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Operação Marquês. PS em silêncio. Direita aponta o dedo à Justiça

Operação Marquês. PS em silêncio. Direita aponta o dedo à Justiça

Luís Claro 12/04/2021 10:12

Socialistas evitam comentários sobre o caso Sócrates. Direita reage com indignação e garante que está em causa a credibilidade da Justiça. PS e PSD ainda não reagiram oficialmente.

As primeiras reações políticas à decisão instrutória da Operação Marquês surgiram menos de uma hora depois da leitura da sentença. CDS, Liberais, Chega e Bloco de Esquerda reagiram de imediato, mas os socialistas e o PSD ainda não assumiram uma posição oficial sobre o caso que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates. O PCP reagiu um dia depois para lamentar a demora da Justiça.

Mas vamos por partes. O PS optou por não fazer uma declaração oficial e mesmo os socialistas que comentaram a decisão fizeram-no com todas as cautelas. António Costa já tinha avisado, antes de decisão do juiz Ivo Rosa, que “já disse tudo o que tinha a dizer em outubro de 2014”.

O agora primeiro-ministro e secretário-geral do PS distanciou-se dos problemas de Sócrates com a Justiça desde o início com o argumento de que é necessário fazer a “separação entre aquilo que é da Justiça e aquilo que é da política”.

Essa estratégia é para manter e foram poucos os socialistas que comentaram a decisão do juiz Ivo Rosa.

Ana Catarina Mendes falou deste o caso, mas na pele de comentadora no programa Circulatura do Quadrado, na TVI. A socialista garantiu que o PS manterá a posição que têm assumido até agora para que a Justiça faça o seu caminho. “O processo ainda não está concluído. A Justiça deve funcionar. Não deve ser pressionada por ninguém, nem por nenhum partido político. Acho perigoso que os partidos possam fazer o julgamento em vez da Justiça”, disse a líder parlamentar do PS.

Os socialistas querem afastar o fantasma de Sócrates, mas o ex-primeiro-ministro preparar-se para voltar à ribalta. Vai lançar em breve um livro sobre o processo com duras críticas à direção de António Costa e já tem prevista pelo menos uma entrevista numa televisão. Num artigo no jornal Folha de São Paulo, Sócrates insiste na tese de que o sistema judicial foi utilizado para o “retirar alguém do espaço público e impedir a sua candidatura a Presidente da República” (ver texto ao lado).

“Um sistema doente”

Rui Rio convocou uma reunião da Comissão Permanente para analisar a decisão, neste sábado, mas ainda não assumiu uma posição oficial.

Houve, porém, destacados sociais-democratas a apontar o dedo à Justiça. Carlos Moedas, candidato à câmara de Lisboa, considerou que “um sistema que dá como comprovado que um ex-primeiro-ministro é corrupto, mas não o condena enquanto tal, é um sistema doente”.

Para o ex-comissário europeu, “não podemos continuar assim”, porque “é a nossa democracia que está em causa”.

António Capucho, histórico do PSD, considerou “as decisões do juiz Ivo Rosa não representam tanto uma derrota do Ministério Público, que viu a acusação arrasada, mas sim uma profunda machadada na já baixa credibilidade da Justiça em Portugal”.

Capucho considera que estas decisões da Justiça favorecem o populismo, nomeadamente o Chega que “vai explorar demagogicamente e em seu favor este enorme escândalo”, e reforçam a convicção na opinião pública de que “os grandes e poderosos escapam sempre à Justiça”.

“O povo está indignado”

Os partidos à direita do PSD reagiram de imediato à decisão da Justiça com os olhos postos em José Sócrates. O líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, considera que não pode deixar de ser feita “uma leitura política” sobre este processo. “Depois de tantos anos, o povo não entende esta decisão e está indignado com razão. Os valores éticos e morais de um governante não prescrevem!”.

O eurodeoputado Nuno Melo foi mais longe e afirmou que esta decisão representa “um tiro na cabeça da Justiça e da credibilidade da democracia em Portugal”. Num texto que publicou na sua página do Facebook, Nuno Melo considera que “as considerações ridículas do juiz Ivo Rosa em relação aos factos e ao esforço do Ministério Público e do Juiz Carlos Alexandre, justificam e banalizam tudo aquilo que seria suposto representar e ajudar a combater”.

André Ventura também lamentou uma decisão que provoca “revolta” e “frustração”. O líder do Chega classifica como “inacreditável a forma leve como se apagaram comportamentos e se ignoraram circuitos financeiros de milhões, criando um sentimento de enorme impunidade”.

Já a Iniciativa Liberal, em comunicado, defendeu que “a democracia ficou mais frágil”, porque “quando as instituições democráticas se revelam pouco consistentes só fortalecem quem as quer atacar”.

PCP critica lentidão

O PCP reagiu este domingo à decisão instrutória da Operação Marquês. Em comunicado, os comunistas consideram que “este caso judicial, pese embora a sua inequívoca complexidade e dimensão, tem-se arrastado no tempo de forma que é inaceitável aos olhos do cidadão comum”.

O Bloco de Esquerda defendeu, logo na sexta-feira, que “a instrução do processo Marquês deixa muitas questões em aberto para o recurso, mas também expõe grandes fragilidades que põem em crise o funcionamento da Justiça”. Catarina Martins considera que este processo “demonstra a urgência da criminalização do enriquecimento injustificado”.

Petição e buzinão

Poucas horas depois da leitura da sentença começou a circular uma petição pública com a pretensão de afastar Ivo Rosa de toda a magistratura. A iniciativa online reuniu mais de 150 mil assinaturas em três dias.

A petição, endereçada ao presidente da Assembleia da República, provedora de Justiça e ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça, defende que o juiz Ivo Rosa “não tem, perfil, rigor e equidade para exercer tal cargo”.

O regresso deste caso à agenda mediática levou também a que alguns cidadãos se manifestassem contra a corrupção em Lisboa e em Viseu. O “buzinão de protesto” foi marcado através das redes sociais.

 

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