20/6/21
 
 
José Cabrita Saraiva 15/03/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Os Maias, um livro perigosíssimo

A primeira pergunta que ocorre (bastante óbvia, aliás) é: ‘Mas esta gente não tem mais nada com que se preocupar?’. E a resposta, igualmente óbvia, é: ‘Não, não tem’.

O facto é que nas sociedades afluentes, com a subsistência assegurada, gera-se uma espécie de falta de objetivos que leva uns a um tédio mortal – o famoso ennui – e outros a dedicarem-se às atividades mais estapafúrdias.

Nos Estados Unidos da América, o país mais próspero e desenvolvido do mundo, isso torna-se gritante, em especial nas centenas e centenas de universidades, onde pelos vistos já não se sabe muito bem o que estudar.

À falta de melhor, por que não reler os clássicos, esquadrinhá-los, dissecá-los à luz dos preconceitos atuais, à cata de passagens comprometedoras?

Assim se instalou a ideia, de um dia para o outro, de que Eça de Queiroz seria racista, de imediato muito acarinhada pelos inquisidores do politicamente correto, pelos pides frustrados, pelos revanchistas ignorantes, pelos invejosos e medíocres do costume.

Logo apareceu por cá, também, uma professora, certamente bem intencionada, a sugerir que as novas edições incluíssem uma nota pedagógica. Extraordinário! Quem não soubesse o que estava em causa, diria que se trata de um livro perigoso, assim ao nível do Mein Kampf, dos Protocolos dos Sábios de Sião ou coisa parecida. Mas não, estamos a falar de Os Maias. O único perigo – mas requer um leitor à altura – é espicaçar a inteligência e aguçar o espírito crítico.

Por este andar, ainda chegará o dia em que, tal como certos alimentos com alergénios, também os livros terão de vir com um aviso: “Este livro pode conter pontos de vista racistas, colonialistas, etc., etc.”

Eça foi impiedoso na denúncia da estupidez, da mediocridade e do ridículo. Ninguém foi ao mesmo tempo tão virtuoso e tão demolidor com as palavras. Mais de cem anos depois da sua morte, continua a haver quem se delicie com os seus livros. Mas é inevitável que haja também quem se sinta ofendido e não lhe perdoe por isso.


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