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13 de Abril de 1969. Um russo de boca aberta de espanto às voltas na ilha Formosa...

13 de Abril de 1969. Um russo de boca aberta de espanto às voltas na ilha Formosa...

Afonso De Melo 13/04/2021 15:30

Victor Louis, um dos grandes repórteres do seu tempo, tornou-se no primeiro russo a visitar Taiwan ao fim de 40 anos. As matérias que enviou do país fechado de Chiang Kai-shek provocaram interesse inusitado um pouco por todo o mundo.

Victor Louis foi um dos mais afamados jornalistas russos do seu tempo. O seu nome original era Vitaly Yevgenyevich Lui, e nasceu em Moscovo no dia 5 de Fevereiro de 1928. Só nos anos 50 decidiu adoptar uma assinatura mais afrancesada e, nessa altura, já era muito mal visto pela intelligentsia soviética por causa das suas relações privilegiadas com o KGB, que o transformaram numa espécie de agente provocador do regime. Mas isto depois de ter sido uma fonte de problemas para o governo soviético por via da sua independência que o levou a tornar-se correspondente de vários jornais ocidentais, como o Washington Post, por exemplo. Dez anos de prisão nos campos de trabalho por espionagem, entre 1946 e 1956, dobraram-lhe a espinha. Apesar de continuar a colaborar com jornais como o The Evening News ou o Sunday Express, passou a ser mais cuidadoso na forma como transmitia o que se passava para lá das fronteiras da União Soviética.

Em Abril de 1969, Victor estava em Taipei, capital da Ilha Formosa, ou de Taiwan, se preferirem. O país era fechado como poucos, pelo que as suas reportagens enviadas especialmente do país de Chiang Kai-shek, um político e militar que foi presidente da China entre 1928 e 1949, tendo sido varrido pela revolução comunista de Mao, tiveram natural impacto por toda a parte. Em 1950, Chiang Kai-shek refugiou-se na Ilha Formosa, como os portugueses a baptizaram em 1600, ao estabelecerem por lá uma feitoria vizinha da Ilha dos Pescadores, e sempre na presidência do partido Kuomintang, formou uma nova China com a promessa eterna de que voltaria ao continente para retomar o poder na entretanto denominada China Popular.

Fascínio Victor Louis era um homem fascinado, a basearmo-nos nas reportagens que foi enviando da Formosa. Era o primeiro russo a pôr os pés na região nos últimos 40 anos. Conseguiu um visto através da embaixada do Paraguai em Tóquio e espantou-se logo à chegada: “Disseram-me que podia visitar todos os lugares que quisesse na ilha e ver tudo o que me apetecesse. Encontrei-me com economistas, políticos e altos funcionários do governo, e durante todo este tempo espantei-me ao verificar como os meus interlocutores eram chineses e podíamos encontrar uma linguagem comum. Certamente um contraste total com os chineses de Mao que parecem só saber exprimir-se citando o seu famoso livro vermelho”.

Victor Serge espantou-se com tudo, até com matérias dificilmente espantosas: “Os intelectuais da Formosa compreendem bastante bem que os Estados Unidos chegaram um pouco tarde com os apoios ao Kuomintang e, de facto, só quando decidiram conservar este porta aviões inafundável ao largo da China. Mas nem por isso o país deixa de seguir uma linha política independente, expressa, por exemplo, na total recusa de enviar tropas para a Guerra do Vietname”. E continuava, desta vez verdadeiramente surpreso: “Incidente estranho deu-se na representação de uma ópera no Clube dos Oficiais. A primeira ária a ser cantada foi Happy Birthday To You, em inglês, e um imenso bolo foi cortado no palco por funcionários governamentais. É coisa para dizer que, na Rússia, esta glorificação de Chiang Kai-shek seria vista, pelo ponto de vista ocidental, como um exagero do culto da personalidade”.

Feliz com a tradução que lhe faziam dos jornais locais, Victor Louis concluía que, na Formosa, não havia grande hostilidade para com os soviéticos. E que esta era bem menor do que a propagada pela imprensa ocidental.

 

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