12/5/21
 
 
José Cabrita Saraiva 15/04/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Bernie Madoff e a "confiança pública"

Morreu ontem numa prisão da Carolina do Norte, Estados Unidos da América, aos 82 anos, Bernard Madoff, o cérebro da maior fraude financeira de todos os tempos. A cumprir uma pena de cadeia de 150 anos, em fevereiro de 2020 tinha apresentado um requerimento para ser libertado: segundo os médicos, a sua esperança de vida era de menos de um ano e meio.

O seu aspeto acabrunhado, à entrada do tribunal, parecia prenunciar o seu triste fim, marcado pela tragédia e extremamente penoso de se ver. Um dos seus filhos suicidou-se (não terá sido a única pessoa a fazê-lo na consequência das malfeitorias cometidas pelo seu progenitor, que levou pessoas à ruína em todo o mundo), e um outro morreu de doença.

Fosse como fosse, o mesmo juiz que o tinha condenado negou-lhe a libertação, com base na dimensão “sem precedentes” dos seus crimes. Vejamos o que disse esse juiz sobre a sentença: “O simbolismo de uma sentença de 150 anos era importante: a confiança pública tinha sido desgastada pela capacidade do Sr. Madoff para manipular o sistema durante tantos anos, ele mercia ser punido de acordo com a sua culpabilidade moral”.

Note-se este aspeto curioso: a longuíssima duração da pena contrastou com a rapidez do processo. Em menos de um ano Madoff foi julgado e posto atrás das grades.

É de admitir, claro, que, com um esquema que envolveu 65 mil milhões de dólares, as provas contra eles fossem esmagadoras. Mas revela uma eficácia notável.

Como sabemos, em Portugal as coisas são um bocadinho diferentes. Oprocesso Marquês arrastou-se por mais de seis anos, ao fim dos quais, terminada a fase de instrução, ficámos a saber que afinal ninguém será julgado por corrupção, apesar das evidências gritantes. A justiça é tão lenta que o único crime de corrupção por que os réus teriam de responder entretanto... prescreveu.

Se a “confiança pública” – para tomar emprestadas as palavras do juiz de Madoff – dos portugueses nas instituições e no poder já estava “desgastada”, agora levou a machadada final.


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