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Marítimo. O rugido atlântico dos Leões do Mar

Marítimo. O rugido atlântico dos Leões do Mar

Afonso de Melo 09/04/2021 20:56

Tristemente atirados para o último posto da classificação, é com saudade que os madeirenses recordam o maior momento da sua história – 1926!

Desde 1985 que o Marítimo se mantém orgulhosamente madeirense na I Divisão do futebol português. Hoje em dia, atirado tristemente para o último lugar da classificação, corre o risco de interromper essa tradição de se medir taco a taco com os grandes, algo que já lhe valeu, pelo caminho, nove presenças nas competições europeias, duas presenças nas finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga, respetivamente, e sobretudo o apego dos adeptos a uma competição na qual contam com 40 presenças.

Claro que isto não é um epitáfio. Ainda há jornadas que cheguem e sobrem para que os Leões do Mar se salvem da despromoção. Mas eu que ainda me lembro de ver jogos no Estádio dos Barreiros quando era pelado, há tempos que não me recordava de os ver com a corda tão apertada à volta da garganta.

A história do Marítimo Sport Clube tem 110 anos. O clube foi fundado no dia 20 de setembro de 1910 por Cândido Gouveia, um revolucionário do seu tempo que sentiu a necessidade de criar um grupo que se opusesse ao elitista Club Sports Madeira e não hesitou em transportar para as suas camisolas o vermelho e o verde da República que estava à beira de ser implantada.

A Madeira é um dos monumentos do futebol em Portugal. Foi na ilha, no Largo da Achada, na Camacha, que se disputou o primeiro jogo do que os ingleses chamam de association em Portugal. Conta a história: “Decorria o ano de 1875 e o Largo da Achada era constituído por um pequeno planalto nas proximidades da Igreja Paroquial, em cujo perímetro se encontra a Capela de São José, o Centro de Saúde e o pitoresco Café Relógio, com a sua torre e a conhecida fábrica de obra de vimes. Foi então que o jovem Harry Hinton, de nacionalidade britânica e residente na ilha da Madeira, introduziu este desporto para gáudio de todos, tornando-se desde então conhecido entre os estrangeiros pelo nome de Jogo da Bola”.

A presença maciça de ingleses no Funchal, muitos dedicados ao trabalho de implantação do cabo telefónico que ligaria a Europa aos Estados Unidos, permitiu que o futebol se desenvolvesse com maior qualidade do que acontecia num muito mais disperso continente. Não é de admirar que, após a constituição do Campeonato de Portugal – que daria depois lugar à Taça de Portugal – em 1921, pondo em compita os principais campeões regionais, fosse um claro objetivo do Marítimo que, no entretanto, se tornara numa espécie de pluricampeão madeirense. Cinco anos mais tarde, em 1926, os Leões do Mar atingiriam o momento mais brilhante da sua história centenária.

Arrasador. Há que dizer que, no Campeonato de Portugal, o campeão insular beneficiava do facto de entrar sempre em fases mais adiantadas da competição. As viagens entre as ilhas e a metrópole não eram fáceis nessa altura e custavam caro. Nessa época festiva de 1926, o Marítimo foi direto para as meias-finais, mas calhou-lhe um caso bicudo: teria de defrontar o FC Porto em Lisboa, terreno neutro, no Campo Grande.

O jogo tornou-se inesquecível e faz parte dos anais do futebol nacional. Vitória dos funchalenses por nada menos de 7-1, com golos de António Camarão, António Alves (4) e Manuel Ramos (2). Percebia-se que a equipa, cuja estrela maior era António de Sousa, o Pinga, mais tarde transferido para o FC Porto, estava mais do que preparada para se bater com o campeão de Lisboa, o Belenenses, possuidor de um conjunto de categoria no qual brilhavam, além de Pepe, Augusto Silva, Silva Marques, Alfredo Ramos e Rodolfo Faroleiro.

No Porto, no Campo do Ameal, o Marítimo venceu o Campeonato de Portugal pela única vez na sua história, derrotando os azuis de Belém por 2-0, golos de José Fernandes e Manuel Ramos. Os Belenenses, surpreendidos e irritados, não suportaram com desportivismo a superioridade do adversário e lançaram-se em desmandos de violência inaceitáveis que mancharam o decorrer do encontro. O vencedor, esse, foi indiscutível!

Havia, talvez por causa dessa embirração, que atinge momentos deprimentes, de portuenses para com lisboetas, uma espécie de acordo tácito para que o público puxasse pelos do Funchal, dispondo-se a esquecer a humilhação dos sete-a-um. Mais ativos, mais fortes, mais objetivos, os maritimistas souberam ganhar com classe. Pelas ruas do Funchal, uma multidão espalhou-se em festejos aos quais não faltaram os fogos.

 

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