12/5/21
 
 
Casas de abrigo. "Não fui tratada como uma vítima, mas sim como um ser humano"

Casas de abrigo. "Não fui tratada como uma vítima, mas sim como um ser humano"

Dreamstime Maria Moreira Rato 19/04/2021 14:50

Joana arrepende-se da decisão que tomou e teria suportado as agressões do marido. A seu lado, Mariana considera que somente se reergueu graças à oportunidade que teve. O i conta-lhe a história de duas das 2 424 vítimas de violência doméstica acolhidas em casas de abrigo.

“Estive 15 dias numa casa de emergência: tiraram-me o telemóvel, só pude fazer chamadas para familiares e amigos à frente das técnicas. Fazem-no para controlarem aquilo que vamos dizer porque não querem que se diga onde estamos”, conta a mulher que saiu de casa por não suportar a violência psicológica perpetrada pelo marido. Ainda assim, as duas filhas do casal decidiram ficar com o pai e a vítima teve de procurar auxílio de terceiros.

Joana (nome fictício), com uma idade compreendida entre os 50 e os 60 anos, é uma das 2424 vítimas – incluindo filhos destas menores de idade ou maiores com deficiência – que, entre março do ano passado e o final do mês de janeiro do ano corrente, foram acolhidas pela Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica (RNAVVD). Esta rede registou 86114 atendimentos (presenciais e não presenciais) e as vítimas acolhidas ocuparam, rotativamente, as 904 vagas disponíveis em toda a rede.

“Aquele tempo funciona para que tenhamos consciência daquilo que queremos. Não saímos à rua sozinhas, no máximo vamos à rua uma hora por dia com uma das funcionárias. E temos tarefas atribuídas, mas são coisas levezinhas, como ajudar a fazer a limpeza dos nossos quartos e dos corredores ou pôr a loiça na máquina”, explica, admitindo que pediu à equipa que a acompanhava se seria possível ser transferida para uma casa de abrigo na mesma cidade. “Disseram-me que era muito pequena” e, deste modo, Joana viajou até Aveiro, onde viveu entre setembro de 2019 e março de 2020.

“Lá já temos um telemóvel, assinamos um contrato e as funcionárias só existem para orientarem-nos, nós é que fazemos o trabalho e vamos rodando as tarefas”, esclarece, lembrando que no dia em que estava encarregada de fazer o jantar, tinha de lavar a loiça e limpar a cozinha, no entanto, era habitual existir a acumulação de tarefas. “Acho que isto acontece porque tentam trabalhar muito a independência das pessoas”, reconhece a mulher, realçando que, volvidos dois ou três dias da sua chegada, teve de se dirigir a uma conservatória do registo civil para mudar a morada. “Eu trabalhava, tinha essa vantagem, passava pouco tempo na casa”, assume a vítima que, aos fins de semana, seria alegadamente sujeita à realização de “limpezas muito malucas” juntamente com as colegas. “Acho que ninguém na sua própria casa limpa tanto”, sublinha.

Todas as semanas, as habitantes da casa reunir-se-iam com uma funcionária “somente para a definição da distribuição das tarefas”, mas aquilo que Joana mais desejava era ter a oportunidade de conversar com a psicóloga. “A casa tem uma assistente social e uma psicóloga: falam connosco para fazer a avaliação de risco da situação nos primeiros 15 dias a um mês para saber quais são as nossas perspetivas de futuro”, frisa, adicionando que garantem que, sempre que as vítimas precisarem, podem marcar um dia para dialogarem a sós com as profissionais anteriormente mencionadas.

“No entanto, quando pedi, a ajuda não me foi dada. A psicóloga olhou para mim e riu-se, disse que não precisava de ajuda nenhuma”, diz a mulher que, durante meio ano, terá dormido no quarto ao lado do de uma mulher vítima de violência doméstica por parte do filho. “Eu não estava bem e ela só gritava e partia vários objetos. Não foi fácil, foram muitas noites passadas em branco”, afirma.

Uma das vertentes que, na ótica de Joana, era mal organizada prendia-se com a alimentação. “Vive-se muito de donativos. Temos horas para comer, a cozinha é fechada a partir das 22h. A despensa era fechada, elas é que nos davam as coisas para cozinharmos. Outra coisa que me fazia confusão é que só tínhamos pão quando era doado. Se não fosse, tínhamos de comprá-lo”, salienta a vítima que terá sido obrigada a cozinhar “um peixe que estava literalmente podre”.

“Eu disse: ‘Se querem que eu cozinhe, cozinho, mas não o como. Este peixe está cheio de pintas e de uma massa amarela’”, constata, compreendendo tal situação na medida em que “o peixe era aquele que era apreendido na doca”.

Certo dia, Joana, que não bebe leite, terá perguntado a uma das funcionárias se podia comer um iogurte ao pequeno-almoço porque sabia que havia vários guardados. “Não mo deu e disse que não estava na ementa de pequeno-almoço. Eu fui verificar e estava”, elucida, acrescentando que “a comida era igual para todos, as crianças tinham de comer tudo o que era dos adultos” e não terão sido raras as vezes em que as suas companheiras de casa compraram o lanche para os filhos levarem para a escola porque “às vezes, havia coisas que desapareciam num ápice, como bolos”.

Por outro lado, prezava a liberdade para a realização da higiene pessoal. “Tínhamos quartos individuais e a casa de banho não era privativa, mas éramos livres de tomar banho quando nos apetecesse. Quem trabalhava tinha de comprar o gel de banho, o champô e tudo aquilo de que precisasse, mas, quando havia donativos destes produtos, todas saíamos a ganhar”, aprova.

“Tudo era aberto às 8h. Havia sempre uma funcionária a dormir na casa. Quando começou a pandemia, uma das residentes mais antigas ficou a orientar-nos, entrámos quase em autogestão”, narra, explicitando que, durante o tempo em que lá esteve, foi-lhe dito que “havia muito mau ambiente entre as funcionárias e as utentes”, apesar de confessar que nunca presenciou “nenhuma situação alarmante”.

“Quando entramos, é acionado um fundo para apoio. Quando saímos, também recebem dinheiro. Deram-me 400 euros para iniciar a minha vida. Sabiam que, embora tivesse rendimentos, aquele valor não daria para orientar a minha vida. Do meu ordenado, ficava com pouco mais de 300 euros depois de pagar tudo”, lamenta a vítima que terá contactado a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) há duas semanas, pedindo ajuda sobre o processo de partilha de bens inerente ao divórcio, ter-lhe-á sido dito que seria contactada por um jurista “e até hoje nada”. No âmbito do acordo realizado em tribunal, Joana só terá conseguido recuperar uma televisão, dois jogos de lençóis e algumas toalhas de banho depois de uma vida em comum de mais de 30 anos com o marido. “Enquanto as minhas filhas estiverem lá em casa, tudo bem, mas quando saírem não sei como salvaguardar os meus bens”, adianta a mulher que, poupando ao máximo, conseguiu dinheiro suficiente para alugar um apartamento e recomeçar.

“As minhas expectativas saíram goradas. Apesar do tempo fazer-me olhar para as coisas de outra maneira, acho que isto tem de levar uma volta muito grande: têm de dar outras soluções às pessoas para além das casas de abrigo”, diz, referindo-se maioritariamente às vítimas com filhos. “Quem tem filhos maiores de idade, tem de os deixar para trás e, quem tem filhos pequenos, tem de viver com eles naquele ambiente”, lastima.

“Sentíamos que íamos aprender a ser boas cozinheiras e donas de casa. Se fosse hoje, não teria ido para a casa, se calhar ter-me-ia sujeitado a viver com o meu marido. Querem sempre que façamos queixa dos nossos companheiros porque sem isso não recebem apoio nenhum”, conta a mulher cujo marido estará sujeito às medidas de coação de afastamento e de proibição de contacto. “Escolhi testemunhas que sabia que não iam falar muito porque assumo que não queria que ele fosse condenado. Só queria ver-me livre da situação e refazer a minha vida”, conclui.

“Agradeço a Deus por ter vivido na casa de abrigo” De acordo com o Gabinete da Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, a RNAVVD, coordenada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), “cobre já cerca de 95% do território nacional com estruturas de atendimento e de acolhimento (acolhimento de emergência e casas abrigo)”.

A Comissão destaca que, durante este período, registaram-se 911 autonomizações, como a de Joana, e, naquilo que diz respeito aos canais de informação e ajuda da CIG, foram contabilizados 1696 pedidos – 1122 via linha telefónica 800 202 148; 289 via SMS 3060 e 285 via email violencia.covid@cig.gov.pt.

Por outro lado, “é de relevar que, desde março de 2020, foi desencadeado um plano coordenado de contingência na área da violência contra as mulheres e violência doméstica, apostando, por um lado, na informação e consciencialização sobre a agudização da violência em contexto de pandemia, e, por outro, na manutenção e reforço do funcionamento dos serviços de apoio da RNAVVD”.

Neste sentido, o Gabinete frisa a criação de duas estruturas temporárias de acolhimento de emergência com mais de 100 vagas, a divulgação das listas de contactos locais das respostas de apoio existentes por distrito e concelho e de conselhos de segurança para as vítimas de violência doméstica em situação de isolamento, assim como aos seus vizinhos, para que estejam alerta e possam ajudá-las.

Este foi o caso de Mariana (nome fictício), na casa dos 40 anos, casada há 11 e vítima de violência física e psicológica diariamente. “Quando nos conhecemos, tudo pareceu ser um mar de rosas. Namorámos durante oito anos e, desde o dia em que nos casámos, a minha vida tem sido um terror. Aprendi a disfarçar as marcas com maquilhagem, comecei a tentar chorar silenciosamente quando ele me batia e fiz tudo para nunca engravidar”, admite a vítima que nunca denunciou o marido, porém, uma amiga deu um passo em frente por ela.

“A nossa vizinha do andar ao lado sempre desconfiou de que o nosso relacionamento não era feliz. Fazia-me perguntas que me incomodavam porque não queria que ninguém soubesse a verdade. Cheguei a fugir dela. Por exemplo, se a ouvia abrir a porta, não saía logo de casa, esperava que ela fosse à rua primeiro para não nos encontrarmos nas escadas”, conta, reconhecendo, hoje, que a vizinha lhe salvou a vida.

“Sem ela, nunca teria tido força para enfrentar as autoridades e dizer com todas as letras que o meu marido é um agressor. Como os meus pais não sabem de nada e não somos próximos, fiz queixa dele e optei por dar entrada numa das casas de abrigo do Sul do país, a muitos quilómetros da nossa área de residência”, conta a vítima que viveu na infraestrutura anteriormente mencionada entre os meses de agosto e novembro de 2020.

“Não fui tratada como uma vítima, mas sim como um ser humano. Não suporto que as pessoas tenham pena de mim e posso dizer que nunca estive em nenhuma posição desconfortável ou de vitimização forçada”, interpreta. “Agradeço a Deus por ter vivido na casa de abrigo. Sempre fui bem tratada, as funcionárias acarinharam-me e o fator mais importante, neste percurso, foi o da terapia. Sem o acompanhamento da psicóloga, creio que não teria tido coragem para caminhar rumo a uma nova vida”, expõe deslindando que recebeu, por parte da APAV, “dinheiro suficiente” para pagar as primeiras três rendas do apartamento que arrendou e comprar algumas peças de mobiliário e eletrodomésticos.

“Há pessoas que estarão sempre no meu pensamento e às quais ficarei eternamente grata pela paciência. A compreensão das minhas colegas e a partilha que existia entre nós fez-me entender que não sou a única pessoa que sofre. Como eu, infelizmente, há centenas de outras mulheres que passam ou passaram pelo inferno que é a violência doméstica. Esta identificação ajudou-me a sentir-me cada vez menos sozinha”, manifesta a vítima que conheceu ”uma pessoa incrível no Facebook”, todavia, ainda não se sente preparada para assumir um compromisso enquanto não se divorciar oficialmente.

“Já nos encontrámos presencialmente três vezes, o problema é que, ainda que me custe dizer isto, olho para ele e vejo o meu futuro ex-marido. Só consigo imaginar que ele me fará as mesmas coisas... Mas penso que, devagarinho, conseguirei estar com alguém novamente. Graças à casa de abrigo, ganhei ferramentas que me ajudam a lidar com a ansiedade, o medo e o trauma”, garante a vítima que continua a ser acompanhada pela APAV e a frequentar sessões de psicoterapia semanais.

“No primeiro desconfinamento, sentimos que houve um aumento dos pedidos de apoio” “Através dos nossos dados, que vão ao encontro daqueles que existem no Relatório Anual de Segurança Interna, não podemos dizer que houve um aumento da violência doméstica, mas sim uma diminuição dos casos reportados ou denunciados que se deve à pandemia”, começa por indicar Daniel Cotrim, referindo-se à diminuição de 6,3% nas denúncias deste crime, sendo que se deram 27 637 no ano passado, sendo este número menos às 29 498 de 2019.

“Acredito que o número de pessoas que não reportaram situações de violência terá aumentado. A cifra negra daqueles que ainda não denunciaram pode ser elevada porque as pessoas demoram, em circunstâncias normais, entre dois a seis anos, desde o início da relação abusiva, a fazerem uma queixa. O ano de 2020 e parte de 2021 são atípicos, as pessoas não estão a denunciar tanto assim”, constata o profissional de saúde que exerce igualmente o cargo de assessor técnico da direção da APAV há 20 anos, trabalhando com mulheres e crianças vítimas de violência doméstica há 22 anos.

Importa também sublinhar que, analisando o RASI, é possível percecionar que, em 2020, em Portugal, 75% das vítimas deste flagelo era do género feminino. A seu lado, 27 691 dos agressores eram do género masculino – 81,4% dos denunciados, enquanto 6 335 eram mulheres, 18,6%. Já 74% das vítimas e 93,1% dos denunciados tinham mais de 25 anos. A seu lado, 48,6% dos casos ocorreram entre cônjuges.

“Relativamente às casas de abrigo, não existiram tantos acolhimentos porque teve de haver um retrocesso na autonomização das pessoas que já lá estavam devido ao confinamento e houve dificuldade em encontrar emprego e habitação também”, elucida o também supervisor técnico da RNAVVD desde 2005.

“Um dos princípios que foi revogado, de acordo com os estados de emergência, trata-se do prazo de permanência. Quando há possibilidade de acolher as vítimas num espaço para um trabalho continuado, apostamos nisso”, pois, em março, foi alargado o período de estadia em casas de acolhimento que termine antes de 30 de junho, permitindo uma resposta quer das casas de abrigo quer das situações de acolhimento de emergência que integram a rede.

“Houve uma diminuição dos pedidos de ajuda quase residual, uma diferença de três décimas em relação a 2019. Houve os primeiros estados de emergência, em março e abril do ano passado, a pessoa agressora e a vítima ficaram em casa. No desconfinamento, sentimos que houve um aumento de pedidos de apoio, por volta de maio. Depois, começou a estabilizar a partir de setembro, quando as crianças voltaram à escola”, refere o psicólogo, não esquecendo de evidenciar que, com a recomendação do Executivo, de que o teletrabalho fosse privilegiado, sempre que possível, “muitas vítimas ficaram mais vezes com a pessoa agressora”, na medida em que “a grande maioria das mulheres, quando sai de casa, sai com os filhos”, mas “os agressores dizem que elas podem ir embora se os filhos ficarem” e, a este cenário, juntam-se as dificuldades socioeconómicas.

O psicólogo tem verificado que existe o aumento da violência psicológica por “razões que parecem básicas”, isto é, “o facto de estarmos em confinamento obriga a que a pessoa agressora tenha algum controlo social porque bater gera ruído e chama a atenção”, esclarece. “Humilhar, aniquilar o outro, insultar, todas estas são formas de violência silenciosa. E a sexual também porque tem muito que ver com as condições ambientais. Se viverem num prédio, os vizinhos apercebem-se dos ruídos”, argumenta.

A RNAVVD conta com 39 casas de abrigo e 26 acolhimentos de emergência espalhados por todo o país. Em abril de 2020, o Governo decidiu criar dois novos centros de receção de vítimas de violência doméstica que estão sob alçada da APAV, criando 100 novas vagas, aliando-se estas àquelas que já existiam nas duas casas de abrigo da associação.

Nesta rede, destacam-se também três estruturas de atendimento, uma unidade de acolhimento de emergência para vítimas LGBTI, duas estruturas de atendimento para mulheres vítimas de violência sexual, uma estrutura de atendimento para homens vítimas de violência sexual, uma casa de abrigo para mulheres com deficiência e uma casa de abrigo para homens.

Questionado acerca da procura destas infraestruturas específicas, Daniel Cotrim adianta que “têm sido procuradas, sobretudo, por pessoas muito jovens, pois a partir do momento em que fazem o coming out, em que se assumem, existe por parte das famílias o mecanismo de as colocar fora de casa ou entrar em padrões de violência com as mesmas”.

“Estes jovens LGBTI recorrem aos nossos serviços porque são vítimas de violência e são sem-abrigo, muitas das vezes, recorrendo à prostituição para conseguirem subsistir”, declara o mestre em Psicologia Clínica com a tese “Análise qualitativa da experiência de residir numa casa de abrigo para mulheres que sofreram violência conjugal”, em 2014, avançando, por outro lado, que “houve alguns encaminhamentos de homens durante este período, mas é diferente”.

 

 

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×