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Nuno André. "Por vezes, os padres também são psicólogos, terapeutas e médicos"

Nuno André. "Por vezes, os padres também são psicólogos, terapeutas e médicos"

Maria Moreira Rato 19/03/2021 14:00

Até aos 15 anos, viveu na Amadora, e acredita que essa experiência o moldou. Naquele que apelida de “grande Passos Manuel”, foi estudante e, posteriormente, professor, tendo sempre tentado aliar a magia à educação. Formado em Teologia, doutorando em História e mestrando em Jornalismo, conversou com o i a poucos dias de lançar o livro S. José.

Como despertou para a religião católica?

A herança religiosa que recebi inicialmente foi da parte da minha avó. Estava em casa dela aos fins de semana, rezávamos e aprendi as orações. E isso levou a que despertasse em mim o sentido para o sagrado, para a existência de Deus, de uma entidade que é invisível, mas com a qual posso comunicar. Aos 15 anos conheci o padre José Paixão e foi com ele que tomei a decisão de ser batizado e, a partir daí, houve a adesão formal à Igreja. Até aí, não ia à missa nem à catequese, apenas tinha ido a Fátima uma ou outra vez e soube sentir aquela espiritualidade que paira lá, mas era completamente ignorante. 

Como foi frequentar o Ensino Secundário no Liceu Passos Manuel?

Entre o 5.º e o 9.º anos, passei pela Escola Cardoso Lopes. O facto de ter crescido na Amadora, com tudo aquilo que aprendi com colegas de estratos sociais diferentes, ofereceu-me uma experiência: conheci o lado dos rufias e, a dada altura, até fiz parte desse grupo. A partir do 9.º ano, fui viver para Lisboa, e no Passos Manuel tive excelentes professores e outra maturidade para começar a pensar. Posso dizer que pertenci ao grande Passos Manuel: não é que eu fosse grande coisa, mas passei por esta escola com muito orgulho, tanto como aluno como professor. Fui extremamente feliz lá.

Que impacto teve em si a responsabilidade de dirigir o Movimento Juvenil de Ação Cristã, fundado em 2003?

Com o padre Paixão, bebi o entusiasmo dos movimentos que se interessavam por agarrar os jovens e dar-lhes bases para que fossem cristãos ativos no mundo não só com esclarecimento em termos da Teologia, da catequese e da fé. E isso levou a que crescesse em mim o espírito de liderança porque havia espaço, por parte daqueles que estavam à minha volta, de desenvolver alguns projetos e iniciativas. Primeiro, éramos pouquinhos, talvez uns 12. Comecei a unir cada vez mais pessoas e fomos crescendo. Andámos durante dez anos a formar poucos, mas bons. Sem o intuito de querermos ser para massas, mas para incentivar a experiência pessoal de encontro com Deus, para que cada um sentisse as verdadeiras fraternidade e cumplicidade de um caminho da fé. Debatíamos ideias, mas não apenas aquelas que já tínhamos ouvido. Chegou a ser um pouco constrangedor liderar gente ligeiramente mais velha. 

Tiveram oito anos de vida comunitária.

Ganhámos uma dinâmica autónoma na paróquia de Santa Catarina e acabámos por apoiar outras paróquias. Criámos uma sede em que iniciámos uma vida comunitária. Começámos numa garagem entre o Largo do Rato e a Estrela, mas, mais tarde, passámos para uma casa. O entusiasmo foi tal que, a minha mãe mudou-se para a Ericeira, mas eu quis ficar em Lisboa para não deixar morrer a causa. Se a minha casa fosse grande, teríamos ficado lá. E, depois, fomos para a Avenida Manuel da Maia e, aí, atingimos o nosso auge. Era um misto de república de estudantes, como em Coimbra, e uma vida quase de congregação religiosa, em que cada um era livre, mas em que tudo era partilhado. 

Nunca sentiu necessidade de estar sozinho?

Vivíamos para uma causa. Havia, por um lado, uma vida de comunidade, mas tinha a minha autonomia. Se passava um fim de semana fora, por exemplo, era o suficiente para ter o meu próprio espaço.

“A cada dia que passava e, passa, sinto que Deus me chama a ser seu testemunho em tudo”, contou ao jornal A Voz da Verdade, em 2011. Continua a nutrir esse sentimento? 

Sem dúvida, sinto-o da mesma forma, com o mesmo entusiasmo e a mesma responsabilidade. Creio que no dia em que isso não acontecer talvez deixe de ser verdadeiramente cristão. Quem me dera chegar ao momento em que até a dormir estou a ser cristão. 

Costuma afirmar que o facto de sempre ter vivido rodeado de pessoas mais velhas o auxiliou no seu caminho, sobretudo, por ter convivido de perto com os padres José Paixão e Artur Jorge. Eles foram e continuam a ser os seus grandes mentores?

A partir do momento em que perdemos as grandes referências que temos na vida, já estamos tão moldados que tudo o resto são apontamentos que vão surgindo. O lugar do mentor não é ocupado por outra pessoa. Há figuras que surgiram mais tarde e ajudaram-me, mas nenhuma me marcou como estes dois homens que me auxiliaram na adolescência, na fase em que definia o meu caráter e precisava de uma identidade. No entanto, conheci outro amigo, também mais velho do que eu e não católico. Vejo-o como exemplo. Ensinou-me a ser mais tolerante e transmitiu-me o gosto pelo estudo da História e da humanidade. É um humanista, um pai, um irmão e um amigo.

E ao nível familiar?

Cresci sem uma figura paterna e, se recuarmos ao tempo em que era criança, no Dia do Pai, era a minha mãe que recebia uma lembrança. Além dela, tinha a minha avó por afinidade e a minha madrinha. Costumo dizer que o facto de ter crescido rodeado de mulheres ajudou-me a ganhar uma sensibilidade e um afeto diferentes. Não tenho dúvida de que todos temos a nossa percentagem feminina e a nossa percentagem masculina, mas aquela forma de ser e de estar feminina teve bastante influência em mim. A vida não me deu um pai, mas tive a sorte de ter dois e não me deu uma mãe, mas sim três.

Existe a crença de que quem estuda Teologia quer ser padre. Alguma vez sentiu esse chamamento?

Quando temos figuras que nos marcam, existe a tendência de pensar “E se eu fosse como ele? Quando for adulto, será que me revejo nesta posição?”. Neste caso, estamos a falar de dois padres e as oportunidades e experiências que acabei por ter nas igrejas levaram-me a pôr essa questão. Não como um desejo próprio, mas como o vislumbre do futuro, de imaginar que a minha vida poderia passar por isso. Não estive no seminário, mas fiz esse discernimento. Aquilo que me fez querer estudar Teologia foi a necessidade de esclarecimento. No Ensino Secundário, os meus colegas provocavam-me com certas questões e eu percebi que não sabia responder de uma forma racional. Queria ter bases históricas e teológicas e a minha catequese acabou por ser o curso de Teologia.

Fez um curso de Hipnose e dedicou-se à magia. Acredita que esta é uma forma inovadora de anunciar o Evangelho? 

Nunca tive uma caixa de magia nem o sonho de ser mágico, o que aconteceu foi muito simples: fui convidado a fazer uma conferência em Roma. Antes do evento, quis ir ao Vaticano para uma audiência com o Papa. Quando estava a atravessar uma praça que fica mesmo ao lado da de S. Pedro, vi uma feira e, lá no meio, estava um ilusionista que prendeu a minha atenção. Comprei três truques e quando chegou a altura da minha apresentação, tinha um texto e estava nervosíssimo. Pedi desculpa e disse que precisava de me expressar de outra forma. Para não dar trabalho aos tradutores – porque havia congressistas de todas as partes do mundo – e para que todos percebessem, decidi ilustrar a minha mensagem com um truque de magia. Estava tudo cansado e em silêncio e, de repente, houve uma explosão de alegria e de aplausos. E percebi que seria uma ótima forma de cativar as pessoas.

Foi assim que decidiu adaptar a magia ao ensino, como professor de Educação Moral Religiosa Católica? Uniu a magia e a evangelização com outra fluidez.

Não foi um plano. Comecei a dar aulas em setembro de 2005 e a conferência ocorreu no mês seguinte. As minhas cobaias foram os alunos e, a partir do momento em que comecei a fazer magia nas aulas, surgiu a ideia de que “o professor é mágico”. Percebi que não podia desviar-me do cerne das aulas, mas sim juntar as duas coisas. As conclusões mais importantes da Teologia são apresentadas na forma de parábola. Aquilo que eu entendi é que se Cristo fala das coisas mais importantes e complexas através de ideias tão simples, também eu posso fazer o mesmo. Um bom orador tem de ser um bom sedutor porque a magia fascina. É uma ferramenta extraordinária para falar de assuntos sérios enquanto brinco. Quando faço espetáculos de magia, vale pela magia e pela mensagem e, quando me convidam para pôr as pessoas a pensar, estas ficam encantadas quando ilustro os temas com truques. Não sei se sou um mágico que fala de Teologia ou se sou um aprendiz de Teologia que, de vez em quando, faz umas magias. 

Três anos depois, teve a sua primeira experiência televisiva na RTP2, no Programa Ecclesia com a rubrica “A Magia da Vida”. 

Foi uma oportunidade que a Ecclesia me deu. Estou grato ainda hoje, pois era para ser uma experiência de seis meses que passou a um ano e, depois, a dois. Aprendi muito, diverti-me imenso e deu para ter o bichinho da televisão. 
É por essa razão que, para além de ser doutorando em História, é também mestrando em Jornalismo? 
Sempre tive um gosto pelas duas áreas, mas não faço nada disto pelo reconhecimento de um diploma. Faço-o pelo conhecimento e porque adquiro instrumentos que me ajudam a completá-lo. 

Como foi organizar a exposição “Magia – Um Olhar Sobre um Tesouro Oculto”?

Não nos podemos esquecer de que o conhecimento não se reduz a uma elite. No campo da magia – não do ocultismo, da bruxaria ou dos curandeiros –, na ciência que está subjacente ao conhecimento integral do universo, conhecemos cada um. Assim, em dezembro de 2019, coordenei – com a colaboração de uma excelente equipa – uma exposição de livros sobre magia e o oculto, no Palácio Nacional de Mafra, que foi baseada numa investigação que levei a cabo sobre os livros proibidos pela Inquisição existentes na biblioteca de lá. 

Pretende aliar a religião e a magia ao poder do conhecimento do passado e ao da comunicação eficaz e transparente?

Por vezes, andamos a copiar os outros porque pensamos que existem fórmulas secretas para o sucesso e ainda não percebemos que cada um tem de encontrar a sua. Primeiro, devemos dedicar-nos às coisas das quais gostamos porque se, gostarmos, somos bons. E, se formos bons, dão-nos valor. Consegui encontrar o meu lugar.

Apesar de ter um quotidiano preenchido, já fez voluntariado em hospitais, lares, centros de acolhimento e prisões e, agora, nos bombeiros. É esta uma forma de se entregar ao próximo e amá-lo?

Aquilo que o mundo me dá é tanto em comparação com aquilo que lhe posso dar que não sei até que ponto, inconscientemente, esta não é uma forma de retribuir à humanidade aquilo que este me oferece. Por um lado, há o sentido da dádiva, de cumprir uma missão e, por outro, um lado tanto ou quanto egoísta no sentido em que aquilo que estou a fazer é um bem para os outros, mas para mim também. Tenho crescido e aprendido muito. 

Em algum momento sentiu que a sua fé poderia estar tremida? 

Já ouvi pessoas dizerem que a sua fé tremeu e que faz parte do caminho. E isso preocupa-me porque se esse é um sinal de maturidade de fé, eu ainda não a atingi, não passei por essa fase. Mas a minha ligação com a Igreja já foi abalada. Quando tomei consciência de algumas coisas que aconteciam à minha volta por exemplos de membros da Igreja ou por circunstâncias diretamente ligadas à mesma, a ideia de querer fazer parte deste grupo de pessoas e de me rever nelas tremeu. Curiosamente, agarrei-me a Deus e recordei-me sempre dos padres Jorge e Paixão. Escutava algo como se fosse a voz deles a questionar “De que é que estavas à espera?”. Se eu fico escandalizado com o exemplo de algum membro da Igreja ou de um grupo, tenho de pensar naqueles que me deram um excelente exemplo. Não seria justo voltar costas a uma instituição à qual devo tanto só porque percebi que havia más pessoas. Onde está um cristão, está a Igreja e esse é um peso extraordinário.

Quer revelar quais foram essas ocasiões?

Não seria justo contar a minha versão dos factos porque a pessoa em causa já morreu e não está cá para se defender.
Em fevereiro de 2019, o Papa Francisco reuniu no Vaticano bispos de todo o mundo para debater os abusos sexuais. Segundo o Observador, até a esta data, a Igreja portuguesa escondeu pelo menos três casos. Como encara este facto? 

Custa-me muito quando um ser humano é capaz de uma crueldade dessas e ver que a humanidade ainda continua a errar. Independentemente de se ser católico ou não, é triste que homens e mulheres tenham a ousadia de atacar crianças. 

Tem conhecimento da existência de mais vítimas?

Não posso falar dos processos que não conheço, mas não é uma questão de quantidade. Se forem mais, pior ainda, mas só o facto de existir uma vítima já é um desastre. Acredito que haja mais casos porque nem toda a gente denuncia. É triste que existam pedófilos, mas mais triste é quando esses estão ao nosso lado. É como um iceberg: aquilo que está à tona é sempre muito menor do que aquilo que está ocultado pelas águas. São casos que devem ser resolvidos de forma transparente e tratados como crimes. 

A homossexualidade é um dos grandes tabus da Igreja. A mesma é percetível nos seus diferentes grupos?

Se me perguntarem se tive colegas, em Teologia, que eram homossexuais, tive. Uns sei porque mo disseram, outros porque me apercebi e alguns – não devemos ser preconceituosos – transpiravam homossexualidade. Há uns que andavam nas suas aventuras e também tive quem tentasse conquistar-me. Se a homossexualidade é um problema, é criado pela própria Igreja. Existem duas dimensões. A primeira, não é tanto se aquele seminarista que amanhã será padre é homossexual, mas sim se está ou não a construir uma vida paralela, desonesta e incoerente. Ou seja, vive o celibato e a castidade, mas tem uma vida em que os arrasa. Isto é válido para todos os católicos. A homossexualidade não deve ser um mote de vida, uma forma de afirmação social. Quando assim é, parece-me errado e isso origina descrédito e repulsa. As escolhas de cada um são privadas e livres. Ninguém deve impor nada a ninguém assim como ninguém deve favorecer nem prejudicar quem quer que seja segundo as opções sexuais. Há hipocrisia e preconceito, além da profunda confusão entre o amor e o sexo. Seria necessária uma edição especial só para falarmos do sexo e muitas edições para falar do amor.

Acredita que esta orientação, de alguma forma, pode ser um reflexo dos problemas associados ao celibato sacerdotal em que se dá uma oferta total da pessoa ao serviço de Deus e da comunidade? Ou, por outro lado, pode ser ocultada deliberadamente? 

Se a culpa fosse do celibato, aqueles que não são celibatários não passariam pelo mesmo. Há homossexuais e pessoas que têm vidas duplas. Acho que temos de redescobrir a forma como vivemos a nossa sexualidade e o equilíbrio entre o corpo e a mente. Se formos pessoas equilibradas, conseguimos ter uma vida verdadeiramente honesta. Das duas uma: estou preparado para viver sem o prazer ou então, é como diz S. Paulo: “Caso, porém, não se dominem que se casem, porque é melhor casar do que viver abrasado”. Devemos repensar até que ponto os nossos seminaristas fazem um trabalho profundo de discernimento a propósito da sexualidade e do sexo. Porque são coisas diferentes.

Nesta segunda-feira, o Vaticano anunciou que as uniões de homossexuais não poderão receber a bênção dos padres da Igreja, explicando que estas “não se podem comparar ao matrimónio entre um homem e uma mulher”. O que pensa deste veredicto?

Citando o Principezinho, “a linguagem é uma fonte de desentendimento”. As pessoas não estão habituadas a pensar. O que eu quero dizer com isto é que não pensam nos conceitos, mas sim como se as coisas fossem um todo. Para a Igreja, um casamento é uma união que pressupõe um homem e uma mulher que se amam, juntam e vão ter os seus filhos. Isto está bem definido. Depois temos outra dimensão do casamento que é um contrato celebrado entre duas partes que dizem partilhar as despesas, os empréstimos, as propriedades e viver lado a lado. Percebo a preocupação de dar os mesmos direitos a casais do mesmo sexo. Mas em termos conceptuais, a natureza jurídica é a mesma, no entanto, os pressupostos que a Igreja reconhece não são iguais. Nesse sentido é compreensível que a Igreja diga que estas duas formas de união não são iguais, mas encontrará brevemente uma resposta e as uniões homossexuais serão reconhecidas aos seus olhos. Estamos a falar de pessoas a reconhecer decisões de outras. Deus não depende da opinião nem da decisão da Igreja para nada, é ao contrário, a Igreja é que depende do Espírito Santo. Por isso, eu responderia que no dia em que o Espírito Santo decidir que a Igreja terá de tomar essa decisão, ela fá-lo-á. 

Em setembro de 2019, o Papa permitiu que os sacerdotes que pedem dispensa para se poderem casar não sejam afastados das paróquias e possam continuar a lecionar religião. Esta decisão teve efeitos práticos ou não saiu do papel?

Ser padre, neste momento, pressupõe viver o celibato. A partir do momento em que algum padre decide resignar, ele não deve ser visto como um traidor, mas sim como alguém que é honesto e percebe que a sua vontade é outra. Há que ter a coragem de sermos pessoas de caráter. E se o nosso desejo passar por amar uma pessoa e viver com ela para o resto da nossa vida, isso é extraordinário. É bom que os membros da Igreja saibam não julgar essa pessoa. 

Portanto, estas pessoas não devem ser afastadas?

Que mal fazem estes homens? Amaram. Devem ser muito bem integrados onde quer que seja.

Exatamente no mesmo mês, os monges do Convento da Cartuxa, em Évora, abandonaram Portugal. Levaram com eles os votos de silêncio e de pobreza ou acredita que estes ainda se encontram vivos noutros mosteiros? 

Depois da saída dos cartuxos, se falarmos em ordens masculinas, temos os Beneditinos. Aliás, é um mosteiro onde já estive e onde fiz alguns retiros. O silêncio é tão extraordinário... ele fala! Aquilo que estes homens trabalham e vivem ensina tanto. Perdemos tempo a falar e esquecemo-nos do silêncio, que é sagrado. Eles continuam a falar, mas numa outra dimensão. Num mundo tão ruidoso em que tanta gente fala e não diz nada, muitas das vezes, mandar calar alguém é mandá-lo refletir e escutar o silêncio. 

A Igreja não aceita que os seus fiéis sejam da maçonaria e já se opôs a esta sociedade secreta devido, por exemplo, aos princípios iluministas. Conhece católicos que são maçons e vice-versa?

Sim. Têm uma intervenção social muito grande, um testemunho forte e não tenho nada para lhes apontar. Quando se diz que a Igreja condena ou impede que os seus membros pertençam à maçonaria, não podemos esquecer que houve duas fases: em tempos, existia a excomunhão direta para quem pertencesse à maçonaria; depois, com o Papa Bento XVI, ainda perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, houve um ajuste e proibiu-se a pertença a “associações secretas que conspiram contra a Igreja”. Estamos a falar de duas coisas diferentes. Mesmo assim há uma questão que eu posso apresentar: ser-se da maçonaria pressupõe uma obediência a um grão-mestre. Na Igreja, obedece-se a um Papa. No dia em que um maçon católico tiver de escolher entre um deles, se calhar isto pode trazer-lhe problemas de consciência. A Bíblia diz-nos que não podemos servir a dois senhores.

Em dezembro de 2019, a revista Visão noticiou que há cada vez mais maçons em Portugal, segundo obediências como a Grande Oriente Lusitano ou a Grande Loja Legal de Portugal. Há cada vez mais membros da Igreja no seio desta sociedade? 

Essa pergunta deve ser feita à própria maçonaria. Espero que cada vez mais haja gente a interessar-se pelo conhecimento e pela construção de um mundo melhor. É que passados todos estes anos falta cumprir-se os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade – valores comuns a ambas. Acredito que haja gente a beber de várias fontes. A verdade é que no dia em que apostarmos na educação e na cultura, o mundo mudará radicalmente. Por isso, com ou sem aventais, sejamos bons e para isso um primeiro passo pode ser a tolerância. 

As missas, assim como catequeses e outras atividades pastorais que impliquem contacto, devido à situação epidemiológica vivida, têm sido suspensas. De que modo esta medida afeta os fiéis, principalmente, aqueles que vivem em zonas mais remotas?

A religião, normalmente, fortalece e dá-nos umas boas bases. Não devemos reduzir esta questão apenas à vertente espiritual porque os crentes continuam a relacionar-se com Deus, podem fazer uma caminhada de intimidade com o divino. Não precisamos dos padres, dos bispos ou do Papa. Porém, fazem falta para que a Igreja se cumpra. Para as pessoas que estão perdidas nas aldeias, muitas das vezes, é a religião que as faz sair de casa. Se calhar, quando houver um restabelecimento da vida da Igreja, poderá haver uma nova frescura. Por vezes, só damos valor àquilo de que sentimos falta.

Em fevereiro, foi veiculado que cinco sacerdotes da Arquidiocese de Évora estão a ouvir e a prestar apoio espiritual a quem lhes liga. Existem mais padres a seguir este exemplo? 

Tenho consciência de vários padres que estão a desempenhar esse papel, de acompanhar todos aqueles que estão a precisar de apoio. Por vezes, os padres também são psicólogos, terapeutas e médicos. 

Que impacto julga que este apoio tem? 

É muito bom que se encontrem novas respostas e também podermos sentir que há um abanão: a Igreja não está sentada à espera que os fiéis venham até ela, vai ao encontro deles. A proatividade é fundamental. 

A pandemia tornou-nos ou revelou-nos mais ou menos egoístas?

Quando toda a gente dizia “Vai ficar tudo bem”, escrevi uma crónica para o i com o título “Não vai ficar tudo bem”. E isso não vai acontecer porque nunca esteve tudo bem. Já tivemos muitas pandemias e a todas sobrevivemos e de todas nos fomos esquecendo. 

A investigadora cabo-verdiana Vanusa Vera-Cruz Lima identificou passagens racistas em Os Maias, afirmando que as mesmas deviam ser acompanhadas de uma nota pedagógica. Esta controvérsia é justificada?

O problema não está n’Os Maias, no Padrão dos Descobrimentos nem na nossa História colonial, mas sim na nossa cabeça. Aquilo que é vergonhoso é o facto de julgarmos o passado com a consciência do presente. Por isso, aquilo que é triste é a pouca-vergonha, o racismo e a desumanidade com os quais vivemos hoje. Algumas pessoas, porque têm falta de inteligência e de argumentos que sejam capazes de convencer quem quer que seja, e porque só importa aquilo que é mediático, socorrem-se disso para criar um momento de estrelato e mostrar que se calhar até pensam. Põem-nos nas mãos um produto ao estilo fast food que sabe bem, nos deixa enfartados, mas depois vai-se a ver e faz mal à saúde. Só posso lamentar que as pessoas discutam sobre coisas e pessoas em vez de discutirem ideias. Quando não tenho uma proposta suficientemente boa e diferente, tenho de fazer algo para ter graça ou ser engraçado. É pena, gostava que houvesse mais pensadores e menos engraçados. 

O deputado do PS Ascenso Simões defendeu a demolição do Padrão dos Descobrimentos, alegando que da mesma forma que estátuas foram derrubadas e que a ponte Salazar mudou de nome para ponte 25 de Abril, também o Padrão devia ser destruído enquanto “monumento do regime ditatorial”.

Se seguirmos essa ordem de ideias, podemos dissolver Portugal porque foi uma vontade que alguém teve de conquistar território. É o problema de querermos mediatizar um ponto de vista que não é propriamente suportado em premissas interessantes para criarmos boas conclusões. Uma vez, propuseram-me a apresentação de um programa de televisão e disseram-me: “Este programa é demasiado bom. Se o fizesses de cuecas, seria melhor”. Já passaram alguns anos e, se calhar, hoje em dia, teria de ser sem cuecas. Aquilo que vinga e marca hoje é a forma e não o conteúdo. 

Em julho de 2019, denunciou as irregularidades da gestão da IPSS “Educação Popular”, que foi investigada por fraude.

Da única vez que aceitei ser tesoureiro de uma instituição, detetei ilegalidades. Daí, ter feito queixa na Segurança Social e nas procuradorias. Tentei sempre ajudar com a minha entrega solidária, mas é triste que nem sempre as pessoas queiram o melhor dos outros. E, quando é assim, torna-se difícil trabalhar num sistema viciado. Eu denunciei no sítio certo e afastei-me. Não quero lavar roupa suja. Tentaram subornar-me, ameaçaram-me e cheguei a ter pessoas a fotografarem-me à porta de minha casa. Todavia, um dos motes da minha vida foi proferido pelo romancista irlandês Bernard Shaw: “Nunca lutes com um porco. Primeiro, porque ficas sempre sujo e, segundo, porque o porco gosta”.

Já foi convidado para integrar algum partido?

Sim, da esquerda à direita, sem extremos. Um dos convites que recebi foi para desempenhar funções de alguma visibilidade, mas, obviamente, que isso acarretava ser militante. E se há coisa que eu prezo na minha vida é ser livre e creio que isso deixa de acontecer quando estamos no mundo da política. Simplesmente acredito que a democracia deve ser repensada porque exige um estado de consciência e uma maturidade para a humanidade que aparentemente não temos e, por outro lado, se algum dia for convidado, pelo meu país, para um cargo em que possa ser útil, aí ponderarei a decisão. Há uma máxima que é “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Sou professor e contra mim estou a falar, mas parece-me que por vezes acontece isto. Quem não sabe, assume os cargos e, quem sabe, faz coisas demasiado sérias e boas para serem interrompidas. Se a política for uma rampa de lançamento para alguém, é porque se calhar essa pessoa não é assim tão boa. Claro que gostava de viver a verdadeira política, aquela que serve o interesse comum, mas falta sentido de estado e de serviço. Um bom governo tem de ser composto pelos melhores, e os melhores estão espalhados à esquerda, ao centro e à direita. A mediocridade, a ignorância, a falta de caráter de uma boa parte da classe política reduz a probabilidade de uma mudança para melhor. Faltam políticos com carisma e líderes. Andamos a aguardar por um messias político, no entanto, a resposta está na força conjunta. Não perceber isto é não saber o que é a democracia e muito menos o que é a política. 

A educação é valorizada em Portugal?

Há quem pense que compete apenas a uma pessoa, ao professor, quando é dada por uma estrutura alargada e é um trabalho para a vida. Se a partir de hoje cada pai educasse o seu filho, daqui a 30 anos, teríamos uma geração extraordinária. O problema é que parece que gostamos e não nos importamos de ser uma cambada de ordinários. Já para não falar dos encarregados de educação que julgam que podem ensinar aos professores da escola aquilo que eles não foram capazes de ensinar em casa. Há muitas mudanças a operar. A prioridade deve residir em entregar ferramentas aos alunos, ensiná-los a pensar e torná-los autónomos.

O que espera da Jornada Mundial da Juventude que decorrerá em 2023?

É sempre um momento marcante. Todos os eventos que projetem Portugal, por um lado, e que enriqueçam a nossa experiência simultaneamente são importantes. A Jornada serve exatamente para trocar conhecimento e assume um papel peculiar numa época em que se diz que a Igreja está envelhecida. De repente, aparecem imensos jovens e entende-se que não são apenas os mais velhos que vão à missa. 

É feliz?

Muito. Creio que um dos segredos para a nossa felicidade é quando podemos dizer que ao nosso lado está a dormir a mulher com a qual sonhámos a vida inteira. Eu amo a minha mulher, os meus filhos, toda a minha família e os meus amigos. Já para não falar da questão profissional. Faço o que gosto e ainda me pagam para isso. Portanto, estou realizado na família, no emprego, nos projetos pessoais e sou verdadeiramente livre. O que mais posso pedir para ser feliz? Estou na cama certa, mas há muita gente que não está. Tenho o coração, o corpo e a mente no mesmo sítio.

É habitual dizer-se que os escritores encaram os livros que publicam como filhos e, muitas das vezes, não conseguem apontar qual deles é o seu predileto. É esse o seu caso?

O meu livro preferido é aquele que está na minha mente, mas que ainda não escrevi.

O que pode adiantar sobre a obra que vai lançar?

O título é S. José. É despido de considerações. Estamos no ano dele e, assim, torna-se importante ter obras que valham a pena. O desafio que me foi lançado foi escrever sobre este santo e percebi que teria de estudar. Quando comecei a fazê-lo, reuni documentos que, na sua maioria, reuniam praticamente tudo aquilo que havia para dizer. Desde o decreto do Papa Pio IX até ao Papa Francisco. Quem sou eu para comentar ou dizer por outras palavras aquilo que estes pensadores disseram? Preferi apresentar os originais. Quem ler vai ficar a saber tudo aquilo que há para saber. Isto não é marketing, mas este livro é indispensável para se conhecer S. José. Foi uma aposta da Paulinas Editora, com quem tenho publicado, precisamente porque me revejo nos princípios editoriais desta. 

 

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