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Luxemburgo-Portugal. Prenderam a Pantera na Cidade das Fadas

Luxemburgo-Portugal. Prenderam a Pantera na Cidade das Fadas

Afonso de Melo 30/03/2021 12:38

Hoje a seleção nacional defronta a equipa que a venceu por 4-2 na estreia de Eusébio. Foi então que recebeu a alcunha 
de Pantera Negra, inventada pelos ingleses.

Muitas e muitas horas de conversa reparti com Eusébio. Há pessoas com as quais as conversas devem ser desigualmente repartidas. Ou seja, deixava-o falar bem mais do que eu porque ele tinha coisas para contar que deveriam entrar na minha aprendizagem da história do futebol. Eusébio teve uma estreia triste pela seleção nacional. Dia 8 de outubro de 1961: o Portugal do selecionador Fernando Peyroteo era uma equipa de “risca ao meio”. Isto é: defesa à base do Sporting; ataque à base do Benfica. À frente de Costa Pereira, jogavam Mário Lino, Morato, Lúcio e Hilário, todos do Sporting. No meio, um benfiquista, Coluna, e um sportinguista, Pérides. Eusébio jogava na frente com Yaúca, do Belenenses, Águas e Cavém.

Eusébio ainda não tinha feito 20 anos e estreou-se nesse jogo da Cidade das Fadas, como os jornalistas gostavam de se referir à Cidade do Luxemburgo glosando a arquitetura barroca do Grão-Ducado da família de Nassau. A derrota por 2-4 está pintada a preto retinto na parede da memória da vida da seleção. Pela primeira vez com a camisola dos Cinco Escudos Azuis da Batalha de Ourique, Eusébio não fugiu à metralha de críticas da imprensa nacional: que lhe falta experiência; que sem os remates fulminantes não disfarça faltas importantes; que não conseguiu ser o interior de ligação que a equipa precisava.

“Há que dizer que caí ali um bocado de paraquedas”, contar-me-ia Eusébio muitos anos depois. “É verdade que tinha muitos companheiros de Benfica, mas sente-se sempre a responsabilidade de uma estreia pela equipa nacional. Ainda assim, acho que não joguei tão mal quanto isso. Marquei um golo e até podia ter marcado mais”.

A Pantera. Eusébio vivia minutos tão tristonhos como toda a equipa, tolhido pela incapacidade de ultrapassar o vigor e o entusiasmo luxemburguês. Só que o seu talento inesgotável lançava-o para além de uma vulgaridade que se prendia aos gestos individuais e coletivos como um nevoeiro pegajoso das charnecas da velha Inglaterra.
A oito minutos do fim, arranca pela direita, junto à linha lateral, e vai levando a bola para o centro, driblando primeiro um, depois outro, e ainda outro adversário. O remate de pé esquerdo é tremendo: golo. De pouco serve. Hoffmann faz 4-1; Yaúca 4-2. A derrota estralejou um pouco por toda a Europa.

Mas o golo de Eusébio tinha sido de enorme classe. Atento ao encontro, até porque o adversário seguinte de Portugal seria a Inglaterra, o prestigiado jornalista Peter Lorenzo, enviado-especial ao Luxemburgo, escreveu no Daily Herald: “O desfecho deste encontro é um dos maiores choques do futebol europeu e mundial (...) Eusébio, o novo jogador-maravilha dos campeões europeus, começou a jogar como um mestre e marcou um soberbo golo de vinte e cinco metros”.

Já por várias vezes tinham chamado a Eusébio A Pérola Negra, mas Pérolas Negras haviam muitas, desde o tempo em que Ben Barek chegou à Europa para abrir portas aos jogadores africanos. Foi então que lhe chamaram A Pantera Negra.

Quinze dias depois da desgraça no Luxemburgo, Portugal foi disputar o último jogo de qualificação a Wembley. Com a escorregadela que o fizera tombar, precisava de ganhar o jogo. E fez muito por isso. O problema é que, logo aos 10 minutos, os ingleses já tinham feito o resultado: 2-0. Na hora do adeus, restava o perfume da exibição de Eusébio perante 100 mil espetadores.

David Winterbottom, selecionador inglês, diria no final «Eusébio é um perigo! Verdadeiramente fantástico! Se mesmo com a apertada marcação de Flowers fez o que fez, sem ela não sei o que nos poderia ter acontecido». Bobby Charlton, jogador da Inglaterra e do Manchester United: «Eusébio não é um jogador de futuro, pela simples razão de que é, já, um avançado maravilhoso. Melhor do que ele é difícil ver-se em qualquer parte do Mundo!» A tarde do Luxemburgo era para esquecer. E depressa...

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