20/6/21
 
 
José Cabrita Saraiva 11/03/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

O Portugal esquecido pela 'bazuca'

Uma enorme fatia dos fundos destina-se à transição digital, outra grande fatia à descarbonização da economia. São milhares de milhões. Mas quem vai beneficiar?

Grandes esperanças se depositam na ‘bazuca’ que deverá vir da Europa para arrebitar a nossa economia. Dos cerca de 16 mil milhões de euros de ajudas previstos depende muito do futuro de Portugal. A tal ponto que o plano de aplicação desses fundos, a que se deu o título de Plano de Recuperação e Resiliência, bem que poderia chamar-se Plano de Sobrevivência.

Porém, as grandes diretrizes desse plano não auguram nada que possa deixar-nos muito otimistas.

Uma enorme fatia dos fundos destina-se à transição digital, outra grande fatia à descarbonização da economia. São milhares de milhões. Mas quem vai beneficiar?

Provavelmente os mesmos de sempre, os peritos nas siglas e na captura de fundos, que se movimentam como peixe na água nos meandros da burocracia europeia. Será uma confirmação das leis de Darwin, que determinam a sobrevivência do mais apto, o triunfo daquele que se adapta melhor ao meio.

Mas muitos serão deixados de fora. Suspeito que haverá legiões de esquecidos, pessoas que não têm nem sabem o que são e-businesses, pessoas que não têm idade nem habilitações para aprender a dominar novos softwares, pessoas que nunca ouviram falar de start-ups nem sequer têm contas nas redes sociais. Portugueses comuns. Donos ou empregados de pequenos negócios tradicionais, como retrosarias e drogarias, vendedores de frutas e legumes nos mercados, pescadores e peixeiras, ferreiros, carpinteiros. Se antes já eram uma espécie em vias de extinção, mas não suficientemente rentável a nível eleitoral para serem protegidos, provavelmente sofrerão com a pandemia o golpe de misericórdia.

É que existe o país virtual das WebSummits e das aplicações que de um dia para o outro valem milhões de euros. Esse provavelmente vai lucrar, e bem, com a bazuca.

E depois existe o país real – o país das pessoas que não fazem parte de uma certa visão tecnocrática do mundo. Esses, ou muito me engano, ou vão ver a bazuca por um canudo.

 


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