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Pedro Vaz 13/04/2021
Pedro Vaz

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A banhada

Em outubro de 2017 Rui Rio prometia um banho de ética na política portuguesa. Algo que foi reafirmando cada vez que surgiam casos de violações de princípios éticos nas suas hostes. Rio assumia-se, então, como um líder de princípios à prova de tudo, aproveitando a fama granjeada com um pequeno episódio relacionado com a celebração de feitos desportivos de um clube desportivo da cidade. Portanto, foi assim que Rio se alcandorou de grande defensor ético da República.

Cada dia, mês e ano que passa constata-se, afinal e como em quase todos os casos em que se luta pela sobrevivência, incluindo a política, que os princípios são a coisa mais importante até deixarem de o ser. É precisamente isso que Rui Rio tem demonstrando neste processo de escolha de candidatos autárquicos.

Com uma liderança em permanente sobressalto e sob ameaça interna, o Presidente do PSD já percebeu que o seu futuro político depende em larga medida de vitórias eleitorais nas próximas autárquicas e não tem recusado quem quer que seja, independentemente do seu passado, do seu exemplo ou das ideias que defende, desde que esse candidato lhe permita acalentar o sonho de uma eventual vitória eleitoral em determinado concelho ou freguesia.

Desde as eleições regionais dos Açores (sobre as quais já aqui escrevemos) que as palavras de ordem são vale tudo. E, aqui, o vale tudo significa que não interessa se o candidato escolhido veio do mundo do futebol, se é próximo da extrema-direita, não importa o que defende, não importa sequer se é democrata ou se não tem ou teve qualquer problema com a justiça, relacionado com crimes derivados do exercício de cargo público. Qualquer um serve, desde que, mesmo que lá bem ao fundo do túnel, mantenha a luz da vitória eleitoral à vista. Este é o verdadeiro “princípio ético” de Rio e do PSD -  todos os meios são legítimos desde que o resultado seja ganhar.

Só isto justifica que o candidato autárquico em Gaia seja o maior acionista da SAD do FC Porto, anteriormente “excomungada” por Rio e que a candidatura do PSD na Amadora seja liderada por uma pessoa que se falava como putativa candidata do Chega em Lisboa e cujo líder da extrema-direita já veio publicamente elogiar. O mais caricato resulta, no entanto, das recentes declarações do porta-voz da direção nacional do PSD, José Silvano, em que o mesmo afirma sem qualquer engulho que a candidata não serviria para ser Deputada pelo PSD, mas como é para a Câmara da Amadora já serve (sic!).

Não é de hoje o perigoso caminho que o PSD tem vindo a trilhar. Todos já sabíamos que a consistência ideológica do PSD é cada vez mais o oportunismo que melhor convier. Depende do tempo, local e modo. Tanto se é social-democrata, como liberal, como democrata cristão, como conservador ou nacionalista, como se é de centro-esquerda, centro-direita, direita ou extrema-direita. Tudo depende do dia, da audiência e do sopro do vento.

Com base em tudo isto, não deixa de ser estranho ver-se o candidato do PSD a Lisboa, Carlos Moedas, a lamuriar-se de campanhas negativas contra si (campanhas que não são mais que recordatórias do seu passado político) e em simultâneo nada dizer contra candidatos do seu PSD, como a escolhida para a Amadora, que montaram campanhas negativas contra os portugueses.

O PSD já teve um candidato semelhante em Loures, nas últimas autárquicas, e veja-se onde ele está hoje (elogie-se a dignidade do CDS e da sua líder de então em relação a essa candidatura retirando-lhe apoio político. Já o PSD e Passos Coelho não se importaram muito). Agora o PSD tem novo candidato dessa estirpe noutro município da Área Metropolitana de Lisboa (AML). A candidata do PSD na Amadora representa o ódio às minorias, aos diferentes de nós. Representa a exploração da vulnerabilidade e da intolerância.

Isto diz muito sobre o PSD e diz mais sobre os candidatos que apresenta na AML, pois as relações sociais, económicas e culturais na grande Lisboa não são isoláveis entre concelhos. O concelho da Amadora fica a uns 5 Km do Marquês de Pombal e na próxima campanha eleitoral a probabilidade de Moedas cumprimentar um residente nesse e em qualquer concelho vizinho é duas vezes mais provável que cumprimentar um eleitor de Lisboa. Que discurso terá Moedas para as dezenas de milhar de pessoas que trabalham em Lisboa e residem na Amadora e são o alvo do discurso de ódio da candidata do seu partido? Provavelmente dirá que se trata de uma campanha negativa da sua correligionária de partido, contra si próprio.

Achar que ser candidato pelo PSD em Lisboa é autonomizável em relação a uma candidatura do PSD na Amadora e que isso não significa que ambos representam o mesmo grau de valores é o mesmo que achar que a farinha do mesmo saco é diferente. O que diz Carlos Moedas sobre a candidata do PSD na Amadora?

Pedro Vaz


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