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Carson McCullers. O sufoco guardado debaixo da almofada

Carson McCullers. O sufoco guardado debaixo da almofada

Rita Homem de Mello 16/04/2021 21:45

Em Contos Escolhidos reúnem-se doze contos da autoria de Carson McCullers (1917-1967) entre a década de trinta e a de setenta do século XX.

Inquietude e dormência. São estes talvez os principais efeitos da escrita de Carson McCullers. Mas esta não é uma dormência provocada por um estado de embriaguez de sono, é antes uma dormência causada por uma embriaguez de realidade. Uma realidade febril polvilhada de grumos, que, mesmo que atenuados ou falsamente mascarados, permanecerão no seu covil mais íntimo, corrompendo-o até ao osso.

Talvez por isso, McCullers lhes mete a mão sem medo, não para os disfarçar, não para os adoçar, mas para esbarrar de frente com eles. Esbarrar de frente é sempre o único sentido possível em McCullers. A sua realidade é sempre aquela que encadeia, que fere, que se engole em seco. Em todos os seus romances ou pequenas narrativas, o leitor engole em seco cada encruzilhada, cada infância ou adolescência quadriculada, cada sopro vindo do céu.

Não dá para nos recostarmos ou pousarmos a cabeça sobre uma almofada e descansadamente abrirmos um livro como este. Como este, ou como qualquer outro livro seu, porque todos conservam a mesma cadência melancólica, a habitual descrição minuciosa, furtiva, espessa. Há uma nuvem condensada, um zumbido quase impercetível, mas doloroso e irrespirável que nos imobiliza, que nos prepara. Mas o leitor nunca se sente preparado para a teia seguinte, para mais uma travessia intempestiva e conturbada e ainda assim, prossegue ávido na sua leitura. Porque por entre essa nuvem condensada, esse zumbido, ele continua a sentir-se irremediavelmente seduzido. Em cada conto a sensação será a mesma de nos vermos a um espelho, mas a um espelho baço, corroído, mas ainda assim capaz de cuspir diferentes imagens nossas em sucessivas e intermitentes camadas.

Esse espelho não nos devolverá nada de apaziguador. Nunca esse espelho nos devolverá numa só imagem, aquilo que desejaríamos ver em retorno, porque pura e simplesmente em McCullers a distância entre o que se almeja ou a realidade é indomesticável.

Histórias corrosivas Talvez o que mais seja de aplaudir na seleção feita pela tradutora Ana Teresa Pereira, além da sua curiosa disparidade cronológica, seja o facto de neles se encontrar “Sucker”, o seu primeiro conto publicado numa revista literária, quando a escritora tinha dezassete anos. Se não nos fosse facultada essa informação, nunca desconfiaríamos sequer que “Sucker” tivesse sido escrito ainda por uma Carson adolescente, dado que a sua intensidade não varia em nenhum ponto de todos os outros.

Essa foi a primeira história que leu em voz alta à família. Note-se como a sua natureza indomesticável já era reconhecida, e note-se também como a corrosividade se mantém o denominador comum entre todos. Deparamo-nos com histórias corrosivas, diálogos corrosivos, casas corrosivas, relações corrosivas.

Escrito em 1930, mas apenas publicado em 1963, “Sucker” é a alcunha dada a uma das personagens, um miúdo órfão de doze anos, que vive com os tios e divide o quarto com Pete, o primo mais velho. Um primo que era como um irmão, mas que não era um irmão. “Eu nunca lhe prestava muita atenção ou pensava nele, e se considerarmos durante quantos anos dividimos um quarto, é estranho que me lembre de tão poucas coisas. […] Não tinha muitos amigos na vizinhança para lhe fazer companhia e o seu rosto era o de um miúdo que observa um jogo à espera que o convidem para entrar.” São descrições acuradas como esta que nos fazem mergulhar fundo no tutano das personagens. Quer nas aparentemente mais debilitadas, quer nas falsamente mais estáveis. “No fundo, queria recuperar a minha tranquilidade de espírito. Sinto a falta de qualquer coisa. Lembro-me de como éramos há algum tempo, Sucker e eu, e isso dá-me um estranho sentimento de tristeza que nunca me julguei capaz.” São monólogos como este que nos provam que tudo que temos como garantido pode de um momento para o outro parecer incerto e dubitável.

A estranheza do quotidiano McCullers como ninguém consegue traduzir esse vazio que estranhamente se instala entre duas pessoas depois de momentos de tanta partilha. Mas nas suas narrativas esse vazio não se ergue apenas entre personagens cujos laços de sangue ou de amizade as tornam próximas. Com estranhos o vazio terá o mesmo sabor. E porque são narrativas que se avolumam a partir do dia a dia, de pequenos desencorajamentos, de situações triviais, de ligações familiares disfuncionais, o quotidiano apresenta-se como uma espécie de sementeira fértil.

Deparamo-nos em “Wunderkind” com Bienchen, uma menina aprendiz de piano que prometia ser um talento, mas que inexplicavelmente se começa a sentir atormentada e desiste da música. Encontramos em “Uma árvore”, uma rocha, uma nuvem, um homem extremamente solitário que durante anos procurou a mulher, que de uma hora para a outra o abandonou sem deixar rasto “Para começar, o amor é uma coisa estranha. […] Começam pelo extremo errado do amor. Começam pelo ponto mais alto. Admiras-te que corra tão mal? Sabes como os homens deveriam amar?” ou em “O rapazinho assombrado”, uma mãe que se tenta suicidar e é internada temporariamente num hospício. “Normalmente quando sentia um poema a formar-se deitava-se ao comprido no chão da sala de estar, tentando encontrar as rimas, a língua movendo-se no canto da boca. A mãe chamava-lhe Shelly-Poe enquanto passava por cima dele, e às vezes punha o pé suavemente no fundo das suas costas. A mãe gostava sempre dos seus poemas: hoje o segundo verso chegou logo, como por magia. Disse-o alto a John : - «My heart is like a basketball, bouncing with glee down the hall». Que tal para o princípio de um poema? - Parece-me um bocado maluco – disse John. Depois corrigiu rapidamente: - Quero dizer que soa… estranho. Estranho, é o que quero dizer.”

Em McCullers o doméstico é sinónimo de anomalia, transtorno, bloqueio. A casa é geralmente o ponto de contratura, o lugar onde as vértebras dos personagens rangem e contorcem-se. Se em “O rapazinho assombrado” “a casa parecia estranha, louca”, em “Um instante da hora seguinte” também o apartamento de Marshall nos dá a impressão de ser um lugar frio e sacolejado. “Ela pensou que devia ter bebido mais do que imaginara, porque os objectos do quarto tinham um estranho ar de sofrimento. As beatas estavam húmidas e tinham sido sugadas até ao fim. O tapete, quase novo, parecia esmagado e com os desenhos desfeitos pelas cinzas.” Esmagados e desfeitos, é tal e qual assim que nos sentimos em cada casa de McCullers.

De igual modo, em “Um dilema doméstico”, novamente o domus é sinónimo de poço, de sufoco, de abismo. Também aqui sentimos de alguma maneira a mesma debilidade. Aqui assistimos a um jovem casal com dois filhos que vive confortável e desafogadamente numa boa casa. Este jovem casal, os Meadows, têm tudo para serem felizes e, no entanto, estão a milhas dessa idolatrada felicidade. Emily torna-se alcoólica, desinteressa-se pelas lides domésticas, pelo bem-estar dos filhos e deixa o marido em constante sobressalto. Uma vez mais, McCullers esmiúça ao pormenor o drama que é governar uma casa, as férreas obrigações matrimoniais, os encargos da maternidade, o sufoco guardado debaixo da almofada numa espera interminável de alguma fada dos dentes que à partida nunca chegará.

Como se vê, há sempre um vício, uma ausência, um temor inexplicável ou uma tristeza descontrolada a minar esse quotidiano cambaleante. Daí, o doméstico gravitar numa atmosfera desoladora e porosa, onde a apatia e a solidão, o desânimo geral permanecem acorrentados em toda a sua obra a um timbre mordente. Mordente, mas acima de tudo credível pela sua desarmada noção acerca do cerne revolto de todas as relações humanas. Do quão inenarráveis elas se poderão tornar dentro de nós, do quão maléficas e implacáveis elas se poderão tornar dentro de nós. “Nunca detesta ser quem é? Quero dizer, como nas vezes em que acorda de repente e diz eu sou eu e se sente asfixiar. É como se tudo o que fizesse e pensasse tivesse pontas soltas e as coisas não encaixassem umas nas outras.”

 

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