores lhe proporciona, e tira constantemente conclusões de tudo aquilo que observa. É capaz não só de manter agradáveis conversas mas também de congeminar, construindo concepções um pouco ingénuas, como mostra a sua confiança na boa influência do Sol para todos, robôs e humanos. 

Na sociedade onde vive Josie, uma parte da população foi alienada por ter sido substituída por máquinas nos seus empregos. Pairam claras tensões sociais e políticas. A animosidade contra os robôs transparece: uma pessoa que vê Klara ir ao teatro com Josie comenta que os robôs até já tiram os lugares do teatro. 

Não contando muito do enredo, sempre digo que o clímax se atinge quando se percebe que a mãe de Josie tinha comprado aquela andróide à filha, na esperança de que a máquina a substituísse no caso de desfecho fatal da doença da jovem (já tinha morrido outra filha). E, para isso, encomenda a um engenheiro-artista um modelo 3D de Josie que pudesse ser “habitado” por Klara, se Josie morresse. A pergunta é óbvia: se Klara for igualzinha à filha poderia a mãe amá-la do mesmo modo? O pai de Josie, que está separado da mãe, questiona Klara: ”Acreditas no coração humano? Não me refiro simplesmente ao órgão, como é obvio. Estou a falar no sentido poético. O coração humano. Achas que tal coisa existe? Algo que torna cada um de nós especial e único? Vamos supor que existe. Nesse caso, não achas que, para conheceres verdadeiramente a Josie, terias de aprender não apenas seus maneirismos, mas também o que existe no mais profundo deles? Não terias de conhecer o seu coração?”.

Qualquer obra é sempre o resultado da vida do autor. Ishiguro nasceu em Nagasáqui, o sítio onde deflagrou a bomba atómica que terminou a Segunda Guerra Mundial. O pai era um oceanógrafo que, trabalhando para o governo do Reino Unido, se fixou em Inglaterra quando o filho tinha cinco anos. O regresso ao Japão foi sendo adiado até não mais acontecer. Ishiguro fez a escolaridade britânica, interiorizando a língua inglesa, que não era falada em casa, e a cultura ocidental, que também era mais da rua do que de casa. Na sua adolescência, nos anos 70, sonhou ser músico, seduzido pelas canções de Bob Dylan (Nobel da Literatura de 2016) e Leonard Cohen. Tocou em vários clubes, mas as suas gravações de guitarra e voz não tiveram êxito. Hoje alimenta a sua paixão pela música escrevendo letras para a cantora de jazz Stacey Kent. Estudou Inglês e Filosofia na Universidade de Kent e fez um mestrado em Escrita Criativa na Universidade de East Anglia, em Norwich, sob a orientação de Malcolm Bradbury e Angela Carter. O seu primeiro romance foi a sua tese: As Colinas de Nagasáqui (Gradiva, 1990). Seguiram-se: Um Artista do Mundo Flutuante (Gradiva, 2018); Os Despojos do Dia (Gradiva, 1995), vencedor do Booker Prize e adaptado ao cinema; Os Inconsolados (1995; Gradiva), vencedor do Cheltenham Prize; Quando Éramos Órfãos (Gradiva, 2000), nomeado para o Booker Prize; Nunca Me Deixes (Gradiva, 2005), uma obra de ficção científica também nomeada para o Booker Prize e adaptada ao cinema; e O Gigante Enterrado (Gradiva, 2015). Acresce uma colectânea de contos: Nocturnos: Cinco Histórias Sobre Música e o Cair da Noite (Gradiva, 2017). 

Voltando ao tema dos robôs, Klara é uma robô terna e submissa, que não tem nada do Frankenstein imaginado há pouco mais de 200 anos por Mary Shelley. Bem mais inteligente do que os nossos actuais robôs, é uma boa companhia. Tem um corpo parecido com o nosso que se move (a mãe na loja escolhe-a porque ela consegue imitar Josie a andar). É, porém, muito diferente do robô Adam do romance de ficção científica Máquinas como Eu (Gradiva, 2019), do inglês Ian McEwan, cujo nome tem aparecido nas listas dos nobelizáveis. O dono de Adam tem uma namorada e vive um triângulo amoroso quando Adam se intromete na relação. No mais recente romance de Ishiguro não há sexo, mas apenas sentimentos fortes. Não deixa de ser curioso, que dois séculos após Frankenstein, os robôs se tenham tornado personagens plausíveis de romance. O futuro vem aí e a literatura costuma ser muito boa a anunciar o futuro. 

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