12/5/21
 
 
Afonso de Melo 13/04/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Dissolva-se o povo!

Os franceses têm uma belíssima expressão para distinguir os simplesmente entediantes dos que são uma verdadeira estucha: “Il faut faire la distiction entre les grands emmerdeurs et les emmerdeurs tour court”. Enquanto o céu de Alcácer não ganha cor e se mantém entre o cinzento e o branco das nuvens baixas, os dias enxamearam-se de debates e rebates sobre a decisão de um mero juiz de instrução como se estivéssemos a falar de um juiz a sério, daqueles magistrados de estadão com pose de urubu dependurado nas costas de um dos cadeirões do Supremo Tribunal de Justiça. Fazem falta, esses juízes de antanho, num país onde a Justiça passou a escrever-se com letra minúscula por ser, precisamente, exercida por gente minúscula.

De tempos a tempos, sofro a grandessíssima estucha, como diria o Ega do divino Eça, de me ver fechado numa sala de tribunal onde todas as testemunhas juram solenemente não mentir e, em seguida, não fazem outra coisa senão faltar à verdade. Geralmente, à direita dos juízes de pacotilha que tenho apanhado pela frente, que noutros tempos não passariam de esforçados oficiais de diligências, senta-se aquele mono sinistro que se diz representante do Ministério Público, uma instituição com laivos de fascismo e da mais absoluta incompetência, como se vai provando passo a passo, processo a processo.

Todos seremos inocentes até prova em contrário, mas a verdade é que nos tratam como culpados, arrasando essa presunção básica do Direito, sobretudo nos casos mediáticos em que as fugas de informação, sempre vindas da mesma parte e sempre beneficiando dois ou três meios de comunicação com ligações umbilicais ao tal de Ministério Público, oferece à opinião generalizada a cabeça do infeliz que importa condenar. Confesso que tenho a minha conta. Se algo me aborrece para lá da incompetência, é a preguiça. Por isso, de cada vez que ouço uma sentença, bocejo. “Il sont tous, vraiment, des grans émmerdeurs”. Como dizia Bertolt Brecht, seria mais fácil dissolver o povo e eleger outro...

 


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