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Rui Patrício 19/03/2021
Rui Patrício

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A “liberdade” de expressão, de novo

Na minha inocência, julgava que não havia liberdades irrestritas, a tender para o absoluto. Achava que a liberdade era raiz da dignidade humana, mas que havia a minha liberdade e a liberdade de cada qual...

Volto à liberdade de expressão, poucas semanas depois. Não para dizer o mesmo, mas quase, porque o tema, julgo eu, merece a pena. E não venho enaltecer esta liberdade e a sua importância, pois isso não é necessário, já há defesa que chegue, e até sobeja. Venho à liça na perspetiva dos limites (pronto, limites, aqui-d’el-Rei, vade retro). Eu, na minha inocência, julgava que não havia liberdades irrestritas, a tender para o absoluto. Achava que a liberdade era raiz da dignidade humana, mas que havia a minha liberdade e a liberdade de cada qual, e que a civilização consistia em conquistas de liberdades e de equilíbrios entre elas, para que umas não aniquilassem as outras. Como enuncia o dito popular – simplificando Kant e outros elaborados imperativos – a minha acaba (ou pelo menos deve ser refreada, digamos) onde se atravessa a do outro. O meu direito fundamental convive com os dos outros, e vice-versa. Achava eu.

Até que me abriram os olhos, e me mostraram que isso é assim para várias facetas da poliédrica Liberdade, mas não para a de expressão. Esta não conhece limites, parece, e à conta dela pode-se tudo. Pode-se insultar, ofender, difamar, devassar, e o mais que ocorra. É a liberdade de expressão. Ponto. Sobretudo se for para expressar coisas de acordo com o ar dos tempos, coisas, digamos, cool, coisas com muitos likes, bastante fúria, ruído q.b., uma pitada de ressentimento. Coisas fixes, e sobretudo sobre gente que o ar dos tempos não tem por tão fixe assim. Pode-se tudo. Não tem problema. É chato, ofende, atira para a lama, prejudica, e até pior? Pois, paciência, é a liberdade de expressão. A sacrossanta, a que não pode ser tolhida, nem cerceada.

Apetece-lhe ficar com a casa ou o automóvel do vizinho? Não pode, embora a sua liberdade diga que sim. Tem ganas de esmurrar fulano de tal? Não pode, embora lhe apeteça muito, em enérgica liberdade. Deseja o próximo, que lhe não liga, e freme de vontade de satisfazer os seus apetites? Não pode, claro está. Óbvio. E assim por diante, são tantos os exemplos. Não pode tanta coisa que a sua liberdade reclama e grita, porque há a integridade e a liberdade do outro. Mas ofender, insultar, imputar o que lhe vem à cabeça, devassar, tem vontade disso? Então vá, avance, isso pode, força. É a liberdade de expressão. Insone, majestosa, potente, passeando, obscena, o seu esplendor. E ai de quem diga “alto lá”. Leva logo uma paulada – que é isso, então onde já se viu pôr limites ao que me/lhe dá na gana dizer?! Era o que faltava! Diga, diga, diga tudo. É à vontade. Até mesmo à vontadinha. De tal modo que até há quem faça disso modo de vida. Que fazes tu? Imputo, aponto, denuncio. O quê? Tudo e qualquer coisa, o que me apetece. Tens provas? Não, mas tenho suposições, impressões, opiniões. E, além disso, entretenho, faço ruído, gero aplauso. É o bobo (e a boba, para equilibrarmos géneros, também aqui) da pós–pós-modernidade. É bonito, sabe bem, e, como dizia o anúncio, dá brindes valiosos. Tem só um pequeno “problema”, que é o das liberdades irrestritas: uns acabam com a bota calçada, outros com o pescoço calcado por ela, a estrebuchar, exangue, debaixo dela.

Escreve quinzenalmente à sexta-feira

 


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