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Anas Almustafa. "Temo que a polícia turca me prenda a qualquer momento"

Anas Almustafa. "Temo que a polícia turca me prenda a qualquer momento"

Maria Moreira Rato 06/04/2021 14:35

É tratado por pai e tio pelas 400 crianças órfãs que alimenta. Para as autoridades turcas, é visto como um criminoso sem razão aparente. Aos 41 anos, o refugiado sírio Anas Almustafa só quer viver em paz e segurança.

A Turquia alberga aproximadamente 3 milhões e 600 mil sírios refugiados e requerentes de asilo, de acordo com os últimos dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), divulgados em setembro do ano passado. Anas Almustafa é um deles. Aos 41 anos, volvidos exatamente dez desde o início da guerra civil no seu país de origem, sente que é encarado como um criminoso pela nação que escolheu para viver e tem três certezas: continuará a lutar para que seja feita justiça e possa viver em Konya, não desistirá de ajudar quase 200 famílias através da organização não governamental que criou, A Friend Indeed, e não regressará à Síria.

 

Em busca de uma vida melhor

“Voei para a Turquia quando perdi tudo por causa do conflito. Nasci nos subúrbios de Aleppo, uma cidade que foi palco do terrível confronto entre os rebeldes e o governo de Damasco”, começa por explicar ao i.

“Perdi tudo: a minha casa, o meu trabalho, pessoas que me são queridas”, constata o antigo funcionário estatal, função que desempenhou pela última vez em 2013. “O Governo foi buscar pessoas a todas as áreas e levou-as para o exército. Eu não queria isso para mim. Decidi ficar em casa e somente sobrevivi porque tenho dois irmãos na Turquia que nos enviavam dinheiro: a mim e à minha mãe que, à época, já estava muito doente com diabetes”, avança Anas.

Em janeiro de 2016, conseguiu que a progenitora chegasse ao país vizinho e, um mês depois, cruzou a fronteira. “Os guardas dispararam contra mim, foi muito difícil, mas consegui obter o Estatuto de Refugiado no mesmo ano”. Recorda que se sentiu “extremamente feliz” quando chegou a Konya, cidade situada a quase 500 quilómetros de Istambul. “O meu objetivo era encontrar um sítio seguro onde ficar”.

Anas viu “como o povo turco recebeu refugiados sírios” e deu o seu melhor para ajudá-los. Assim, começou a travar amizade com nativos e até trabalhou na empresa de tecnologia de um amigo, tendo apenas saído porque decidiu colaborar com uma organização humanitária turca, a IMPR Humanitarian. “Conheço as condições de quem fugiu da guerra como eu. O problema foi que a IMPR foi fechada pelo governo sem que eu conhecesse o motivo”, admite Anas, que acabou por seguir os conselhos de quem o incentivava a criar um projeto de raiz.

Assim, nasceu A Friend Indeed, a 8 de março de 2018, definida pelo fundador como “um órgão de micro caridade” cuja meta primordial passa por dar assistência imediata aos refugiados sírios que a procuram, por exemplo, através da disponibilização de comida e água.

“Tenho benfeitores espalhados pelo mundo inteiro, especialmente, na Europa e nos EUA, que permitem que ajude cerca de 175 famílias muito pobres”. No total, presta apoio a 400 crianças órfãs, que perderam os pais na guerra, e viúvas. Ao longo dos anos, Anas colaborou com as organizações italianas Crescere Insieme e Manidi Pace, assim como com a romena Help and Care Trust.

 

Dias de terror na prisão

A vida do sírio parecia correr como imaginara até ao dia 15 de maio de 2020, quando foi detido. “A polícia turca veio até minha casa e disse que tinha de me fazer algumas perguntas acerca do meu processo de legalização”, realça Anas. Foi levado para um posto, em Meram, onde os agentes lhe tiraram o telemóvel, a carteira e encaminharam-no até uma cela. “Quando os questionei sobre o motivo pelo qual me prendiam, porque queria saber qual era o meu crime, não me responderam. E ninguém me fez nenhuma pergunta”, relata, amargurado. “Estive com outros cinco sírios que me explicaram que lhes tinha sido dada a mesma justificação para se deslocarem até à prisão”, diz.

No dia seguinte, os polícias levaram-lhe documentação e pediram-lhe que a assinasse. “Perguntei-lhes que papéis eram aqueles e responderam que me deportariam para a Síria. Fiquei chocado, quis saber novamente qual era o meu crime e continuaram sem proferir uma única palavra”, garante. Face à situação, exigiu telefonar à UNHCR e ao advogado, mas viu estes pedidos serem recusados. “Disseram-me que o meu único direito era assinar os documentos e que ninguém me poderia ajudar ali. Riram-se e voltaram costas”, assume, salientando que os agentes regressaram no dia 20 de maio com o mesmo discurso. Anas, mais uma vez, não assinou qualquer folha.

“Gritaram e ameaçaram-me, dizendo que me enviariam para uma prisão em Gaziantep de seis meses a um ano como punição por não ter feito aquilo que queriam”. Novamente, Anas implorou que o elucidassem acerca dos ilícitos que alegadamente praticara. “Vamos escolher um crime com uma pena curta, não te preocupes”, remataram os polícias.

“Naquele momento, senti-me sozinho, sem alguém que me auxiliasse ou ouvisse a minha voz e assinei”. Para o seu desespero, contribuíram a ausência de um tradutor – Anas não entende turco e não percebia aquilo que estava escrito nos papéis – e a falta de força provocada pelo mês de jejum no âmbito do Ramadão.

 

“Estás por tua conta agora”

No dia 22 de maio, pelas 5h, Anas e os outros cinco refugiados foram levados até à fronteira de Bab al-Hawa num carro civil e não da força de segurança. “Pedi que me dessem a documentação comprovativa da minha deportação, mas não o fizeram, e nem sequer um simples papel que corroborasse os oito dias que passei na prisão”, denuncia Anas. “Estás por tua conta agora”, atiraram os polícias ao refugiado, que passou os dias seguintes num centro de isolamento covid-19, “muito sujo”, em Idlib, do qual saiu uma semana depois.

“Quando finalmente saí da prisão e, posteriormente, do centro de isolamento, entendi que, durante os dias em que estive preso, muitos dos meus amigos tentaram visitar-me, mas a polícia não permitiu. Então, contrataram um advogado turco e pagaram-lhe o equivalente a 1500 euros. Nunca o vi e, quando lhe pediram o dinheiro de volta, ele não respondeu”, conta Anas, que foi contactado pela Amnistia Internacional, tendo enviado a esta organização todos os documentos que comprovam que estava a viver legalmente em Konya ao abrigo do Estatuto de Refugiado. A 29 de maio do ano passado, a Amnistia publicou o documento “Turquia: Parem a deportação ilegal de pessoas para a Síria para e garantam a sua segurança”, atribuindo a Anas o nome Maher para proteger a sua identidade mas, ainda assim, transmitir o seu testemunho.

 

“Irei para qualquer outro país, como Portugal”

“Vivi em casa de um amigo em quem confio a 100%, mas estive escondido durante cinco meses e 15 dias. Não ia à rua porque existiam muitos gangues ali e, se soubessem que sou o fundador de uma organização de solidariedade social, raptar-me-iam ou entregar-me-iam ao regime sírio para que fosse morto”, explica. Para escapar a esse destino contratou contrabandistas que o ajudaram a voltar à Turquia.

Durante 30 horas, caminhou entre montanhas, sem comida ou água, até chegar a Antakia e, assim, viajar até Konya. Voltou à sua casa, mas, a 30 de dezembro, a polícia voltou a bater-lhe à porta.

“Fiquei quieto, não me mexi, mas voltaram às 6h do dia 31 e fiquei cheio de medo. Telefonei à advogada italiana que me tem ajudado pro bono, a Chiara Dalle Rose, porque sei que, se me apanharem, enviam-me para a Síria porque não significo nada para eles”. Juntos delinearam uma estratégia: Anas saiu de casa e nunca mais lá foi, estando escondido num local que não quer revelar, há quase quatro meses. “Só me ocorre que vivo como uma ratazana. Mas porquê?”, questiona.

Primeiro, a advogada Muna Khorzom recolheu todas as provas. Depois, contactou Chiara Dalle Rose, da firma de direito internacional Politeama, que se juntou a Valentina Blunda, Mariangela Cirrincione, Giulia Anselmo e Monica Cerrito para oferecerem apoio jurídico gratuito a Anas e, consequentemente, recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

“Não posso ir à embaixada ou ao consulado devido ao regime político. Não quero ser forçado a voltar à Síria”, desabafa Anas. Sempre que consegue, telefona à mãe, que lhe pergunta, em desespero, se tem notícias. “Até agora, não tenho, e digo o mesmo às famílias que precisam de mim. Choram e pedem-me que não as abandone. As crianças tratam-me por tio ou pai e não entendem a razão pela qual nunca mais me viram”. Deprimido, refere que apoia uma família cujo patriarca é cego. “Eles não têm nada. Isto dá cabo de mim”, sublinha.

“Se fosse culpado, talvez mudasse o meu número de telemóvel ou desativasse o meu Facebook mas, como não é esse o caso, não o farei”, clarifica o sírio que vive a denominada Catch-22, uma situação paradoxal (como a descrita no livro homónimo de 1961 de Joseph Heller) e da qual não podemos escapar devido a regras ou limitações contraditórias. Naquilo que concerne a Anas, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem recusou uma audiência com ele e às representantes legais por considerar que ainda não esgotou os recursos na Turquia.

“Prefiro ficar na Turquia, mas, se não me quiserem cá, irei para qualquer outro país, como Portugal. Isto não é viver”, declara Anas. “Quero que a minha voz seja ouvida. Alguns amigos meus dizem que sou demasiado velho para casar e ter filhos e, por vezes, agradeço não o ter feito porque sei que sofreria ainda mais, tal como os meus colegas de cela que choravam como bebés. Temo que a polícia turca me prenda a qualquer momento. Por favor, ajudem-me”, apela aos dirigentes políticos sírios, turcos ou de algum país que o possa acolher.

 

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