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Moullinex. "A empatia é o estado mais puro daquilo que existe numa pista de dança"

Moullinex. "A empatia é o estado mais puro daquilo que existe numa pista de dança"

Mafalda Gomes Hugo Geada 19/04/2021 14:55

Com um novo disco e quase a regressar aos palcos, o produtor e multiinstrumentista Moullinex falou sobre o seu mais recente projeto.

Já nos colocou a dançar com músicas contagiantes e a transbordar de felicidade, como Take My Pain Away ou Love Love Love, mas, desta vez, Luís Clara Gomes, o músico, produtor e DJ natural de Viseu, que assina os seus projetos artísticos como Moullinex, não está nesse estado de espírito. Quer dizer... ainda quer colocar-nos todos a dançar, mas desta vez com um som diferente. Depois de atravessar uma fase complicada marcada por uma perda pessoal, o produtor decidiu que necessitava de alterar o som da sua música de forma a representar-se “honestamente”, explica ao i. Deste desejo, nasceu Requiem for Empathy, quarto disco do músico, onde, através de melodias mais despidas e cruas, conduzidas por sintetizadores e um reduzido kit de bateria, Moullinex procura responder a uma pergunta: Qual é o espaço da música contemplativa e introspetiva na pista de dança?

O seu novo álbum, Requiem for Empathy nasceu em 2019, quais foram, na altura, as suas motivações para embarcar neste projeto e ainda se identifica com elas? 

Sinceramente, acredito que as motivações se condensaram e ficaram mais reforçadas. Nunca parto para um disco com uma direção concreta, parto sempre com vontade de fazer coisas novas e vou trabalhando até encontrar algo com que me identifique. Descartei algumas ideias que já tinha porque sentia que não representavam aquilo que estava a sentir. Muitas delas vieram depois das sessões do Hypersex (2017) e ainda estava a usar a paleta de cores deste disco, tanto emocional como em termos texturais, os mesmos instrumentos, como o baixo e a guitarra elétrica, algo que não me estava a deixar muito feliz, nem a motivar. A minha música é um reflexo daquilo que sinto e estava a atravessar uma série de angústias. Tive uma perda muito grande, o meu avô, e não conseguia ver o mundo a cores que tinha desenhado no Hypersex a representar-me honestamente. Isso deixou-me uma dúvida: o que posso fazer enquanto produtor de música de dança quando tenho uma coisa bastante catártica e terapêutica nas mãos. Cheguei à conclusão que, por um lado, era um trabalho honesto e identificava-me com ele de um ponto de vista emocional e artístico e sim, é possível usar a música de dança como terapia.

Outro temática neste disco é a empatia, que, inconscientemente, também fará sentido neste contexto pandémico, como uma forma de comunicar com os fãs.

Parece um bocado premonitório, já tinha o nome do disco fechado em 2019, mas a verdade é que cheguei à empatia como o estado mais puro daquilo que existe numa pista de dança. No meu exercício de fazer música, o que me move é muitas vezes a empatia, se calhar por ser um bocado introvertido e ter começado a fazer música por não conseguir de uma maneira tão direta com as pessoas e a música o ter permitido. A música de dança é uma comunicação imediata e daí a empatia na pista de dança ser algo tão mágico e, numa altura destas, de pandemia, mais falta sentimos desta experiência comunitária na pista.

Como já tinha falado, este disco é um pouco mais melancólico e introspetiva, existe espaço na pista de dança para este tipo de música?

Muitos dos meus heróis, ao longo das décadas, exploraram esta temática, se quiseres ir muito lá para trás, nem todos os temas dos Kraftwerk são animados. Sempre gostei muito da música que tem várias camadas: a mais imediata e física que te mete a dançar e, depois de a desconstruíres, existe uma densidade emocional. São muitos os exemplos de músicas melancólicas dançáveis, às vezes muitos dos temas mais dançáveis até tem uma letra muito pessoal e vulnerável. Gosto desse contraste, por um lado constróis uma parede distópica e orwelliana de sintetizadores, mas no centro está uma voz vulnerável e despida, um elemento acústico, que contrasta com este betão que construíste com instrumentos artificiais.

Apesar de ser uma música instrumental, fez-me lembrar a música Voyager dos Daft Punk. 

É um ótimo exemplo, a Voyager remete-te sempre para uma certa nostalgia, que os Daft Punk sempre souberam explorar muito bem esse lado, uma nostalgia para um futuro imaginado à luz dos anos 1970 e 1980. Gosto muito de como as texturas eletrónicas te permitem sonhar e criar mundos artificiais, mais do que as texturas acústicas. Neste disco procurei um bocadinho criar uma distopia com sintetizadores, tanto que não consegui encaixar guitarras, baixo ou bateria acústica, mas trazer tudo à terra com vozes, cordas, harpa e piano.

Ao retirar esses elementos do disco, ele acabou por se tornar menos melódico que os seus registos anteriores, é mais minimalista e cru e, por isso, acaba por se destacar mais da sua discografia.

Foi uma opção propositada, para mim, o minimalismo é o exercício mais difícil, mas a única forma que tenho para sentir que estou a crescer, enquanto pessoa, músico ou técnico, é não me apoiar nas minhas muletas, que se calhar eram as guitarras, os baixos e as melodias imediatas ou mais pop, e tentei não utilizá-las desta vez. Sempre fiz música muito maximalista, no sentido de ter muitos elementos e aqui foi um exercício de a despir ao máximo. 

Como é que planeia, quando voltar a atuar ao vivo, interpretar estas músicas. Também vão fazer parte do alinhamento da sua banda?

Sim, aliás, no ano passado, nos poucos concertos que demos, a formação de Moullinex manteve-se igual, mas desafiei os músicos a mudar os seus instrumentos, o Guilherme [de nome artístico, GPU Panic] tocava guitarra e agora passou a cantar e a tocar sintetizadores e o Diogo Sousa, o baterista, agora tem um kit muito mais pequeno e também opera sintetizadores modelares. Somos uma formação de quatro pessoas e os arranjos ao vivo tem um som muito eletrónico, embora explore uma coisa que por vezes não é possível em estúdio, visto que trabalho muitas vezes sozinho, que é a dinâmica de um grupo a tocar uma música que foi concebida apenas por uma pessoa, gosto sempre como isso se traduz porque adquire mais nuances quando é interpretada por outras pessoas. Nunca me imaginei a tocar a minha música ao vivo sozinho porque gosto mais do resultado de um grupo e de haver um diálogo entre pessoas.

Tendo em conta as diferenças sonoras entre este disco e os anteriores, como acha que estas músicas vão encaixar nos seus DJ Sets?

Sinto que vai ser mais fácil encaixar estes temas do que os anteriores. Sempre me debati com isso, porque as músicas que passo nos meus DJ Sets são mais focadas na pista e menos pop, muitas vezes toco temas exclusivamente instrumentais, mais contemplativos e longos, que levam o seu tempo a desenvolver, e muitas vezes os meus temas tem uma estrutura pop convencional, tornando-se assim mais difícil de encaixar com o alinhamento. Antes da pandemia, passei muitos dos meus temas novos na pista e gostei muito de os encaixar nos Sets, entretanto, como não há DJ Sets para ninguém, vou ter de esperar para os voltar a pôr na pista [risos].

Sente que a diferença sonora vem também da liberdade criativa que ofereceu aos seus convidados neste disco?
Sempre gostei muito de explorar a colaboração para lá de um simples “toca e foge”, ter um instrumental acabado, entregá-lo a um vocalista e está arrumado. Sinto que fico a perder uma oportunidade de melhorar uma música, crescer e de fortalecer uma relação, que é o que mais gosto numa relação. Neste disco em particular, como também o escrevi de um ponto de vista muito pessoal e as pessoas que convidei já partilhávamos um certo relacionamento, elas participaram com uma atitude mais vulnerável e só posso ficar contente com isso. Sinto que os colaboradores puseram muito de si nos temas e obviamente fico muito feliz com isso.

Ao convidar, por exemplo, a Sara Tavares e a Selma Uamusse, também foi uma forma de mostrar um lado diferente da música portuguesa?

Sim, a música portuguesa é um conceito muito complexo, porque não é necessariamente música cantada em português, tem que ser música feita por portugueses, por isso, mais do que um grupo de pessoas, é mais um sentimento. Neste caso, temos duas grandes representantes da música portuguesa, apesar de, respetivamente, uma ter cantado em changana e outra em crioulo cabo-verdiano, a ligação à nossa individualidade e cultura está completamente lá, e foi isso que também pretendi explorar. Ao adotar línguas não óbvias tornámos as canções, de alguma forma, mais pessoais.

Tendo em conta a visibilidade internacional que tem, acha que este disco pode servir como um cartão de apresentação para este tipo de música para os seus fãs estrangeiros?

Sinto que tenho tido um feedback ótimo em relação a isso, pessoas que não percebem uma palavra do que está na letra, mas reconhecem a textura e melodia da língua como algo muito bonito e, para mim, é um elogio gigante. Eu não falo uma palavra de changana, a Selma teve que me contextualizar em relação à letra, mas acho que não é preciso, para sentir que o que ali está é honesto. Não tenho dúvidas nenhumas que aquela música me toca e me emociona e não preciso de perceber uma única palavra para perceber isso.

Estávamos a falar das atuações ao vivo e das saudades das pistas de dança, sinto que isto é um tema que não pode escapar, e, por isso, queria perguntar como acha que as pessoas vão reagir às suas músicas quando voltar a atuar ao vivo?

Com sinceridade, acho que estamos todos ansiosos por voltar a ver concertos, para regressar às pistas de dança, aos festivais, e voltar a sentir a experiência de partilhar música ao vivo. Não é só ir a um concerto e estar à frente da banda, mas também estar também com outras pessoas a partilhar este momento. Todos sentimos falta disto, público, músicos e todo o ecossistema de pessoas que trabalha nesta área. Posso ser sincero, tive muitas oportunidades para tocar ao vivo, com condições algo dúbias, devido à segurança do evento, e recusei-as todas porque acho que quando voltarmos e de uma forma segura, vai ser incrível, acho que as saudades vão fazer com que os músicos façam concertos incríveis, o público sinta que teve experiências incríveis. Apesar de me estar a custar imenso, mas quando voltarmos ao palco é para dar tudo. 

Acha que os rituais que costumávamos ter quando saíamos à noite vão mudar ou agora as pessoas vão ter mais cuidado?

A pandemia vai deixar marcas permanentes na nossa geração, acredito que as pessoas vão estar muito mais conscientes em relação à higiene, mas, por outro lado, como estão com tanta falta de conseguir a catarse que só é proporcionada por uma saída à noite ou por um concerto que vai haver muitas loucuras quando voltarmos. Estamos a preparar concertos para a Culturgest e na Casa da Música, em junho, [dia 4 e 9, respetivamente] e todos os músicos e eu próprio estamos prontos para dar tudo.

Estava a falar de marcas, quais foram as marcas negativas que os concertos cancelados tiveram na sua vida?

Honestamente, tive a sorte de ser autor, existe todo um ecossistema de pessoas que dependem da música ao vivo para subsistir e este esteve completamente parado. Há pessoas a passar fome, estruturas independentes e feitas por trabalhos de voluntários que estão completamente postas em causa e em dúvida se conseguem sobreviver à pandemia porque tudo indica que o nosso setor, que foi o último fechar, será o último a reabrir em pleno. Isto vai deixar marcas graves e uma marca mais profunda ainda pois aquelas pessoas que estavam numa fase da vida que queriam seguir um sonho de uma carreira artística e conseguiam fazer o malabarismo que é necessário fazer em Portugal que é ter um emprego e dedicar o resto do tempo à sua arte, provavelmente, agora, isso foi completamente posto em causa, esta pandemia acima de tudo, veio deitar muitos sonhos ao chão. Isso para mim é o mais assustador, retirar-nos a capacidade de sonhar. 

Sente que a gestão do Ministério da Cultura devia ter sido diferente?

Não só a gestão do Ministério e do Governo, no sentido em que numa conferência de imprensa, onde são apresentadas regras para a restauração e cabeleireiros, não fico muito feliz por o “ponto e vírgula” ser: “Amanhã a ministra da Cultura falará sobre o setor da cultura”. Para mim e para muitos outros, as atividades culturais são a nossa fonte de bem estar, gostava que isso fosse encarado como tal, como um setor que é necessário para o bem estar de muitas pessoas e, além disso, é um setor que contribui imenso para a imagem que Portugal tem e que atrai tantos turistas. Portanto, sejamos emocionais, mas também pragmáticos. O Ministério da Cultura reagiu tarde e de uma forma que acho que ficou muito aquém. Gostava de ter sentido que existia uma preocupação real.

 

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