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Pobreza. "Há pessoas que não compram medicamentos ou cortam na comida"

Pobreza. "Há pessoas que não compram medicamentos ou cortam na comida"

Maria Moreira Rato 12/04/2021 13:27

No país em que quase um quinto da população é pobre, “há situações de pobreza mais ou menos intensa”, mas o sociólogo Fernando Diogo e a sua equipa definiram os perfis de quem sobrevive a muito custo: os reformados, os trabalhadores, os precários e os desempregados.

“Os pobres não são todos iguais”. É a ideia sublinhada por Fernando Diogo, professor de Sociologia da Universidade dos Açores, ao abordar a pobreza em Portugal e que corroborou através do estudo “A Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que será apresentado esta segunda-feira. O também investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais quis perceber quem são as pessoas em situação de pobreza, assim como conhecer a sua história, trajetória e o modo como vivem. Da investigação sai pela primeira vez uma análise sobre quatro perfis de pobreza em território nacional: reformados, precários, desempregados e trabalhadores.

O limiar de pobreza

Em 2019, deu-se uma subida dos rendimentos dos portugueses para uma média anual de 10 800 euros, o que levou ao aumento do limiar da pobreza, que corresponde a 60% deste valor.

Consequentemente, o valor abaixo do qual alguém é considerado pobre, em Portugal, passou para os 6480 euros anuais que correspondem a 540 euros por mês – antes 501,16 euros –, de acordo com informação avançada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no final do passado mês de fevereiro, no contexto da divulgação dos dados provisórios do Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida.

“Os perfis de pobreza têm uma base estatística muito sólida. Começámos por pegar no inquérito que o INE utiliza para calcular a taxa de risco de pobreza”, começa por explicar Fernando Diogo ao i, desvendando que tentou compreender “as possibilidades e limitações” dos cidadãos que se encontram nesta situação, no primeiro capítulo do trabalho, sendo esta análise seguida da identificação das principais características desta população. Depois, foram calculadas diversas variáveis e, no quarto, a estatística assumiu um papel de muito relevo naquilo que diz respeito à descoberta dos perfis anteriormente mencionados.

Têm validade estatística para a população portuguesa. Respeitando a proteção de dados, o INE fornece os dados aos investigadores, mas não ficámos por aí”, esclarece o autor da Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social dos Açores. “Fomos buscar a literatura sobre perfis e confrontar os quatro perfis com estes e afinámo-los. No entanto, foi preciso passar para as pessoas reais, sendo que investimos muito tempo, dinheiro e esforço nesta fase do trabalho”, clarifica. 

“Teria sido fácil ir ter com as instituições de apoio social, pedir dados sobre os utentes e os seus contactos, e avançar, mas quisemos alcançar a diversidade entre perfis e intraperfil”, remata o membro do Conselho Económico e Social dos Açores que, em colaboração com os outros investigadores, definiu “muito claramente” a quantidade de pessoas que pretendia inquirir tal como critérios referentes aos elementos dos agregados familiares, às idades de cada um destes ou à relação que mantém com o mundo laboral.

Famílias com crianças mais vulneráveis

“Partimos para o terreno e usámos uma diversidade de estratégias para chegar até às pessoas. Recorremos a todo o tipo de instituições e inclusivamente à estratégia bola de neve, de pôr as pessoas a dar os nossos contactos a outras”, conta o coordenador da Secção Temática Pobreza, Exclusão Social e Políticas Sociais da Associação Portuguesa de Sociologia.
“As redes de relações costumam ser homoclássicas, isto é, as pessoas relacionam-se com quem pertence à sua classe social, exceto em contextos muito específicos como o do trabalho”, adianta o sicólogo, realçando que teve o cuidado de não conversar com pessoas da mesma família nas 91 entrevistas que realizou. 

“Os pobres não são todos iguais: há situações de pobreza mais ou menos intensa e há pessoas que vivem em determinados contextos”, contudo, “no meio de tudo isto, escolheria as famílias com crianças no cerne da vulnerabilidade perante a pobreza”, na medida em que esta tipologia de família, aliando-se aos desempregados e aos indivíduos que vivem de transferências sociais (prestações sociais à exceção das pensões) são particularmente afetados pela pobreza.
Neste sentido, importa referir que os investigadores debruçaram-se também sobre a intensidade da pobreza. “Não se trata simplesmente de ser ou não ser pobre. Há pessoas que têm menos rendimentos disponíveis para fazer a sua vida”, explica o docente, clarificando que os inquiridos foram questionados acerca da forma como fazem a gestão do orçamento mensal para sobreviverem.

“A maior parte diz que o dinheiro não chega ou que adequa as despesas ao mesmo. ‘Roubar a Pedro para dar a Paulo’ é a expressão que mais encaixa neste panorma”, confessa o autor do estudo, contando que se deparou com pessoas “que não compram medicamentos ou cortam na comida” para conseguirem fazer face a todos os encargos.

A falta de vínculos laborais

“Ficou claro que uma diferença de 20 ou 30 euros por mês no orçamento mensal de uma família faz toda a diferença. Por exemplo, os aumentos das pensões ou do ordenado mínimo, por mais pequenos que sejam, fazem toda a diferença”, avança Diogo, não esquecendo, porém, que 1/3 dos pobres em Portugal está no perfil dos trabalhadores e dos precários. 
“Não apenas 1/3 está, como há mais 25% que têm uma relação difícil com o trabalho. Por exemplo, alguém que trabalha dois dias por semana nas limpezas ou os pobres com 18 ou mais anos que trabalham regularmente, mas não têm um contrato. Há relatos de pessoas que mostram uma grande vontade de se envolverem mais no trabalho, mas não conseguem”, sublinha, lembrando que o perfil dos precários “é o mais heterogéneo dos quatro porque fica entre os desempregados e os trabalhadores”. 

O professor não esquece “os filhos adultos dos trabalhadores, que são precários, e vivem em casa dos pais”, nem aqueles que abdicam de ter um emprego por serem cuidadores informais.
“Temos o caso de um homem que teve de se despedir para ficar a tomar conta de uma filha deficiente. Essa decisão foi tomada porque ganhava menos do que a mulher”, assevera o sociólogo. “Como é possível que os trabalhadores sejam pobres?”, questiona, não deixando de evidenciar que uma das questões mais importantes trata-se da dimensão familiar.
“O limiar da pobreza é de 540 euros, mas quando estas pessoas vão para casa e dividem o dinheiro pelos membros do agregado, tornam-se pobres, mesmo que ganhem mais do que esse valor”, garante.

Os três ‘d’ da pobreza

“Algo que caracteriza muito a pobreza em Portugal é que é tradicional: tende a ser persistente ao longo da vida e a reproduzir-se entre gerações”, revela. “Isso não significa que não haja pessoas que ingressaram há pouco tempo na pobreza, mas a maior parte das pessoas sempre a viveu”, diz.

Ao compreender este fenómeno, os investigadores chegaram à conclusão de que são diversos os fatores que contribuem para a entrada na pobreza e condensam-nos por meio da ideia dos três D. Em primeiro lugar, o divórcio, pois, “para todos os efeitos, uma quebra de união de facto, formal ou informal, tem o mesmo impacto” e não veem “só a separação dos orçamentos mas também os casos em que esta rutura teve um impacto na inserção no mercado de trabalho” devido à fragilização das vertentes emocional e relacional.

Por outro lado, existe o desemprego, com “subtilezas”, na medida em que “existem contextos como progenitores que vivem com filhos adultos desempregados, muitos deles também no perfil precários, e é preciso ter em conta as atividades que se incluem na zona intermédia, difusa, como os biscates, os part-times, coisas que vão ali parar ao D do desemprego”.

E, por fim, devemos considerar a doença. “É seguida, regra geral, pela morte que também tem um impacto grande na vida destes indivíduos. Falamos de cônjuges, avós e também vimos a morte de filhos. Entram em depressão e não ingressam no mercado de trabalho”, partilha.

“É preciso não esquecer o aforismo dos estudos de desenvolvimento sobre as mulheres africanas: se o trabalho árduo enriquecesse, elas seriam ricas”, recorda Diogo, fazendo questão de reforçar que “há fatores que as pessoas não controlam e que têm impacto nas suas vidas” e, ilustrando esta ideia, fala de “uma pessoa doutorada em Ciências Sociais que se encontrava em situação de pobreza” apesar do estudo comprovar que os graus de escolaridade mais elevados protegem, de certo modo, os cidadãos da pobreza.

“Esta questão do elevado desemprego jovem e das pessoas mais qualificadas é uma questão do Sul da Europa: tem a ver com a forma como nos organizamos política, económica e socialmente no país”, conclui. 

 

 

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