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Superliga. O fim do futebol europeu tal como o conhecemos?

Superliga. O fim do futebol europeu tal como o conhecemos?

AFP João Amaral Santos 20/04/2021 12:23

O anúncio da Superliga Europeia por 12 gigantes do futebol europeu abalou as estruturas do desporto-rei no Velho Continente. Dirigentes, políticos e adeptos estão contra.

O futebol como o conhecemos está sob ameaça depois de 12 clubes europeus – Arsenal, Liverpool, Chelsea, Manchester City, Manchester United e Tottenham (Inglaterra), Milan, Inter e Juventus (Itália), Atlético de Madrid, Barcelona e Real Madrid (Espanha) – terem anunciado o arranque para o próximo mês de agosto de uma nova Superliga Europeia, que coloca em causa a Champions League, organizada pela UEFA.

A competição (reservada a 20 equipas) terá o patrocínio milionário da instituição financeira norte-americana JP Morgan: que terá reservado algo como seis mil milhões de dólares apenas para o arranque da prova. A competição será fechada, bem ao estilo dos states (ou ao jeito de uma NBA, NFL e NHL): os 15 clubes fundadores, cada vez mais ricos, nem sequer vão precisar de suar para colocar a bola dentro da baliza – e muito menos arriscar perder com um golaço de bicicleta de um iraniano vestindo as cores do campeão de Portugal –, uma vez que os seus lugares vão estar sempre assegurados (havendo ainda mais cinco vagas através de um formato de qualificação que até ao momento ainda não foi explicado).

Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, volta a ser protagonista de um negócio milionário, como presidente da Superliga Europeia (coadjuvado por Andrea Agnelli, presidente da Juventus e Joel Glazer, vice-presidente do Manchester United). Em comunicado, Florentino Pérez disse: “Vamos ajudar o futebol a melhorar a todos os níveis a ocupar o lugar que merece no mundo. O futebol é o único desporto no mundo com mais de quatro mil milhões de seguidores e a nossa responsabilidade como clubes grandes é responder aos desejos dos adeptos e fãs”.

UEFA “expulsa” clubes e jogadores O anúncio provocou um autêntico terramoto no universo do futebol europeu (e não só). UEFA, federações, políticos e – talvez o mais importante – milhões de adeptos espalhados pelo mundo passaram o dia de ontem a manifestarem veemente repúdio face ao novo modelo que, à partida, deita por terra a meritocracia, aumenta as desigualdades financeiras, e contraria a lógica competitiva que esteve na base da firme popularidade que, há século e meio, é dedicada ao futebol no Velho Continente.

Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, não esteve com meias palavras. E foi arrasador para os clubes e dirigentes que optaram por esta aventura. Chamou “cobra” e “mentiroso” a Agnelli, uma vez que o presidente da Juventus lhe terá garantido, na véspera do anúncio, feito ao final da noite de domingo, que a Superliga Europeia não passaria de um rumor sem fundamento. E afirmou: “A UEFA e o futebol estão unidos contra a proposta que vimos de alguns clubes na Europa que são movidos pela ganância. Toda a sociedade e os governos estão unidos contra estes planos cínicos, que são contra o que o futebol deve ser. A integralidade e o mérito desportivo são essenciais e não vamos deixar que isso mude nunca”, tendo ainda anunciado um novo modelo nas competições europeias a partir de 2024. Em conferência de imprensa, Ceferin terminou a sua declaração com um sério aviso dirigido aos intervenientes: os clubes ficam impedidos de participar nas provas domésticas e os seus jogadores de competirem pelas respetivas seleções nacionais nos campeonatos da Europa e do Mundo (neste momento, Portugal perderia Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes, Diogo Jota, Ruben Dias, João Cancelo, Bernardo Silva, João Félix, Cédric, Trincão e Rafael Leão, entre outros).

Entre as reações, destaque para as declarações do comissário europeu Margaritis Schinas, que considerou que a Superliga é uma prova “sem lugar no modelo europeu de desporto”. O dirigente referiu que a União Europeia “deve defender um modelo europeu de desporto baseado na diversidade e na inclusão”, o que, neste caso, não sucede.

Curioso, ainda, o facto de o próprio Boris Johson, primeiro-ministro do Reino Unido, se ter metido ao barulho em reação a este “Brexit” futebolístico: “Vamos analisar tudo o que podemos fazer com as autoridades do futebol para garantir que a Superliga não aconteça como está planeada. Isto não é uma boa notícia para os adeptos nem para o futebol deste país. Não gosto da aparência desta proposta e farei tudo o que puder para que não aconteça”, afirmou o governante. É caso para dizer: “Brexit Brexit, futebóis à parte”.

Dinheiro dos EUA e da Ásia Daniel Sá, diretor executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM) de Lisboa, recorda que “esta ideia não é nova”, uma vez que Sílvio Berlusconi, histórico dirigente do AC Milan, “tentou, por várias vezes, nos anos de 1990, criar uma Superliga Europeia”. Ao i, o especialista admite que o projeto possa agora ter conhecido a luz do dia “por causa da pandemia, que foi trágica para a economia europeia e mundial e também para o futebol”. E os clubes, afundados em dívidas – veja-se, por exemplo, o caso da falta de liquidez do Barcelona –, encontraram um bote “salva-vidas” nas receitas provenientes da nova competição. “É muito dinheiro... Vemos o caso do Liverpool: tem vinte milhões de adeptos no Reino Unido, mas depois tem 200 milhões de adeptos na Ásia. E, neste momento, não é possível existir aquele Liverpool, com aquele treinador, com aqueles craques todos, sem esse dinheiro proveniente dos adeptos asiáticos, e vão ser esses mercados, o norte-americano, o asiático, que vai permitir alimentar esta Superliga”, explica Daniel Sá.

Ainda assim, o responsável do IPAM concorda que “ esta prova é contrária ao espírito e à cultura do desporto europeu, muito ‘à norte-americana’, como a NBA, uma liga fechada onde só participa quem tem dinheiro, condições, e seja capaz de ser uma mais-valia para a competição”. Quando ao futuro, porém, não há certeza: “É possível que os adeptos estejam divididos, entre os românticos, que gostam do futebol original, e os práticos, que querem ver os grandes clubes jogarem entre si todas as semanas”. A solução? “É difícil. As posições estão extremadas e, por isso, é necessário algum lado ceder e ser encontrado um consenso a meio caminho”, conclui.

portugueses contra Bayern de Munique e Paris Saint-Germain (França) terão recusado participar na Superliga Europeia, depois do convite que lhes foi dirigido. Os clubes, também milionários, terão preferido manter-se dentro das regras atuais – posição que mereceu rasgados elogios dos dirigentes desportivos europeus e dos governantes alemães e franceses.

Já os clubes grandes portugueses, fora da lista – a do dinheiro, pois, na de títulos europeus, clubes como Manchester City, Arsenal, Tottenham ou Atlético de Madrid têm ainda muito que aprender –, também se manifestaram, ao longo do dia, contra a Superliga Europeia. Benfica, FC Porto e Sporting foram unânimes em considerar que a nova prova coloca em causa a magia do futebol.

 

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