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Joe Paton. "O primeiro cérebro apareceu há 600 milhões de anos. A nossa inteligência reutiliza o que evoluiu"

Joe Paton. "O primeiro cérebro apareceu há 600 milhões de anos. A nossa inteligência reutiliza o que evoluiu"

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 13/03/2021 10:15

Diretor do programa de neurociências da Fundação Champalimaud fala sobre o trabalho com inteligência artificial, que valeu a distinção na Nature. E sobre o que o cérebro ainda tem para ensinar às máquinas.

Joe Paton tem 42 anos, vive há 12 em Portugal e dirige o programa de neurociências da Fundação Champalimaud, este mês distinguida num ranking mundial da revista Nature entre as instituições que a nível mundial estão a dar mais cartas na investigação com inteligência artificial. O que fazem ao certo foi o mote para uma conversa de fim de tarde numa Lisboa ainda confinada, da inteligência artificial à natural, do cérebro em tempo de pandemia ao tempo como grande instrutor do cérebro, a sua área de estudo. Fala português, os filhos nasceram cá, mas quando o tópico é ciência o inglês continua a ser a opção natural de um norte-americano que viu em Lisboa a oportunidade de fazer ciência de forma diferente, deixando do outro lado do Atlântico a família e um percurso que passou pela Universidade de Stanford e pela Universidade Columbia, em Nova Iorque, onde se doutorou em Neurobiologia e Comportamento. Defende cautela na hora de confiar tarefas complexas humanas às máquinas: primeiro, porque ainda estamos a perceber como as executamos. Depois, porque podem falhar estrondosamente. Nós também, mas temos uma inteligência que evoluiu ao longo de milhões de anos e que nos permite, pelo menos, percebê-lo.

Esta distinção colocou a Fundação Champalimaud no mapa mundo da investigação com inteligência artificial. Foi uma surpresa?

Há várias instituições em Portugal que estão a fazer um trabalho fantástico com inteligência artificial. O Técnico, a Universidade do Porto... É um ranking que no fundo mede resultados em termos de publicações. Aparecemos lá porque os nossos investigadores têm publicado em jornais de alto de impacto e o tipo de trabalho que fazemos aqui tem incorporado ou desenvolvido métodos de machine learning e inteligência artificial.

Estamos habituados ainda a ouvir falar mais de modelos animais, moscas da fruta, ratinhos. Como é que a inteligência artificial tem mudado o trabalho no laboratório?

Há duas vias. Uma passa pelas ferramentas: técnicas que aproveitam o facto de a inteligência artificial ser cada vez mais poderosa quando tentamos analisar conjuntos de dados complexos. Conseguem encontrar uma estrutura rapidamente e com grande precisão. A outra via é mais no campo fundamental e é algo que é mais específico das neurociências, em particular o tipo de investigação que fazemos na fundação. No fundo, tentamos perceber como é que o cérebro produz a inteligência natural. Tem havido um grande trabalho de sinergia entre inteligência artificial [IA], robótica e neurociências porque basicamente quando se trabalha com IA está-se a pedir a algoritmos para tomarem decisões, para perceberem alguma coisa, categorizarem alguma coisa e foi para isso que os cérebros evoluíram. À medida que tentamos perceber como criar algoritmos mais robustos, a questão para as neurociências é ao mesmo tempo como é que esses algoritmos podem ensinar-nos coisas que ainda não sabemos sobre as operações do cérebro.

E geralmente quando é que se aprende, é quando a máquina falha, não consegue decidir?

É uma forma. Hoje em dia os algoritmos de inteligência artificial são ferramentas muito úteis, são muitos bons a executar tarefas muito focadas. Por exemplo, reconhecimento facial, reconhecimento de objetos. Mas mesmo isso comparando com o que o cérebro consegue fazer são ainda tarefas muito restritas. Seja no cérebro de um animal ou no ser humano, o sistema visual é apenas uma parte da máquina. E a máquina toda é que permite guiar comportamentos. Ok: as máquinas estão a ver e conseguem perceber o que estão a ver, e essa é uma tarefa que hoje damos à inteligência artificial, mas isso é apenas uma pequena parte daquilo que o cérebro tem de fazer. E os objetivos são diferentes. O cérebro existe para guiar comportamento. E aquilo que vemos é importante porque informa como devemos agir. Enquanto a maioria da inteligência artificial ainda só está focada na tarefa em si.

E acha que vai dar esse salto em breve?

Acredito que vamos começar a ver uma maior interação entre robótica e inteligência artificial. E quando a robótica dá esse salto, passamos a falar de inteligência artificial que se situa no mundo, que tem um corpo, enquanto os algoritmos que hoje são usados estão na memória de um processador de um computador, não se mexem, não atuam na sociedade, não podem mexer os seus sensores para tentar obter mais informação à sua volta. Vamos começar a ver essa barreira a diluir-se. No laboratório usamos muitas ferramentas de IA para visualização, caracterização de comportamentos mas o que me entusiasma mais é a ligação entre as operações do cérebro e as operações da inteligência artificial.

Quais têm sido as perguntas?

Uma das áreas que estudo no cérebro é um conjunto de circuitos chamados gânglios cortico-basais. Há muitos estudos que sugerem que esses circuitos implementam algoritmos semelhantes aos que encontramos nos modelos computacionais de aprendizagem por reforço, que são no fundo os algoritmos que estão por detrás de avanços que permitem à inteligência artificial jogar xadrez ou ser usada em videojogos. O que fazemos é olhar para a anatomia dos circuitos cerebrais e pensar o que poderá ser comum, como é que as máquinas aprendem e como é que nós aprendemos. E nesta comparação surgem perguntas novas, que nos permitem pensar como é que o cérebro humano vai além dos algoritmos.

Estamos há um ano em pandemia, num segundo confinamento. Também vos trouxe novas perguntas?

A todos. Tivemos alguma da nossa capacidade laboratorial mobilizada para testagem, tínhamos pessoas que estavam a estudar as interações do sistema imunitário com as células nervosas dos intestinos e passaram a olhar para os pulmões, ou pessoas que estavam a estudar o olfato e começaram a estudar a relação entre a covid-19 e o olfato.

Agora toda a gente dá mais valor ao olfato, passámos a estar mais atentos se temos cheiro.

É um dos nossos sentidos fundamentais.

Mas acha que o subestimamos?

Completamente. Há uma cena no filme Ratatouille que mostra bem isso: um crítico gastronómico, um homem mal humorado que de repente prova o prato e é imediatamente transportado para a infância. Há resultados de um dos nossos laboratórios que mostram que há uma área do cérebro em que temos uma combinação de inputs do principal sistema de memória do cérebro, que é o hipocampo, e do sistema olfativo. Forma-se uma espécie de mapa espacial. E é o que vemos naqueles campeonatos de memorização, em que se tenta ver quem tem melhor memória e os participantes têm um minuto para olhar para um conjunto de cartões e depois de reproduzir em que lugar estavam. E os campeões mundiais o que fazem é criar uma espécie de palácio de memórias, em que mentalmente colocam cada uma das cartas numa divisão de uma casa que lhes seja familiar, a casa onde cresceram por exemplo. Juntam-lhe uma história e é assim que conseguem reconstituir o lugar das cartas, vão caminhando mentalmente por aquele espaço que lhes é familiar. A nossa capacidade de memorizar parece estar construída em cima de um sistema que provavelmente nos nossos antepassados era usado para navegar no espaço. Já houve estudos que mostraram que taxistas que têm mais tecido nesta área do cérebro que é importante para a memória e navegação espacial.

E sendo coisas tão intrínsecas ao que somos, perder de repente o olfato como se vê na covid-19 pode levar alguém a sentir-se mais desorientado, ansioso?

Talvez. Há uma frase de que gosto particularmente de um dos pais da inteligência artificial moderna, Marvin Minsky, que tem um livro chamado Society of Mind. É algo como “as coisas que o nosso cérebro faz melhor são as coisas de que nos apercebemos menos”. E é muito isso. Por exemplo a audição. Claro que todos sabemos que usamos a linguagem para comunicar mas a audição tem outras funções de quem nos apercebemos. Noutro dia tive essa experiência. Às vezes quero desligar, estou a ver qualquer coisa na Netflix e ponho os headphones canceladores de ruído. Naquele dia estava escuro, levantei-me para ir à cozinha mas como tinha os auscultadores a certa altura dei comigo a andar pela casa aos tropeções nas coisas. Geralmente não pensamos que usamos os ouvidos para nos orientarmos, mas usamos. O cérebro é muito oportunista nesse sentido: tem todos estes sensores, uma capacidade de processamento imensa, hierarquias de processamento de informação e usa-as de forma que não nos apercebemos minimamente no dia a dia. Só nos apercebemos de uma camada muito fina daquilo que o nosso cérebro faz.

E estará já a usar todo o seu potencial?

A ideia de que só usamos 10% do cérebro é um mito. Se os nossos cérebros se adaptam, se aprendemos a fazer coisas novas, podemos desenvolver novas capacidades? Claro, é o que estamos sempre a fazer. Há alturas em que podemos ter umas regiões do cérebro mais ativas do que outras, mas isso não significa que não estejamos a usar o cérebro todo.

Mas tal como evoluímos para chegar ao cérebro de hoje, no futuro o cérebro humano será capaz de fazer coisas mais extraordinárias?

É sempre uma questão complicada. Mais evoluídos em que sentido? Tendemos a pensar que o surgiu mais tarde na evolução é melhor, mas melhor em quê? Temos vários tipos de cérebros no reino natural e são todos especializados em coisas diferentes. E podemos pensar: o cérebro humano é o mais poderoso. Mas depois vamos comparar-nos. O nosso olfato é melhor do que o de um rato ou de um cão? Meta-se o homem debaixo de água e peça-lhe para fazer coisas: vai sair-se seguramente pior que um golfinho. Por isso, sim, o cérebro é plástico. Aprende, adapta-se. Provavelmente ainda está a evoluir, mas daí a podermos pensar que daqui 100 milhões de anos seremos melhores ou mais inteligentes, depende.

Mas vemos como os miúdos hoje dominam a tecnologia, com dois anos sabem mexer em tablets. Como é um neurocientista, pai de duas crianças pequenas, olha para esse fenómeno?

O cérebro jovem é incrivelmente plástico. À medida que crescemos, vai ficando um bocadinho menos plástico mas para isso acontecer assim é porque foi benéfico para nós. É importante termos um período em que aprendemos sobre o mundo, absorvemos tudo, mas se mantivéssemos esse tipo de plasticidade toda a vida, começaríamos a sobrepor informação e possivelmente poderíamos perder a capacidade de preservar algumas competências que são mais úteis.

Então não lhe parece que os miúdos serão mais espertos.

Estão a usar o cérebro de formas diferentes do que usavam as crianças noutras alturas. Daí a dizer que ficaremos necessariamente mais inteligentes... não sei. À medida que surgem novas tecnologias, os nossos cérebros adaptam-se a isso. Quantos números de telefone sabe de cor?

Poucos e sobretudo telefones de casa antigos.

Descarregámos essa informação da nossa memória para os dispositivos. E por isso não gosto de falar de melhor, mais inteligente, somos diferentes.

Há algum truque que aplique com os seus filhos por perceber um pouco melhor como os cérebros aprendem?

Talvez a consistência. Acho que é algo que todos aprendemos como pais e que é importante em qualquer aprendizagem, seja quando treinamos um animal ou um algoritmo. Devemos ser consistentes. E depois usar a cenoura mais do que o pau, como se costuma dizer. Para ser honesto, acho que o mais importante é os miúdos sentirem-se amados e desafiados e talvez a alguma pequena vantagem que possamos ao perceber um pouco melhor como funciona a aprendizagem no cérebro é completamente ultrapassada pela diferença que faz uma criança sentir-se apoiada. E voltando à inteligência artificial, nada desta complexidade que existe no nosso cérebro é minimamente reproduzida ainda nos algoritmos modernos.

Há alguma discussão sobre se a pandemia, a experiência do confinamento, deixará marcas. Que impactos antevê?

Somos fundamentalmente sociais e muitos dos canais que tínhamos para isso foram diminuídos, pelo que isso tem certamente um forte impacto ao nível da saúde mental. Depois a própria maneira como hoje socializamos é muito diferente e não sei quais serão os impactos a longo prazo. Uma das nossas maiores adaptações enquanto espécie resultou do facto de sermos sociais, de vivermos em grupo. Fomos capazes de construir isto porque vivemos juntos e agora fechámo-nos em casa, interagimos menos.

Há a internet…

Mas a forma como interagimos na internet é diferente. Evoluímos em grupos sociais com escalas menores, cooperamos.

A pandemia tem andado muito à volta dos comportamentos individuais. Quando ouve os apelos, as mensagens, em que pensa?

Há uma coisa que temos observado e que é bem descrita pelos psicólogos que é a normalização do risco. Quanto mais tempo passamos num determinado estado mais tendemos a desvalorizar o risco, ficamos confortáveis. Mais uma vez, temos uma série de camadas da nossa consciência que estão sempre a absorver informação e que a certa altura interiorizam: “Ok, havia um risco mas não te aconteceu nada”. Andei por aí no último ano, falei com pessoas, até fui trabalhar e não aconteceu nada...

E baixa-se a guarda, já não se limpam os botões do elevador…

Claro que pelo meio também sabemos mais e que as superfícies não uma via importante de transmissão. Mas a questão em que por vezes penso é: como é que se poderia “piratear” o cérebro das pessoas para fazê-las comportarem-se de uma maneira que seja boa para todos?

Seria uma solução para mais problemas do que infeções...

Pois. Por outro lado, levanta questões éticas, não queremos ser uma sociedade que manipula as pessoas.

Mas vê falhas na comunicação?

É um trabalho difícil. Não sou especialista, mas há coisas que me parecem fazer sentido, por exemplo campanhas com fotografias. Torna o risco mais real, mais concreto. Se uma pessoa lê um artigo sobre o número de casos que está a subir, é abstrato. Se for uma fotografia, torna-o mais real e tendemos a reagir a estímulos mais concretos. É muito difícil mudar um comportamento perante uma coisa abstrata. Gostamos de pensar que somos muito inteligentes, construímos cidades, a internet, telemóveis. Conseguimos compreender as primeiras frações de segundo do universo. Conseguimos fazer tudo isto com as nossas mentes, mas ao mesmo tempo dizer a alguém que não pode fazer o que quer porque isso vai afetar alguém que não conhece é uma coisa muito abstrata que se está a pedir e uma coisa muito abstrata para as fazer alterar consistentemente comportamentos, mesmo com toda a capacidade de processamento que adquiriram os nossos cérebros.

Ou agimos por medo…

Sim, o medo é uma via. O conhecimento é outra e fiquei muito contente por ver que em Portugal o Governo ouviu a comunidade científica. Agora claro que é preciso ouvir os cientistas, mas é preciso encontrar formas de comunicar com o público que tornem mais real e menos abstrato por que é que é preciso que as pessoas se comportem de determinada maneira.

Estuda o tempo no cérebro. Com este confinamento em casa às vezes parece que não sabemos que dia da semana é.

Absolutamente. Uma semana normal tem uma estrutura. Vai-se a diferentes sítios em momentos específicos do dia. Este tipo de rotinas marcam a passagem do tempo. Quando todos os dias passam a ser iguais perdem-se esses marcadores, os pontos de referência.

Para algumas pessoas este ano pareceu muito tempo. Para outras passou a correr. O que é que isso diz sobre a forma como processamos o tempo?

O tempo é uma dimensão importante para praticamente tudo o que o cérebro faz. Usamos o tempo para guiar o nosso comportamento, para criar narrativas de memórias. Estamos sempre a estimar o intervalo entre coisas, seja o tempo que se tem algo no forno, seja outra coisa qualquer. Afeta todas as nossas sensações, o medo, a felicidade, o aborrecimento. Se uma pessoa viveu muitas experiências novas, vai sentir que o tempo passou mais depressa. Os profissionais de saúde por exemplo. Se basicamente uma pessoa esteve sempre a fazer a mesma coisa, vai sentir que o tempo demorou mais a passar. A forma como percecionamos o tempo tem muito a ver com a mudança.

O que o levou a interessar-se por este lado do cérebro?

A investigar comportamento adaptativo, como é que aprendemos em ambientes complexos, como é que apreendemos relações de causa e efeito, como é que aprendemos a prever coisas que são importantes para a nossa sobrevivência. Quando iniciei o meu grupo de investigação sabíamos muito pouco sobre como é que o cérebro constrói a sua base de processamento temporal. Em conjunto com outros laboratórios, temos feito alguns progressos e agora estamos a voltar a essas questões iniciais, por exemplo como é que aprendemos que um determinado comportamento é o que tem o melhor resultado. Uma previsão, qualquer previsão que façamos, tem inerente uma noção de tempo. Como é que aprendemos que uma coisa qualquer resultou de um comportamento ou de uma ação? Exige perceber quando é umas coisas acontecem em relação às outras. E o interessante é que este mecanismo aplica-se em todas as escalas do tempo. Conseguimos percecionar relações causais que acontecem ao longo de centenas de anos mas também em milissegundos, segundos, minutos, horas.

E a base é a mesma?

Sim, achamos que o tipo de previsões que aprendemos e que usamos para antecipar o que vai acontecer e como isso adaptar o comportamento baseiam-se essencialmente nas inferências temporais que o nosso cérebro faz. E isto leva-nos de novo para a inteligência artificial. Muitos dos algoritmos que vemos trabalham com dados que lhes apresentamos todos de uma vez. O que nós temos de fazer é lidar com uma corrente de informação ao longo do tempo. Agimos, acontecem coisas, processamos e o nosso cérebro tem de encontrar uma estrutura temporal nessa corrente de informação. Nesse sentido, a forma como processamos o tempo acaba por estar na base da inteligência natural.

Depois temos uma série de relógios internos.

No cérebro ou no resto do corpo.

Nas células.

Sim, relógios moleculares. Fatores de transcrição que são proteínas que dão feedback negativo umas às outras, uma é mais expressada, depois desliga-se, depois liga-se outra, e isso é uma forma de relógio, que por sua vez se liga ao relógio que temos no cérebro, que por sua vez se interliga com a luminosidade que recebemos e coordena uma série de funções no organismo.

E por isso quando estamos à noite com a luz azul dos telemóveis o sono fica baralhado.

Sim, baralhamos a sincronização que existe entre a luz e os nossos ritmos biológicos. Mas há mais mecanismos que envolvem o tempo. Por exemplo o nosso sistema auditivo tem de processar o tempo para saber de onde vem um som. O intervalo de tempo entre o som chegar a um ouvido e depois chegar ao outro dá pistas ao cérebro. E este por exemplo é um relógio que funciona numa escala de milissegundos ou menos, enquanto que o do ritmo circadiano funciona na escala do dia. Claro que essa não é a única pista. A intensidade do som, a frequência, por exemplo se uma coisa se está a mexer, são informações que o nosso sistema auditivo capta de uma maneira que é totalmente invisível para nós.

Vemos nesta pandemia uma grande polarização de ideias, teorias da conspiração. Há cérebros mais suscetíveis?

Mais uma vez não é a minha área de estudo.

Achamos que os neurocientistas percebem do cérebro todo!

(Risos) A ciência tem de ser cuidadosa e temos de ser honestos com o que não sabemos. Mas falávamos há pouco sobre a forma como as redes sociais alteraram a socialização. A maneira como consumimos informação, a velocidade, mudou completamente. Por cima disto temos algoritmos nas redes sociais que tendem a juntar pessoas que fazem coisas semelhantes. E o resultado é uma espécie de câmara de eco em que a informação anda de um lado para o outro em pequenos ou grandes clusters. E a certa altura é quase como se esse sistema fechado deixasse de ser capaz de avaliar se a informação é real ou não. Às vezes penso se não será algo semelhante ao que acontece com algumas doenças que envolvem uma psicose, como a esquizofrenia, que alguns autores caracterizam como uma incapacidade para determinar se uma perceção é baseada no mundo real ou em algo gerado por nós.

Estamos a ficar esquizofrénicos nas redes sociais?

É como se os grupos sociais fossem, metaforicamente falando, esquizofrénicos, porque geram perceções internamente que não estão ligadas à realidade.

E isso cria um círculo vicioso?

Muitas destas plataformas foram desenhadas precisamente para tirar partido da forma como respondemos a recompensas. A afirmação social é uma grande recompensa, ver a nossa visão apoiada por outras pessoas. Conseguimos imaginar isso, sei lá, quando lutávamos pela sobrevivência nas cavernas, seria importante para a nossa sobrevivência perceber que as pessoas à nossa volta pensavam como nós, dava-nos o sinal de que podíamos trabalhar juntos. E agora isto foi aproveitado por este modelo de negócio que pretende que as pessoas ficam ligadas o mais possível. Para isso tem de conseguir produzir as maiores recompensas possíveis. E perceberam que como somos sociais, uma enorme recompensa que nos mantém envolvidos com o produto deles é este.

E nós respondemos.

Exato. E quando falamos de recompensas, pode ser afirmação social, pode ser comida, pode ser informação que reduza a nossa incerteza sobre o mundo. Foi para buscar isso que os nossos cérebros evoluíram.

Não é um utilizador?

Uso o Twitter quando é preciso, mais para apoiar algum colega quando publica um artigo. Claro que vejo que em algumas situações as redes sociais são úteis, mas penso que ainda temos de resolver as questões éticas. Quais são os impactos negativos de desenhar estas plataformas desta forma, que impacto têm na saúde mental, na sociedade, como é que as teorias de conspiração que crescem com facilidade nestas bolhas depois levam as pessoas a fazer coisas violentas no mundo real...

Mas não tem mesmo Facebook?

Não. Vou lá mas não é algo que me faça sentir bem.

O seu sistema de recompensa está avariado?

Acho que é mais não gostar de ficar preso ao meu sistema de recompensa. Gosto pelo menos de tentar ter a ilusão de que consigo ter um pouco mais de controlo sobre o meu comportamento.

Há pessoas mais capazes disso do que outras?

É outro aspeto do cérebro em que entra o tempo. Quando se diz que alguém é impulsivo significa que age sem ter em grande consideração as consequências a longo prazo. Por outras palavras, olham mais para o imediato do que para o futuro. A investigação tem mostrado que pessoas que têm mais problemas de uso de drogas, por exemplo, tendem a ter horizontes temporais mais curtos. E algumas destas coisas são controladas apenas por genes. Genes que acabam por afetar o funcionamento do sistema de recompensa, que por sua vez influencia a forma como aprendemos sobre o mundo, o que valorizamos, quão longe no futuro olhamos em termos de consequências das nossas ações.

Quer tenhamos maior ou menor predisposição, não estaremos numa altura em que os estímulos nos levam a ser mais impulsivos, as notificações nos telemóveis?

Isso é tudo verdade mas por outro lado, uma coisa que sabemos sobre a inteligência natural é que é robusta, evoluiu ao longo de milhões de anos. Temos é de tentar manter a variedade, pensar que qualquer coisa que façamos em exclusão de todas as outras vai ser má. Portanto acho que as pessoas têm de tentar ter presente que trabalhar para o longo prazo é bom, mas também têm de ter alturas em que simplesmente se deixam recompensar. Tudo em moderação. A ideia é conseguirmos pensar em recompensas numa escala de tempo mais alargada, tentar encontrar um equilíbrio.

A notícia mais badalada dos últimos tempos neste campo foi lulas terem passado um teste cognitivo feito a crianças.

Sim, fizeram o teste do marshmallow com lulas. São sistemas nervosos completamente diferentes dos nossos, seja as lulas ou os polvos...

Há um documentário na Netflix sobre a sabedoria dos polvos que muda um bocado a perspetiva que temos sobre estes animais. São empáticos.

O meu filho de cinco anos ficou a chorar no fim. É incrível de facto porque há de facto uma enorme inteligência nesses animais e são animais que vivem um ano.

Além das lulas e dos polvos, há algum animal com um sistema nervoso que o fascine?

São todos bastante impressionantes e o que fascina é perceber essa diversidade. Há pessoas aqui que estudam as moscas da fruta e o que descobrem sobre os mecanismos neuronais que interferem no comportamento das moscas é impressionante.

O cérebro de uma mosca da fruta deve ser ínfimo.

E mesmo assim é um animal que tem de conseguir controlar o seu corpo, que tem de captar informações do ambiente e usá-las para guiar o seu comportamento. Se cheira o odor de uma fruta tem de conseguir encontrá-la. Há um artigo que adoro de um roboticista do MIT chamado Rodney Brooks, que fundou a iRobot. Chama-se “Elephants Don’t Play Chess”. E a ideia no fundo era: a vida começou neste planeta há 3,5 mil milhões de anos. O primeiro cérebro, o primeiro sistema nervoso, apareceu há 600 milhões de euros. Os primeiros problemas que o cérebro teve de resolver foram coisas como as que acabei de descrever para a mosca da fruta. Como é que recebo algumas informações sensoriais e as utilizo para guiar uma resposta comportamental? Como faço para controlar um corpo de uma maneira robusta, que permita andar em todos os tipos de superfícies diferentes. São problemas difíceis. E a evolução teve que descobrir como resolver esses problemas muito antes de inventarmos o xadrez. E toda a nossa inteligência, e isso é verdade para evolução no geral, reutiliza o que evoluiu antes. E assim a nossa inteligência reutiliza muitos mecanismos que evoluíram para controlar este tipo de coisas e que estão presentes em todo o tipo de organismos. E é por isso que estudamos o sistema nervosos de nemátodos, que têm mil células. E dei o exemplo da memória: a capacidade que nos permite lembrarmo-nos de uma coisa que aconteceu ontem foi construída em cima de um conjunto de sistemas que evoluíram apenas para nos permitirem navegar pelo espaço e saber onde estamos no mundo. E isto é o que tentamos fazer nas neurociências. Se queremos mesmo desenvolver inteligência artificial, primeiro precisamos de perceber como o cérebro funciona. E isso envolve não estudar apenas humanos e xadrez e todas as coisas que associamos à inteligência, mas como é que nos aguentamos de pé. Como é que aprendemos a andar, como coordenamos os diferentes membros, como captamos um estímulo visual, como tomamos decisões simples. A ideia é que compreendendo isso vamos aprender princípios fundamentais que se integrarmos nos algoritmos permitirão à inteligência artificial uma resposta muito robusta, flexível e muito mais natural do que temos hoje. A inteligência artificial consegue falhar de forma espetacular. E se vamos começar a confiar nela para nos guiar o carro, para decidir que medicamento se prescreve a um doente ou quem deve ser contratado para um determinado emprego, é melhor que estejamos bastante convencidos de que está a fazer as coisas bem.

Mas acha que tem havido excesso de confiança?

Acho que as pessoas nem sempre têm presente que termos um algoritmo que funciona não significa que não vai ser isento de falhas, preconceitos.

Nós também os temos.

Certo, mas pelo menos temos uma inteligência geral que podemos usar para olhar por cima dos ombros, de uma forma que os algoritmos não conseguem. Por isso acho que vão ter de ser supervisionados por humanos durante muito tempo. A coisa que me preocupa mais não é de repente termos um Terminator, é pormos demasiada confiança em algo que tem falhas.

Portanto apesar desta distinção da Nature, não é um apologista.

Não, quer dizer acho que as técnicas são muito úteis para a ciência, engenharia, medicina, para todos os setores da sociedade mas acho que não vai resolver todos os nossos problemas. Teremos de ser nós. Uma das minhas esperanças é que tentando aproximar as neurociências da inteligência artificial consigamos uma IA mais robusta, mais flexível, mais como o cérebro. Alguns problemas poderão manter-se, porque também os temos, mas poderemos minimizar outros.

Com que memórias vamos ficar deste tempo pandémico?

Eu acho que vou lembrar-me de ter sentido falta das pessoas, da família, de não ter podido jantar com os meus amigos.

Lembramo-nos das coisas que nos magoam.

Esse é um dos lados. Mas depois também vou de certeza lembrar-me do tempo em família. Lembramo-nos de coisas que são diferentes. O cérebro está preparado para captar o que foge às nossas expectativas.

 

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