15/5/21
 
 
O amor em tempo de testes genéticos

O amor em tempo de testes genéticos

Marta F. Reis 26/03/2021 13:45

Encontrar a “alma gémea” através do ADN? Não é bem como na série The One mas há empresas que defendem que já não é ficção. Falámos com uma ‘Rebecca Webb’ do mundo das apps de encontros. Timothy Sexton, CEO da DNA Romance, diz que a procura aumentou com a série. Em Portugal têm cerca de 200 utilizadores, sobretudo em Lisboa, Porto e Braga.

“Uma investigadora genética inicia uma espiral de amor e mentiras quando ajuda a descobrir uma forma de encontrar o par ideal e cria um inovador serviço de namoros.” É a sinopse da série The One da Netflix que antecipa um mundo em que basta um fio de cabelo para encontrar a única pessoa à face do planeta com quem se tem a química perfeita. O amor multiplica-se e os divórcios de casais que se juntaram à moda antiga também. A investigadora em causa chama-se Rebecca Webb e depressa está em todos os outdoors. Está longe de ser a melhor pessoa do universo, mas reza a lenda que o cupido original também não era nenhum santo.

Pelo meio, ou logo no início, põe à prova o algoritmo consigo própria e vai descobrir o seu par perfeito (spoiler) em Tenerife: em sete mil milhões de seres à face do planeta, calhou-lhe Albano Jerónimo, daí a série ter sido mais badalada por cá nos últimos tempos. A atração é imediata e o surfista, que não sabe de nada, também. A saga é inspirada no livro homónimo lançado em 2016 pelo autor de ficção científica John Marrs. Antes disso já havia start-ups a aventurarem-se nos serviços de match genético e agora, à conta da série, estão a suscitar maior curiosidade. Assentam na mesma base: a genética pode ajudar a encontrar alguém mais “compatível”. Mas não vão tão longe ao prometer que só existe uma alma gémea à espera. Para que dizem usar a informação genética? Não para garantir a cor dos olhos ou do cabelo ou que o potencial parceiro é mais ou menos predispostos a algumas doenças, embora também haja notícia de quem queira enveredar por aí. Mas prometem ajudar a encontrar alguém compatível, com maiores probabilidades de relações duradouras e uma vida sexual mais satisfatória, embora nem todas vão tão longe.

O papel do olfato A referência citada por quase todos as empresas neste filão do “DNA matchmaking” é um estudo publicado em 1995 na revista Proceedings of Royal Sciences pelo biólogo suíço Claus Wedekind. Foi a primeira demonstração de que um conjunto de genes teria um papel na forma como humanos escolhem parceiros, com base na perceção do odor corporal. Um mecanismo evolutivo que terá permitido indivíduos de várias espécies escolherem-se entre os seus pares por forma a ter crias com defesas mais robustas e que pareceu confirmar um dos princípios mais antigos das questões amorosas: os opostos atraem-se. Neste caso, como são genes que codificam proteínas importantes para o funcionamento do sistema imunitário, de uma zona do genoma descrita como complexo de histocompatibilidade principal, a descendência teria um pouco da maquinaria do pai e da mãe, pelo que seria mais hábil a reconhecer patogéneos e, por essa via, a sobreviver.

Wedekind usou os alunos da Universidade de Berna como cobaias e continuou a estudar o tópico, mas ao longo dos últimos anos não é possível encontrar nenhuma declaração do autor sobre a forma como as start-ups tecnológicas têm vindo a criar algoritmos a partir daí, o seu nome é citado por todas, isto além dos estudos que se seguiram. Algumas vozes da comunidade científica também têm vindo a refrear as expectativas em relação a aplicações comerciais, desconfiada das intenções de quem envereda por aí. E na realidade há estudos de sobre a base científica, não existem análises sobre o funcionamento dos seus algoritmos ou que permitam dizer se os serviços que recorrem à componente genética são mais eficazes que os outros.

“Não é ficção” Timothy Sexton estudou biologia, fez um doutoramento em genética molecular na Universidade Southern Cross e, até se virar para a “química romântica”, investigava a diversidade genética em árvores como eucaliptos. Em 2014, foi um dos promotores do salto da teoria à prática que tem vindo a ser ensaiado por várias empresas e que agora está a receber um empurrão da série na visibilidade.

Fundou a DNA Romance, uma start-up que assenta nessa ideia de que os genes, em particular os do complexo principal de histocompatibilidade, o sistema HLA nos humanos, podem ajudar a saltar alguns passos na procura por alguém compatível nas apps de encontros, explica ao i em telechamada a partir de Vancouver, onde estão sediados. No fundo, é como se as apps mais comuns que todos conhecem passassem a ter um filtro genético, para reduzir a procura a candidatos em que as coisas – leia-se química e não garantia de uma relação com sucesso – tenham maior probabilidade de funcionar. E se não faltam agências, sites e apps que utilizam fotografias e questionários para afinar o emparelhamento, a componente genética é para estas empresas a variável que falta na “complicada” equação da atração, facilitada pela acessibilidade a testes genéticos em plataformas como a 23andMe ou MyHeritage.

Timothy Sexton reconhece que fez o percurso de Rebecca Webb, de investigador a CEO. O que mais o surpreendeu na série foi a ideia de que tudo se passa no futuro e é ficção. “É o que estamos a construir desde 2014”, começa por dizer.

A empresa foi criada ainda antes de sair o livro de Marrs, que já tinha chamado a atenção para o tópico. No caso de Timothy Sexton, que tinha conhecido a mulher numa app de namoros, OkCupid, pareceu natural aliar o background na genética ao “problema” de quem passa anos a abrir perfis, tentar meter conversa, marcar encontros, não gostar da experiência ao vivo e a recomeçar o processo. “A investigação começou pela genética animal. Por exemplo, em animais que acasalam para a vida, o que se percebeu é que encontram um parceiro que tem mais diferenças nos genes do complexo de histocompatibilidade principal (MHC na sigla em inglês), que influenciam a capacidade do sistema imunitário para reconhecer patogéneos. E percebeu-se que é algo que acontece em quase todos os vertebrados, dos salmões aos pássaros a outros primatas como os lémures”, diz. E como se salta das árvores para essa área de estudo? No genoma de qualquer ser vivo, há regiões que se mantêm mais estáveis e outras mais pressionadas pelos mecanismos de seleção natural, descreve. O que estudava nas árvores era isso, como se adaptavam a ambientes, micro-organismos em diferentes latitudes. Também esta zona do genoma humano que apresenta foi sofrendo mais alterações.

Voltando à procura do amor, o que fazem exatamente na DNA Romance? “Na prática, quando se conhece alguém pessoalmente, os nossos sentidos pressentem se é compatível porque existem estes mecanismos. O que estamos a tentar é tornar isso um pouco mais eficiente online usando a informação genética que determina como fazemos isso”, descreve Timothy Sexton. “Quando transpiramos, libertamos secreções da nossa maquinaria celular. E entre elas estão peptídeos associados a este complexo MHC, que nos humanos se chama HLA. Se alguém tiver um sistema imunitário diferente do seu, vai sentir um cheiro mais agradável. E é provável ter maior química. Quanto mais parecido com o seu, pior vão cheirar.” Um estudo publicado na Nature em 2016 veio reforçar a tese. No artigo “Influence of HLA on human partnership and sexual satisfaction”, uma equipa da Universidade de Dresden estudou o perfil genético de 204 casais, recrutados na Universidade de Dresden. Responderam a questionários, foi avaliado se o seu olfato funcionava bem e foi feita a tipagem de HLA. Concluíram que pessoas numa relação com pessoas mais diferentes numa região específica reportavam maiores níveis de satisfação com a relação e com a vida sexual, nomeadamente as mulheres, que manifestavam também mais vontade de ter filhos quando estavam numa relação com alguém com moléculas diferentes no HLA de classe 1.

É a partir deste tipo de informações que as empresas dizem criar os seus algoritmos. O que fazem é procurar estas dessemelhanças em zonas específicas do genoma entre quem se inscreve na plataforma, tendo para isso de fornecer os resultados de um teste genético, dados que garantem que são encriptados e que não são disponibilizados a terceiros, mas o que já é confiar um pouco mais do que uma fotografia. No caso da DNA Romance, os utilizadores podem fazer também um teste de personalidade. O resultado é uma previsão de química romântica e compatibilidade com base na personalidade. “Andei cinco anos a usar aplicações e é diferente quando conhecemos pessoas num barbecue ou numa festa e sentimos. Acredito que para as próximas gerações, já que hoje é normal conhecer pessoas online, poderemos poupar algum tempo se pudermos dizer ‘esta é uma pessoa com quem se vai ter química ou não’. E aí se calhar não se perde tempo com 75% das pessoas com as quais possivelmente não vamos ter química”, resume Timothy Sexton.

Posto isto, não acredita que seja possível pensar num algoritmo através do qual cada pessoa só tivesse um par perfeito no planeta, a ideia de The One. “Somos 7 mil milhões no planeta, há muitos bons pares e correspondências. Olhamos para 100 marcadores genéticos. Vamos dizer 70%, 75%. E mesmo assim, para que serviria 100% de química se for alguém com quem não nos damos em termos de personalidade? É preciso ver tudo no conjunto. Vamos ter muito boas maches e a partir daí é ver se preenchem os outros requisitos, se se marca o café e o que acontece”.

200 subscritores em Portugal Segundo Timothy Sexton, até ao momento já tiveram 20 mil utilizadores e contam com cerca 200 inscrições em Portugal, a maioria em Lisboa, Porto e Braga. A maioria dos utilizadores portugueses fez o teste genético no site My Heritage.

As primeiras 15 correspondências são apresentadas sem custos. A partir daí há diferentes subscrições, a começar nos 18 dólares por mês. 200 pessoas são suficientes para encontrar boas correspondências? “Imagine que 100 são do sexo oposto. Se a pessoa está à procura de alguém numa app de encontros e tiver de sair com as 100 pessoas pode ser horrível. O que fazemos é reduzi-las para cinco ou oito e dizemos quem pode ser mais compatível.”

Quanto a pisar-se linhas, o responsável atira com outros estudos que mostram que a tecnologia já interfere na forma como nos relacionamos, dando o exemplo de estudos que mostram que estar a tomar a pílula afeta os mecanismos de atração, uma das pistas deixadas também no estudo de Claus Wedekind. “A sociedade já abraçou o online e não conseguimos usar o olfato online. No fundo é isto”.

Desde que estreou a série, diz que além de quem procura o “tal” tem havido mais inscrições de pessoas que entram e depois saem ao mesmo, pelo que suspeita que são casais a tentar ver se são compatíveis, o que não é a finalidade da app. Dicas para quem prefira os métodos tradicionais? “Confiar nos instintos”, diz Sexton. “Se alguém dá naquele primeiro encontro a volta ao estômago, se o cheiro não é agradável, mais vale não perder tempo. Se uma pessoa vai a descer a rua e um odor chama atenção, se é agradável, pode tentar meter conversa.” E tudo começou com t-shirts usadas, por isso não é preciso andar perfumado.

 

A experiência das t-shirts suadas e o aviso dos investigadores a quem anda à procura do par 

A experiência das t-shirts suadas de Claus Wedekind tem centenas de citações e foi descrita pelo investigador suíço e outros três colegas num artigo publicado em 1995. Foi a primeira vez que a fizeram para tentar perceber se, em humanos, o perfil genético poderia interferir com a escolha de parceiros, o que na altura tinha sido demonstrado em ratinhos. O foco era o complexo de histocompatibilidade, um grupo de genes comuns a todos os vertebrados que codificam proteínas na superfície das células, importantes na defesa contra microorganismos. No artigo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, Claus Wedekind e os colegas descrevem a experiência, que envolveu 49 jovens universitárias e 44 colegas homens, de diferentes cursos. Primeiro fizeram uma análise para classificar os seus genes HLA, o principal grupo nos humanos dentro deste complexo. Pessoas da mesma família têm maiores semelhanças, mas existe uma grande diversidade.

Depois, aos rapazes foi pedido que usassem a mesma t-shirt 100% de algodão durante a noite de domingo e na segunda-feira seguinte e para tentar manterem o seu odor o mais neutro possível: deram-lhes sabão sem cheiro para se lavarem e deviam evitar cheiros intensos, perfumes, desodorizante, tabaco, atividade sexual. Na terça-feira, foi pedido às raparigas que classificassem seis t-shirts numa escala de agradabilidade e intensidade do cheiro. Três seriam rapazes com um perfil genético mais diferente do delas e três de colegas mais semelhantes, sem o saberem previamente. A conclusão foi robusta: as mulheres tendiam a achar mais agradáveis o cheiro dos rapazes com o complexo HLA mais diferente do delas, sendo a exceção aquelas que disseram estar a tomar a pílula, que achavam mais agradáveis os mais semelhantes. A primeira conclusão da equipa foi precisamente essa, o uso de contracetivos orais parecia ter um papel importante na forma como se avaliam odores corporais, sugerindo uma explicação. “Isto indica que esteroides que são naturalmente libertados na gravidez podem alterar preferências de odor, levando a uma preferência por odores que são semelhantes aos dos familiares. Assim, a pílula parece interferir com a escolha natural de parceiros”, escreviam, advertindo que começar a tomar a pílula numa relação poderia afetar o laço do casal, ao mudar a perceção do odor do parceiro. Alertavam por fim que tendo em conta que alguns componentes do odor corporal determinados geneticamente podem ser importantes na escolha de parceiros, e que isso poderia estar ligado a uma resposta mais efetiva a patogéneos, as “consequências negativas de perturbar este mecanismo com o uso de perfumes, desodorizantes e pílula quando se está a escolher um parceiro devia ser do conhecimento dos utilizadores”.

 

 

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×