28/9/21
 
 
António Galamba 05/04/2021
António Galamba

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O Domingos Ferreira, décadas a concretizar, sem impossíveis

Conheci-o num tempo em que a política era mais convicção e iniciativa de interesse geral do que cálculo de ganhos pessoais.

Não existe protagonismo ou protagonistas sem a convergência de condições para essa expressão humana individual e comunitária, estejamos no plano das ideias, dos valores, das convicções ou das questões logísticas para o exercício cívico. Estas últimas, apesar de confinadas ao rodapé dos acontecimentos, são pressupostos de tantos acontecimentos das nossas vivências e da própria Democracia, podendo ser condição, aditivo ou retardador. Apesar dos desgastes e dos desvios, os partidos políticos são pilares fundamentais dos sistemas democráticos e podem ser espaços de afirmação individual e coletiva de convicções e intervenções cívicas relevantes para as comunidades. Como em tudo na vida, há os que protagonizam e os que asseguram que se reúnem as condições para concretização de uma ideia, um projeto ou uma iniciativa. Os protagonistas são mais ou menos conhecidos, os outros povoam um olimpo de quase inexistência pública, sem que exista o adequado reconhecimento efetivo ou simbólico pela relevância do que fizeram.

Portugal é uma sociedade que, no essencial, não valoriza quem faz e o mérito do saber fazer, muito menos a importância da experiência de uma vida de conhecimento, intuição e capacidade de improviso, com resultados positivos. Se Portugal é assim, os partidos políticos, que o configuram e integram, seguem esse padrão. Razão mais do que suficiente para contrariar a tendência de omissão, de indiferença e de injustiça.

Na história partidária, política e dos governos do Partido Socialista, ao longo dos últimos 27 anos, dificilmente existirá algum ano em que o Domingos Ferreira não tenha assumido o desafio logístico de organizar um qualquer evento ou conjunto de eventos, assegurando pela sua competência, conhecimento e experiência, uma solidez e tranquilidade com as soluções logísticas encontradas, que descansava qualquer responsável político. O Domingos Ferreira foi um dos pressupostos de muitos êxitos políticos e eleitorais do Partido Socialista, aquém dos que brilhavam em frente dos holofotes, mas muito além do que existia no mercado de respostas e soluções logísticas, apesar das dúvidas de alguns comprometidos com interesses particulares de circunstância.

Conheci o Domingos, ainda no tempo da Juventude Socialista, numa organização configurada nas dificuldades da falta quase total de recursos e de poder, num tempo em que a política era mais convicção e iniciativa de interesse geral do que cálculo de ganhos pessoais. Foram tempos em que a criatividade se tinha de sobrepor à escassez de meios para encontrar soluções que permitissem a realização de grandes eventos políticos em Tróia, na Figueira da Foz, em Portimão ou no Porto, entre outros pontos do país. Foram tempos de aguçar o engenho e contar com o descanso das soluções do Domingos, sempre focado em concretizar, em criar as melhores condições para os protagonistas políticos, nos mais incríveis locais, das Escadas Monumentais, em Coimbra, à Torre de Belém, em Lisboa; do Palácio Cristal, no Porto, palco do Festival Mundial dos Jovens Socialistas, ao Comício de Encerramento da Campanha Eleitoral para o Parlamento Europeu, na Praça Sony do Parque das Nações ou aos comícios de rentrée anual no espaço da Pontinha, em Faro. Foram muitos momentos de afirmação de um saber e competência únicos, de um ser humano moldado numa vida cheia, que sempre soube tocar positivamente muita gente.

Vivemos um tempo de memória curta e fácil irrelevância “do que se andou para aqui chegar”. Sem o contributo do Domingos Ferreira, a sua competência que nos tranquilizava, por mais exigente que fosse o evento, a sua confiança em assegurar que, apesar de estar ainda muita coisa por montar, à hora do evento tudo estaria pronto, ou até por fazer impossíveis em eventos que tinham adversidades relevantes, há conquistas, vitórias e protagonistas políticos que não teriam sido o que foram e o que são. E, no entanto, há um certo pudor ou indiferença, feitos injustiça, em não reconhecer e dar expressão a essa relevância, pressuposto de tanta coisa, tantas conquistas, tanto poder e tantos protagonismos, alguns densamente inflacionados face ao seu valor real.

É pelo valor real, pela sua sintonia com o valor facial, que é de inteira justiça agradecer ao Domingos Ferreira, protagonista quase oculto da história dos protagonistas e de acontecimentos partidários e políticos do Partido Socialista, tudo o que fez para que as ideias pudessem ser concretizadas, para que os projetos chegassem a bom porto, para que alguns pudessem aceder ao poder com a missão de serem fiéis aos valores, aos princípios e aos compromissos. Depois, são as contas de um rosário que, nem sempre contou o que devia com o Domingos Ferreira e daí tanto disparate logístico e organizativo, em tantos momentos.

O Domingos é, foi e será sempre uma inspiração de que a convergência do saber, da experiência e da mente aberta na procura de soluções poderá sempre superar os maiores desafios, sejam eles logísticos ou programáticos. A perceção de uma certa injustiça na falta de reconhecimento do seu papel nas últimas décadas pelo seu partido é inversa ao conforto de ter sido tocado pela inspiração da sua personalidade. À falta de outros reconhecimentos, há muito que o Domingos Ferreira é tratado por “General”, reflexo da vivência de tantas organizações em Portugal e em África. Podem falhar as patentes e os reconhecimentos que se impunham, mas para alguns nunca faltará a memória e a gratidão. Obrigado, General!

 

NOTAS FINAIS

TROPELIAS. Nenhum país, muito menos no meio de uma crise de saúde pública com impactos brutais na vida das pessoas e na economia pode ser gerido em jeito de zanga de comadres, como se as linhas vermelhas constitucionais ou não já não tivessem sido ultrapassadas várias vezes, por ação e por omissão. O drama é que este registo em múltipla crispação é uma penosa expressão da falta de exigência, de explicação e de rigor que os portugueses e os media têm permitido. Houvesse as perguntas certas e mais exigência no tempo certo, não teríamos este registo de brincadeira, com a vida das pessoas. Uma espécie de toque de campainhas com assuntos de Estado.

AVARIAS. Há meses que a situação de Cabo Delgado, Moçambique, está à entrada da porta dos fundos da atenção geral. Bem sei que Moçambique é um país soberano, mas agora que o assunto está sala de estar das comoções nacionais, ao menos que a comunidade internacional disponibilize os meios para a reposição da normalidade possível e de mínimos civilizacionais, estejam ou não os acontecimentos na órbita das explorações das riquezas do subsolo.

 

Escreve à segunda-feira


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