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Vivian Maier. A vida íntima de um olhar que tudo fez para não acabar amarrado a este mundo

Vivian Maier. A vida íntima de um olhar que tudo fez para não acabar amarrado a este mundo

Diogo Vaz Pinto 06/04/2021 13:01

O Centro Cultural de Cascais acolhe a primeira mostra no nosso país de uma fotógrafa que nunca quis ver a sua obra exposta, e que se escondia numa existência anónima de ama, muitas vezes levando as crianças na exploração dos bairros depredados de Nova Iorque e Chicago.

 

Talvez a aventura não tenha paciência para as obrigações publicitárias que a arte exige. Muitas das melhores coisas deste mundo não se dão ao trabalho de se justificarem, de tentar seduzir uma audiência. Simplesmente ocorrem por aí, e até apreciam o seu segredo. A sua inquietação divina, protegida da vulgaridade dessas descobertas tão ansiosas por serem celebradas. Há aquelas para quem a única tarefa que lhes importa é caçar o pássaro que lhes esvoaça no cérebro. Caçá-lo e soltá-lo uma e outra vez. Vivian Maier não era desses artistas que passam a vida a comparar o seu coração com tudo apenas para lhe exaltar o prestígio. Era mais como quem sentisse o coração perdido e andasse pelas ruas em sua busca, sabendo como só as fotografias são minuciosas nas suas explorações, pois a sua vigília se estende por anos, às vezes décadas. Esses momentos captados pela câmara persistem na sua busca, e as melhores fotografias são insaciáveis na sua capacidade de ler mais fundo, apanhar ainda mais algum detalhe. Alguém se persegue assim com a sensação de ter sido criado para testemunhar momentos pouco comuns. Quarteirão após quarteirão, sem pressa de fazer sentido do mundo. Apenas olhando essa vida inexprimível, abrindo para si esse contra-sepulcro. Mesmo a hipótese de uma segunda vida, de uma celebridade póstuma seria possivelmente algo que Maier desdenharia. Deu-se sempre ao cuidado de disfarçar o seu rasto, cobri-lo para que não fosse fácil chegarem à sua intimidade. Nos pequenos quartos que serviram de recreio à sua imaginação, fazia questão de ter fechaduras intransponíveis na porta. Receava que lhe roubassem as suas imagens, o seu tesouro, e preferia guardá-lo com a maior discrição. Ia ao ponto de usar nomes falsos, exagerando um sotaque francês para gerar confusão em quem com ela se cruzava. Devia ser apenas a estrangeira. E tinha orgulho de passar sem ser vista, mas ver, tocar formas belas, diariamente. Tinha o homem por um ser cuja sensibilidade ganha expressão como árvore de imagens. Tinha orgulho de andar por aí, captar segredos, sem ser notada. Dizia de si mesma que era como uma espiã. Ciosa do seu mistério, morreu em 2009, numa casa de repouso, uma perfeita estranha para o mundo. Nessa saída à francesa, esperava certamente levar para o túmulo esse outro mundo, essa proximidade cercante do seu olhar, uma liberdade cunhada em circunstâncias difíceis, uma riqueza arrancada aos condicionalismos da pobreza.

Estamos a falar desta fotógrafa agora porque a primeira mostra da sua vastíssima obra, boa parte dela ainda inédita, chega hoje ao Centro Cultural de Cascais, ficando patente até 18 de maio. Ao todo, contam-se 135 trabalhos nesta exposição, entre fotografias a preto e branco e a cores, e vídeo em formato Super 8, imagens captadas entre 1953 e 1984, num balanço que, sem deixar o quotidiano, colhe a sua flor absorta, essa que cintila, assobia no caule, essa que exala “tudo o que a vida não consome,/ os restos do festim da impaciência” (Octavio Paz). Nova Iorque e Chicago são os pontos de referência que adquirem aqui esse “esplendor alagado” de dias que não acabam de morrer, transportando eternamente uma intrigante carga de seres e coisas, encalhando lentamente no tempo parado.

Anne Morin assina a curadoria da exposição que tem andado em itinerância. Fundou e dirige a produtora cultural di Chroma Photography e reconhece a forma como Maier se ancora nesses momentos que o seu olhar surpreende, como a sua própria imagem se relaciona e projecta sobre aquilo que fotografava. Em declarações ao Público, lembra que “na época em que Vivian Maier começou a fotografar vivia-se o sonho americano, com grandes sorrisos de dentes brancos, toda a gente muito rica e de cabelo a brilhar. Mas o curioso é que ela se interessa pelo lado mais desfavorecido da sociedade ao qual ela mesma pertence. Ela fotografa sobretudo os invisíveis, a periferia do mundo, os abandonados”.

A história desta mulher, se as coisas tivessem resultado como pretendeu, não seria nada além de uma sucessão de negativos, as suas idas e vindas, um tempo inassimilável com o mecanismo aberto, exposto, e a realidade abrindo portas para logo de seguida as fechar. Ao mesmo tempo, tudo tão perto e muitíssimo longe. De resto, a escolha de uma câmara Rolleiflex implicava que Maier se aproximasse o suficiente para que os retratos que captava adquirissem verdadeira expressão. Com a lente entre o peito e a cintura, o olhar ficava livre para requerer e chamar o outro, para estabelecer esse pacto próprio de quem sonha de olhos abertos. E nos desacertos técnicos desta fotógrafa autodidacta não deixava de haver uma insistência num estrago, a vontade de captar a forma como na intimidade sempre se perde o pé. A propósito da sua obra, fala-se da busca “de um momento de vibração mútua”, de uma intensidade de quem atira com a realidade para o sonho obrigando-a a uma espécie de ressurreição. Usando o disfarce de uma ama, muitas vezes levando as crianças a seu cargo por ruas e zonas daquelas cidades onde a miséria surgia desfraldada, Vivian Maier perseguia esses corpos com a função de “ruínas vivas num mundo de mortos em vida” (Octavio Paz), os vagabundos e mendigos, desenterrando a sua porção rude de um hino estranho àquela época que já se enredava no registo da exaltação das aparências. Ao calcorrear a Bowery, em Nova Iorque, ou arrancar impressões pela raiz das carcaças nos mercados de Chicago, ela andava à procura desse flanco que a vida protege. Era como se nos chamasse não pelos pronomes mais usuais, mas por esses outros que nos obrigam a ser fieis a uma sensação que derruba as histórias que contamos a nós próprios. E se chegava tão perto dos outros, chegava a gerar através de um só caule flores gémeas, e, Maier não resistia a passar por uma superfície reflectora, alguma fachada ou montra de loja que lhe devolvesse a sua própria imagem, sem suplicar a esse reflexo que a apagasse e fizesse nascer de novo. As suas selfies trazem-nos uma figura a meio do processo de revelação, “um olhar que deixa em suspenso o mundo”. É difícil dizer que tempo é esse que fixa, quando nos olha directamente, ou por que ângulo se furta, quando desvia o olhar. Mas os seus traços exprimem algo mais fundo e insistente do que a beleza saberia dizer. Nesse rosto sem uma expressão definitiva, com uma silhueta grave e esguia, em roupas masculinas, ela é um enigma absorvente – “como um fruto que amadurece para dentro de si mesmo e a si mesmo se bebe e se derrama, num instante translúcido que se fecha”, continuando com versos de Octavio Paz., traduzidos por Sara Belo, para essa edição laminar e tão bela que é “A Estação Violenta” (Sr. Teste, 2020).

Chegados a este ponto, temos de contar a história que acabou por se fazer contra as intenções desta tão esquiva fotógrafa. Nem uma década passou desde que o seu nome começou a ser pronunciado nesse tom de murmúrio encantado que antecede um incêndio. Esta filha de mãe francesa e de pai austríaco, nascida em 1926, em Nova Iorque, quase se escapuliu para o oblívio, como desejava, não fosse uma caixa com milhares de negativos ter sido arrematada por 380 dólares num leilão por um agente imobiliário, então com 27 anos, e com vagas pretensões a vir a afirmar-se como escritor. John Maloof tinha adquirido o hábito de comprar por tuta e meia peças da intimidade devoluta de gente anónima, dessas que se encontram nas feiras e nos lotes que vão a leilão sempre que espaços de armazém e arrumos deixam de ter a renda paga. Quando o tesouro lhe foi parar às mãos, Maier estava ainda viva, mas perfeitamente alheada daquilo que o destino parecia estar a congeminar. Às tantas, tinha até deixado de revelar os rolos, já sem interesse por confirmar nas fotografias que golpe assestara no flanco adormecido dos dias, bastando-lhe que a imaginação compusesse algures esse mosaico que fixava uma série de despertares. Morin, nas declarações que fez ao Público, diz que Maier estava mais interessada em deter esse mundo onde podia reinar sem estar subordinada a ninguém. Uma espécie de pilhagem sensível, como se, respirando pelo coração, o seu olhar articulasse relações que cultivavam certos instantes como monumentos de uma vida alheia e não vivida, mas entregue ao além, a esse sussurro que se estende para lá do tempo. O universo de Maier era uma aventura que estava completa sem a necessidade nessa ordem de degredo que resistia a deflagrar pois a sua virtude define-se por uma avassaladora confiança. Estas fotografias não suplicam nada de quem as olha. Olhá-las é como ver um mecanismo de relógio de um tempo interior que nunca se combinará com o nosso. O seu encanto, a sua perfeita dose de delírio sabe defender-se.

Foi já no ano da sua morte, que John Maloof partilhou no Flickr a ligação para um blogue onde foi publicando as fotografias que foi revelando. Queria saber se era suposto encontrar coisas daquelas, se havia por aí uma sociedade secreta de fotógrafos que captavam anonimamente imagens com aquele nível de fulgor. A sua perplexidade cedo se multiplicou, e não faltaram outros que, diante dessa primeira exposição da obra de Maier tiveram o pressentimento de que podia estar ali um desses triunfos que escapam à apreciação do público. Maloof andava apenas à caça de umas fotografias que lhe permitissem mapear visualmente um bairro de Chicago sobre o qual estava a escrever um livro, mas logo remendou as suas expectativas, e em breve já tinha também ele aspirações como fotógrafo, andando pelas ruas tentando aproveitar-se do privilégio daquelas aulas particulares que estava a receber de Maier. Em breve compraria a outros coleccionadores o material que lhe tinha escapado naquele leilão, e tendo 150 mil negativos em mãos lançou-se na busca da autora das imagens. Foi uma notícia da sua morte, em abril de 2009, que lhe permitiu por fim reunir algumas pistas, chegando a algumas das crianças, entretanto já adultas, que tinham querido homenagear a sua ama. Foi este o obituário que fizeram sair nas páginas do Chicago Tribune: “Vivian Maier, orgulhosa nativa de França e residente em Chicago nos últimos 50 anos, morreu pacificamente na segunda-feira [21 de abril]. Segunda mãe de John, Lane e Matthew. Um espírito livre e solitário que tocou de forma mágica a vida de todos que a conheciam. Sempre pronta para dar seu conselho, opinião ou uma mão amiga. Crítica de cinema e fotógrafa extraordinária. Uma pessoa verdadeiramente especial, de quem sentiremos muita falta, mas cuja longa e maravilhosa vida todos nós celebramos e sempre lembraremos”.

A aventura que se segue já diz respeito a tudo aquilo que Maier procurou evitar. Entretanto, até houve já batalhas legais pela posse e direitos de comercialização da sua obra, opondo Maloof – detentor de cerca de 90%, do material de Maier), Howard Greenberg, galerista de Nova Iorque que comercializa a sua obra, e os herdeiros da fotógrafa. De um segredo a um pequeno culto até uma lenda que em breve se insurgiria (supostamente) para fazer justiça a este nome que vinha por fim juntar-se aos de outros monstros sagrados da fotografia do século XX não levaria mais do que uns anos. Afinal, nada cativa tanto a imaginação do público como um artista que faz os possíveis para esquivar-se à sua voragem. Depois de inicialmente Maloof não ter tido muita sorte com as primeiras abordagens que fez às grandes instituições ligadas à fotografia, e depois de, em 2011, o Centro Cultural de Chicago ter por fim reconhecido o mérito da obra, a exposição que se seguiu acendeu um rastilho que já não poderia ser cortado, acabando por conduzir à explosão de popularidade que ameaça agora arrancar a Maier os seus olhos e expô-los como troféus. Com a crítica com a boca desfeita em espuma, com outros fotógrafos rendidos a uma obra que aparecia com um balanço de décadas, desaguando de forma abrupta num futuro a perder de vista, o documentário Finding Vivian Maier, realizado por Maloof e por Charlie Siskel, estreou em 2013 e esteve nomeado para os Óscares, fazendo desta fotógrafa que nunca quis expor a sua obra, que fez os possíveis para a resguardar até daqueles que lhe eram mais próximos, um desses génios relutantes, cercados depois de mortos por corpos puxando do mar uma qualquer espécie mítica, condenando-a ao frenesim infernal quando se julgava já amarrada ao seu tão discreto paraíso.

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