6/5/21
 
 
José Cabrita Saraiva 13/04/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

O povo que roubou Sócrates

A decisão de Ivo Rosa de pronunciar José Sócrates apenas por crimes “menores” deixou muita gente chocada. Mesmo aqueles que desconfiavam do juiz desde o primeiro minuto, e que achavam que o sorteio estava viciado (coisa nunca vista, um programa informático complicadíssimo para escolher entre dois candidatos!), não acreditavam que um “branqueamento” tão absoluto pudesse ser possível num estado de direito.

Mas mais curioso é que houve também quem não conseguisse disfarçar a sua satisfação por ver o antigo primeiro-ministro escapar às acusações mais graves. Existe entre nós ainda uma cultura de glorificação do chico-espertismo (como aliás ficou bem patente durante o confinamento). Aqueles que conseguem fintar as autoridades e ficar a rir-se no final são objeto de uma certa admiração.

Até poderia perceber isso se José Sócrates fosse uma espécie de Robin dos Bosques, alguém que rouba aos ricos para dar aos pobres. Infelizmente, penso que o contrário está mais perto da verdade.

Há quem teimosamente insista na “narrativa” da troika, dos credores sem coração e do Governo que empobreceu o país. Ora, o grande responsável desse empobrecimento é obviamente outro: nem mais nem menos do que aquele que, depois de levar o país à ruína, chamou a malfadada troika para que o Estado pudesse pagar salários e depois se pôs ao fresco, apanhando um voo para Paris, onde ficou a viver à grande e à francesa.

E, tal como ele, outros altos administradores de bancos, de empresas, etc., não se coibiram de destruir riqueza de uma forma obscena, fosse para empocharem mais alguns milhões, fosse para manterem o seu estatuto e influência.

É disto que se riem aqueles que se congratulam com a decisão de Ivo Rosa: da miséria nacional. Ou seja, da sua própria miséria. Como dizia alguém com uma certa dose de humor negro, ainda vão conseguir provar que afinal, se houve algum crime, foi o povo que roubou Sócrates. Num Estado onde os pequenos devedores são perseguidos impiedosamente e os grandes culpados se safam com esta facilidade, já nada me espanta.


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×