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Jang Yeong-Jin. Da opressão à liberdade

Jang Yeong-Jin. Da opressão à liberdade

DR Sara Porto* 25/03/2021 13:52

Foi com a publicação da sua autobiografia, A Mark of Red Honor, em 2015, que o mundo conheceu a história de Jang Yeong-jin, o único desertor da Coreia do Norte assumidamente homossexual. Quase um quarto de século depois de fugir do país, o escritor planeia casar-se.

Na primavera de 1998, um ano depois de ter chegado à Coreia do Sul, Jang Yeong-jin abriu uma revista para ler uma entrevista que ele próprio tinha dado. Esse gesto, mal sabia ele, viria a revelar-se decisivo na sua vida: não pelo que encontrou nessas páginas, mas por se ter deparado com um outro artigo, relativo a gays e lésbicas. O texto era ilustrado pela imagem de um filme norte-americano que mostrava dois homens a beijarem-se na cama. Fez-se luz na cabeça do escritor, que imediatamente se identificou. “Quando vi aquilo, soube de imediato que eu era aquele tipo de pessoa”, revelou numa entrevista recente à BBC. Desse dia em diante, Jang tornou-se um frequentador assíduo dos bares gay de Seul.

Nascido em 1958 na Coreia do Norte, Jang passou por inúmeras crises existenciais, por internamentos forçados nos hospitais coreanos, assistiu à queda em desgraça da sua família e ao roubo de todas as suas poupanças.

Num país controlado por um regime totalitário, os processos de crescimento e a liberdade de escolha nunca foram uma opção. Mas aos 27 anos, depois de se ter casado, começou a perceber que alguma coisa não estava certa. Embora nunca se tivesse sentido atraído por mulheres, na sua cabeça não podia haver uma relação direta entre esse facto e a homossexualidade, uma vez que na Coreia do Norte essa orientação sexual “não existe”.

Na noite de núpcias Jang Yeong-jin não conseguiu sequer “tocar com um dedo” na noiva, como disse na entrevista à BBC. Continuou a sentir-se sempre extremamente desconfortável nos momentos mais íntimos da relação e, quatro anos depois do casamento, a sua mulher continuava sem engravidar. Nesse momento começaram as interrogações por parte da família que não compreendia o que se passava com o casal. Questionado por um dos irmãos, Jang admitiu que o sexo oposto nunca o tinha cativado. Pagou cara a confidência: resultou numa série de internamentos a fim de perceber qual a “doença” que o afetava. Nunca ocorreu a Jang, ou à sua família, que poderia haver outro motivo para a sua falta de interesse. Mesmo não existindo qualquer lei norte-coreana explícita contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, as leis do estado contra relações extraconjugais e violação dos costumes sociais provavelmente seriam cooptadas para processar qualquer ato sexual gay.

Jang acabou por ter alta. Os exames médicos mostraram que não havia nada fisicamente errado, mas a sua esposa continuava extremamente infeliz. Para ele, a única forma de resolver essa infelicidade seria o divórcio, o que naquele país requer uma permissão dos tribunais, que normalmente não é concedida, uma vez que a união familiar é uma prioridade do Estado.

A sua vida parecia-lhe irremediavelmente condenada ao infortúnio. Restava-lhe apenas uma saída – deixar para sempre a Coreia do Norte. Seria a única forma de anular automaticamente o casamento, e permitiria que a sua mulher se casasse novamente.

A GRANDE MUDANÇA A falta de atração pela sua esposa já fazia com que Jang se sentisse deslocado, mas foi a visita do seu melhor amigo de infância que cristalizou o sentimento de que a sua vida na Coreia do Norte tinha chegado ao fim. Em abril de 1997 chegou à Coreia do Sul, rastejando pela zona desmilitarizada (DMZ) repleta de minas que divide as duas nações. Cruzar a DMZ é tão arriscado e raro que a sua fuga fez manchetes nos jornais da Coreia do Sul.

Os desertores que chegam do Norte passam obrigatoriamente pelo serviço nacional sul-coreano (NIS) onde são expostos a um processo de interrogatório que, normalmente, dura várias semanas. O intuito deste interrogatório é despistar possíveis atos de espionagem. Neste caso foi ainda pior, já que Jang sentia relutância em explicar o verdadeiro motivo da sua fuga. Um processo que deveria durar “apenas” algumas semanas, alargou-se a cinco meses. Quando finalmente admitiu que simplesmente não se sentia atraído pela sua ex-esposa, recebeu a desejada autorização para ficar, mas mais uma vez foi encaminhado para um médico.

Mesmo no Sul, naquela época, havia pouca consciência pública das diferentes orientações sexuais. Alguns médicos recomendaram-lhe que procurasse ajuda psicológica – conselho que acabou por ignorar. O “clique” só se produziria 13 meses depois da sua fuga, ao deparar-se com a foto dos dois homens a beijarem-se na revista.

O PRIMEIRO DESGOSTO DE AMOR Anos anos depois, em 2004, Jang apaixonou-se por um comissário de bordo local, que lhe foi apresentado pelo dono do seu bar preferido. A relação durou três meses e o escritor mergulhou de cabeça. O comissário de bordo pediu-lhe que se mudasse, para que vivessem juntos. Uma vez que não podia recebê-lo em sua casa, já que morava com o padrasto, seria necessário comprar uma casa maior. Apaixonado, Jang desistiu do arrendamento do seu apartamento e cedeu-lhe todas as suas economias duramente conquistadas e todos os seus pertences – avaliados em 90 milhões de won (cerca de 69 mil euros). Assim que recebeu o dinheiro, o comissário de bordo desapareceu para nunca mais ser visto.

A DESCOBERTA DA ESCRITA A mistura de stresse e desgosto fez com que Jang aoecesse e tivesse de ser hospitalizado durante um mês. Esse internamento fê-lo perder o emprego. No espaço de um mês, o norte coreano viu-se sem trabalho, sem teto e sem economias. Não por muito tempo. Pouco depois de ter alta, encontrou um lugar como empregado de limpeza e lentamente conseguiu economizar o suficiente para arrendar uma casa. Com as necessidades essenciais asseguradas, Jang entregou-se à escrita. Já em criança se revelavam as suas aptidões literárias, com o primeiro lugar num concurso de redação na Coreia do Norte onde era obrigatório que os alunos elogiassem o regime norte-coreano.

Agora as coisas seriam diferentes e Jang poderia escrever o que lhe apetecesse. Em 2015, passou para o papel todas as suas experiências, que resultaram na sua autobiografia A Mark of Red Honor – que se tornou um bestseller internacional com a tradução para o inglês. Porém, o livro não inclui um capítulo final: aos 62 anos, Jang encontrou o amor.

A DESCOBERTA DO AMOR E O CASAMENTO Os traumas deixados pelo sombrio passado sentimental funcionaram como um muro que separava Jang – que se descreve como um homem “introvertido e sensível” – do amor. Até que, no ano passado, o escritor conheceu o dono de um restaurante coreano-americano oito anos mais novo, num site de encontros. Em apenas quatro meses, Jang mudou-se para os Estados Unidos da América – o confinamento do coronavírus foi encarado como uma bênção: ofereceu aos dois tempo para se conhecerem e o compromisso acabou por se intensificar. Cerca de dois meses depois, o seu parceiro decidiu tomar iniciativa e pediu-o em casamento. Jang está agora no processo de finalizar documentos para provar que seu primeiro casamento na Coreia do Norte acabou, e o desejo do casal é que o casamento se possa realizar ainda este ano.

A DESGRAÇA NA FAMÍLIA Apesar da descoberta recente da felicidade, Jang continua assombrado pelos fantasmas do passado: a fuga do seu país natal teve um impacto desastroso na sua família. Vários dos seus familiares foram banidos para um vilarejo remoto no norte gelado da Coreia, o destino daqueles cujos familiares são considerados desleais ao regime. Pior, seis dos seus parentes morreram de fome e doenças, incluindo a sua mãe e os seus quatro irmãos. Considerando-se o responsável pela tragédia, a única forma que encontrou de expiar a sua culpa foi passar tudo para o papel, revelando as atrocidades cometidas no país.

Na altura em que esteve internado no hospital na Coreia do Norte, Jang conheceu muitos outros pacientes numa situação idêntica à sua, mas articular ou explorar o que eles sentiam seria inconcebível sem um quadro de referência. Na Coreia do Norte, se um homem diz não gostar de uma mulher, ou vice-versa, as pessoas associam esse estado a uma doença. Também um homem com que Jang havia servido no exército, confidencializou-lhe que a sua noite de núpcias tinha sido um desastre.

Kim Seok-hyang, professora de Estudos Norte-Coreanos na Ewha Women’s University, que entrevistou dezenas de desertores sobre o assunto, disse à BBC que nenhum deles tinha ouvido falar do termo “homossexual”. A académica conta que ao falar com esses homens sobre a homossexualidade, não foi fácil que eles entendessem do que se tratava. Já familiarizados com o conceito, todos os desertores disseram à investigadora estarem certos de que qualquer um que fosse descoberto a explorar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na Coreia do Norte seria no mínimo condenado ao ostracismo. E possivelmente executado.

* Texto editado por José Cabrita Saraiva

 

 

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