12/5/21
 
 
António Cluny 13/04/2021
António Cluny

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Os novos bodes expiatórios segundo Chloé Morin

«É mais fácil apontar os bodes expiatórios do que interrogarmo-nos sobre a nossa responsabilidade no mal-estar que envolve a democracia. Os populistas não são a causa dos nossos problemas, eles são o sintoma»

Chloé Morin, uma politóloga francesa que já acompanhou de perto os círculos do poder do seu país, em entrevista recente ao Lire Magazine Littéraire, afirmou, a dado passo, algo que parece óbvio, depois de dito, mas que, apesar disso, é verdadeiramente importante ser repetido e refletido.

Disse ela: «É mais fácil apontar os bodes expiatórios do que interrogarmo-nos sobre a nossa responsabilidade no mal-estar que envolve a democracia. Os populistas não são a causa dos nossos problemas, eles são o sintoma»

E acrescenta clara e sem rodeios: «Se a política mudasse a vida, se as elites não estivessem desligadas [da realidade] e se se constituíssem como um exemplo, se milhões de franceses não tivessem como horizonte a perda de estatuto [social e económico], se a Europa e o Estado soubessem ser justos e nos protegessem, em vez de parecerem antes fazer de Cavalo de Troia da mundialização … os populistas não alcançariam tão grandes resultados eleitorais».

Esta é, de facto, a descrição do quadro quase perfeito da situação, pelo menos tal como ela é percecionada por muitos cidadãos.

Na verdade, mais do que duvidar dos discursos, das justificações e das medidas propostas por governos de orientações políticas aparentemente distintas, muitos dos cidadãos deixaram, pura e simplesmente, de acreditar que as políticas – a política – desenvolvidas nos seus países, mesmo quando democráticos, sejam capazes de sustar o declínio da sua condição económica e social.

Acreditam mesmo que os políticos que os governam – e as políticas que prosseguem - não estão sequer interessados ou preocupados com isso.

O que os cidadãos sabem é que a sua condição de vida declina constantemente e, pior, acreditam que a vida dos seus filhos será ainda mais periclitante.

Pouco, muito pouco, na política das democracias atuais consegue, efetivamente, fazer brilhar uma luz de esperança e de entusiasmo em milhões de pessoas.

As pessoas aceitam, facilmente, uma quebra temporária nos seus padrões de vida.

Elas querem, porém, que, seguidamente, lhes garantam, no mínimo, a sua qualidade de vida anterior e, bem assim, o regresso ao caminho de progresso paulatino e sucessivo que lhes haviam prometido e com que as fizeram sonhar.

Ora, é precisamente isso que elas não têm já certeza de que venha a acontecer.

É essa quase convicção de que a sua precária condição de vida atual estará congelada por muito tempo, que favorece a descrença nas democracias e abre o palco que suporta os discursos dos populistas.

Não que, em rigor, as pessoas acreditem demasiado neles, ou nas suas promessas demagógicas, mas, por se sentirem enganadas e magoadas, querem punir quem as conduziu a uma situação sem esperança, para a qual não veem solução e razão plausível para a sua ausência.

Só, por isso, aceitam dar espaço e votos a quem agride a democracia, mesmo sabendo que foi através dela que tiveram sucesso as lutas que lhes permitiram alcançar a situação que julgam, agora, irremediavelmente perdida.

Num mundo em que o individualismo - amplamente alimentado por todos os meios de influência ideológica e corporizado, mais fisicamente, nas novas formas de teletrabalho - se tornou modelo hegemónico de vida e maneira efetiva de nela estar, os discursos histriónicos, mas perigosos, dos populistas compensam bem a frustração pessoal de muitos.

 A verdade é que há, hoje, muita gente que já não encontra – porque não os viveu e neles não foi educada – nos valores e movimentos solidários e no ideal do bem comum, um motor de ação cívica convincente para resolver os obstáculos que, constantemente, são criados à melhoria da sua condição de vida.

Ante tal barreira aparentemente intransponível, o retorno aos discursos austeritários - as políticas da contenção, para os muitos, e de aceitação das prebendas, para uns poucos - quaisquer que sejam os matizes ideológicas que os envolvam, começa a ser insuportável para a maioria e só agrava a desesperança.

Ninguém quer sacrificar o presente em função de um futuro que se acredita, agora, poder vir a ser pior.

Alguns apoios estatais e a segurança provisória de uma situação que julgam poder ser, mesmo assim, melhor do que a que vem a seguir, podem garantir, circunstancialmente, estabilidade política, social e económica nos momentos de crise mais exposta e sofrida, como os que vivemos.

Porém, a vertigem do retrocesso e o medo do futuro - provocados, às vezes, por pequenas, mas simbólicas, tomadas de posição mais ríspidas – podem, inesperadamente, causar alterações sociais e políticas profundas.

A desesperança - acrescida pelo individualismo reinante que a faz medrar - não tem, é certo, permitido criar, de imediato, projetos alternativos coletivos e solidários convincentes e mobilizadores.

Tem, somente, ampliado, de momento, o desespero e a amargura: e é aí, na solidão da desventura, que o populismo medra. 

A busca de justiça, de que fala Chloé Morin, pode revestir, então, atitudes pouco racionais.

Porém, o que, com razão, parece verdadeiramente irracional a muitos, é, sim, a degradação constante e progressiva da sua condição, sobretudo quando em contraste gritante com o enriquecimento desmesurado de uns poucos.

Daí, aliás, o sucesso imediato do discurso fácil e meramente justicialista – mas sempre voluntária e politicamente neutro - sobre a corrupção e os corruptos.

Os corruptos – que vergonhosamente os há grandes e em demasia, devendo, certamente, ser punidos severamente – ocupam, por isso, hoje, no imaginário popular, o lugar simbólico dos bodes expiatórios nos ódios atiçados antes, por outros populistas, contra as raças malditas.

A aparente dificuldade de os fazer punir – ou as complexidades a isso criadas -, no respeito pelas normas constitucionais e as leis existentes, mais agrava o desprestígio da democracia e do Estado de Direito.

As justificadas revoltas que, em geral, tudo isto provoca, por mais inconsequentes que possam ser por ora, podem parecer ainda controláveis e, em certas circunstâncias, para alguns mais maquiavélicos, até vantajosas para o jogo político imediato.

No final, porém, como aconteceu em outras ocasiões históricas, ninguém pode garantir como tais aventuras moldarão, verdadeiramente, o futuro.


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