20/6/21
 
 
José Cabrita Saraiva 17/03/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Estes crimes não foram cometidos há 50 ou 60 anos

É evidente que o nosso passado não é só feito de operações humanitárias e de grandes proezas. Está cheio de zonas de sombra e de crimes repulsivos. Mas haverá algum país que não os tenha? Nisso não seremos certamente piores que os outros.

Está em curso em Portugal um debate ideológico sobre o nosso passado que por vezes assume quase os contornos de uma guerra de palavras. E, como numa guerra, a propaganda – nomeadamente sob a forma da denúncia das atrocidades cometidas pelo inimigo – desempenha um papel importante. Tal como a desinformação.

Não é fácil identificar as origens exatas desse debate, mas é certo que ganhou fôlego com a hipotética construção de um Museu dos Descobrimentos em Lisboa, prometida por Fernando Medina.

Já recentemente veio a controvérsia da Praça do Império e da retirada ou não dos brasões florais que aí existem, que por sua vez quase coincidiu com a morte de Marcelino da Mata, o militar português mais condecorado de sempre – por uns considerado um herói, por outros um sanguinário. Pelo meio, falou-se de escravatura e do papel de Portugal nesse capítulo sinistro da Humanidade.

Discutir a História, desde que não o façamos de forma tendenciosa ou enviesada por preconceitos, é um exercício sempre virtuoso e enriquecedor.

É evidente que o nosso passado não é só feito de operações humanitárias e de grandes proezas. Está cheio de zonas de sombra e de crimes repulsivos. Mas haverá algum país que não os tenha? Nisso não seremos certamente piores que os outros.

Discutir a História, disse, é um exercício enriquecedor. Mas não é isento de riscos. Às vezes, ao dissecarmos os problemas do passado, podemos ficar com a ilusão de que não temos problemas nossos, atuais, prementes, para resolver. Temos e muitos.

Nesta edição do i publicamos uma notícia chocante relativa ao que se passa em Cabo Delgado, onde uma jovem mãe descreve que o seu filho de 12 anos foi decapitado por jiadistas. Não é caso único e não se passou há cinquenta ou sessenta anos: está a acontecer hoje mesmo num país ao qual temos ligações muito antigas e profundas. Um país onde a guerra não se faz nos jornais, com propaganda e palavras, mas com armas e crimes a sério.

Discutamos a História, com tudo o que teve de mau e de bom. Mas não nos esqueçamos de olhar para o presente.


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