7/5/21
 
 
Hélder Novais e Bastos. "A fibrose pulmonar não tem merecido grande destaque"

Hélder Novais e Bastos. "A fibrose pulmonar não tem merecido grande destaque"

Maria Moreira Rato 21/04/2021 14:45

Aos 36 anos, o pneumologista recebe o maior prémio nacional de incentivo à investigação para jovens médicos para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida das pessoas que sofrem de fibrose pulmonar. Como se estuda melhor uma doença nos dias de hoje?

Hoje ser-lhe-á entregue a Bolsa D. Manuel de Mello, atribuída pela Fundação Amélia de Mello em parceria com a CUF, que é o maior prémio nacional de incentivo à investigação para jovens médicos, no valor de 50 mil euros. Como é que se sente?

É um reconhecimento, não pela população em geral ou pelo poder político, mas por pares ligados à Medicina e à Ciência que veem neste projeto uma mais-valia. É muito gratificante porque é o meu primeiro grande projeto enquanto investigador principal, feito de forma estruturada e com perspetiva de continuidade. Continuarei a levá-lo além dos anos que estão estipulados, que são três, e é algo concebido por mim com auxílio porque nada se faz sem ajuda. 

A fibrose pulmonar é pouco investigada em Portugal?

É uma área relativamente recente que não tem merecido grande destaque. Há doentes e começa a perceber-se o interesse, mas há pouca investigação nas doenças que conduzem à fibrose pulmonar e na mesma. Por isso é que esta bolsa é importante para mim, obviamente, mas também para o país porque nos dá meios para conseguirmos investigar e acompanhar a evolução de outros países. Acho que este último ano mostrou como é importante estarmos à frente das necessidades para darmos uma resposta aos doentes. 

Tal é especialmente relevante nesta patologia?

Esta doença tem uma elevada mortalidade, frequentemente comparável a muitos tipos de cancro, mas não tem o mesmo peso social. O investimento em doenças graves do ponto de vista da prevalência tem sido grande. A fibrose pulmonar causa elevada mortalidade, uma perda de qualidade de vida e de autonomia. Os doentes que têm dificuldade progressiva em respirar ficam dependentes de oxigénio para conseguirem fazer a sua vida normal e acabam por ser mais suscetíveis a outro tipo de infeções, podendo morrer. 

Quantos portugueses sofrem com esta doença?

O número é desconhecido, mas é suficientemente relevante para se estudar. No Hospital de São João temos mais primeiras consultas de fibrose pulmonar do que de cancro do pulmão. Estamos a falar de um centro de referência. A partir do momento em que fazemos o registo de doenças pulmonares difusas, sabemos quantas causam e não causam fibrose pulmonar. Poderemos dar uma estimativa para o Norte do país a partir deste projeto. 

Em que se consiste a investigação “FIBRA-Lung: Interações hospedeiro-microbioma na busca por biomarcadores de doenças pulmonares intersticiais fibrosantes que regem a aceleração”?

Para a população, o que interessa saber é aquilo que vamos fazer, ou seja, o primeiro registo português de doentes com fibrose pulmonar. O Hospital de São João concentra muitos doentes da região Norte, vamos acompanhá-los, ver a sua evolução, e recolher amostras biológicas – sangue, líquido profundo do pulmão – e, no seguimento, recolhê-los novamente e perceber que parâmetros em circulação se vão modificando. Vamos perceber quais é que se agravam e que motivos provocam isso. São doenças incompreendidas, precisamos de encontrar marcadores circulatórios de fácil colheita que permitam dizer que “este doente vai agravar, este vai responder melhor ao tratamento A ou B”. 

Como é que a doença pode ser explicada a um leigo?

Há duas formas de interpretá-la: sabemos o que é a cirrose hepática, ou seja, que é um resultado final de uma hepatite viral ou do excesso de álcool e que o fígado vai ficando com cicatrizes e deixa de funcionar. Neste caso, trata-se de uma “cirrose” do pulmão, há uma deposição de fibras, o pulmão fica mais rijo, com menos capacidade de ventilar e expandir para assimilar o oxigénio. Por outro lado, a cicatrização perpetua-se e acentua-se. Ao contrário de outros órgãos, não existe possibilidade fazer diálise, como para o rim, pois o oxigénio tem de ser renovado em permanência. A fibrose pulmonar é uma das principais razões para transplante do órgão, representando cerca de um terço do total de transplantes de pulmão em Portugal e no mundo.

Esta doença causa deterioração progressiva da função pulmonar resultando em cansaço crescente, insuficiência respiratória e morte. Acredita que a sua investigação pode prevenir este desfecho?

É importante antecipar a fibrose porque, quando evolui, provoca sequelas permanentes. Não conseguimos recuperar as funções. O tratamento que existe é para prevenir e um dos objetivos é iniciá-lo o mais precocemente possível. 

Esta doença é uma das sequelas da covid-19. O estudo que está a desenvolver também pretende auxiliar os pacientes que padecem de coronavírus? 

Não são muitos doentes covid que a têm, mas sim uma pequena franja. Acabam por ter um percurso relativamente benigno, mas há quem tenha pneumonia grave que possa evoluir para fibrose pulmonar. Estamos a falar do resultado final de uma série de doenças. O estilo inicial pode ser inflamatório, de autoimunidade, toda uma panóplia. Mas, apesar do estímulo ser heterogéneo, o resultado é a fibrose pulmonar com padrões diferentes, na medida em que o percurso afunila. Temos aplicado inflamatórios, antifibróticos e imunosupressores. Em termos de faixa etária, depende muito, mas tem sido a população idosa que mais sofre.

De acordo com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, a fibrose pulmonar ocorre mais frequentemente em doentes acima dos 60 anos. É esta a idade dos doentes covid que padecem desta doença? 

É mais frequente nessa faixa etária, mas pode acontecer em qualquer uma, inclusivamente em crianças. 

O diagnóstico habitualmente tardio, a inexistência de marcadores fiáveis que permitam prever a evolução da doença e o quão precoce ou intensivo deve ser iniciado o tratamento, aliada à escassez de alternativas terapêuticas disponíveis e de investigação nesta área, motivam o desenvolvimento deste estudo?

Sim. Por exemplo, o cancro evoluiu para um tratamento personalizado. Fazemos uma biópsia e conseguimos ter alvos terapêuticos individualizados. O cancro do pulmão também tem diferentes características. Os marcadores definem que o doente vai responder melhor ou pior a x tratamento e, assim, entendemos qual será menos tóxico, para que não atinja o organismo todo, mas sim as células e o órgão que estão mais doentes. É a diferença entre um tiro de carabina e o de um sniper, digamos assim.

A criação deste biobanco permitirá ainda cruzar os dados da evolução da doença com os perfis genéticos e os microorganismos presentes no sistema respiratório de cada doente. Como é que isto se processará?

Há aprovações éticas. O doente assina uma autorização para participar no estudo. Não terá nenhum prejuízo, apenas haverá colheitas adicionais – em vez de se colher um tubo de sangue, são colhidos dois – para que haja benefícios indiretos. Somos compostos por mais células microbianas do que humanas e existe uma composição do trato respiratório que vamos analisar, através das amostras colhidas com as zaragatoas, e poderemos avaliar microorganismos para além do vírus.

Refere-se aos doentes covid-19?

Desde o surgimento da pandemia, todos os doentes têm de fazer o teste antes de serem submetidos à broncoscopia, ou seja, o exame de diagnóstico que nos permite avaliar a traqueia, os brônquios e parte dos pulmões. Esta também permitirá que apostemos nas secreções resultantes, pois lavamos um canto do pulmão. E enviaremos tudo para análise. Os doentes que têm maior progressão na doença são aqueles que têm uma carga de microorganismos superior que lhes causa problemas no pulmão. 

Como tem sido trabalhar com médicos, biólogos, bioinformáticos e imunologistas do Centro Hospitalar Universitário de São João e do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto?  

Como médico pneumologista no São João, professor auxiliar convidado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigador colaborador do i3S, sou eu que faço essa ligação. O meu papel e o dos meus colegas passa por, essencialmente, recrutar os doentes e garantir que são feitas as colheitas nos tempos adequados e que seguimos as recomendações internacionais. Essas amostras serão analisadas em laboratórios, no i3S, noutros institutos, e depois serão feitas reuniões periódicas para analisarmos os resultados preliminares. 

Definiram uma amostra?

Precisamos do mínimo de 150 doentes e iniciámos esta seleção há meio ano. 

 

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×