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Seis Poetas de Agora. O prazo de validade dos iogurtes

Seis Poetas de Agora. O prazo de validade dos iogurtes

Diogo Vaz Pinto 09/03/2021 13:48

“Já não dá para ser moderno” é o título de uma antologia da poesia portuguesa da última década, com organização de Ricardo Marques e que, ainda que seja tudo menos empolgante, é nos seus aspectos menos conseguidos que traça um retrato geracional apontando para a forma como também a poesia, hoje, se vê sujeita às regras dos bens consumíveis.

Não somos obrigados a viver neste século, ainda que a isso as circunstancias queiram forçar-nos. E um corte que tanto nos seduz é esse que passa por sentir como a escrita e a leitura nos permitem forjar um passaporte ou um salvo-conduto para viajar entre os tempos mais diversos, reconhecer essa geografia um tanto desolada mas, a partir de um certo ponto, libertadora e cheia de encantos. Todas as épocas nos deixaram a sua força de instrução, os seus planos abandonados, obras que nos nutrem e ligam a uma ausência que pode ser bem mais consoladora do que tudo aquilo que se enquadra na ordem deste mundo em que todos os dias nos querem obrigar a viver. Há como um instinto que separa o poeta na sua inspiração e o leva a farejar os restos de antigas civilizações, com a capacidade que desenvolve de se esquivar a uma “sociedade que assustadoramente não depende de uma vida exaltante” (Cesariny).
 
De tal modo que o consumo determina, hoje, a lógica da caducidade, e revoga o princípio da transcendência, com as gerações a inscreverem-se agora nesse regime da caducidade, numa sucessão de lotes, numa decorrência deste contexto neoliberal ao qual o prefácio desta antologia alude, embora o faça de forma inexpressiva, incapaz de traçar esse quadro que diariamente nos tritura, e não vai sequer ao ponto de entender como hoje vivemos na catástrofe permanente, incapazes de nos desentranharmos das crises enquanto factor de continuidade, enquanto elemento narrativo, incapazes, assim, de forçar uma transição histórica brutal, pôr fim à crise enquanto elemento constante e que se confunde actualmente com o que significa ser moderno. Torna-se necessário, por isso, para desentranhar o futuro deste presente esmagador, que as obras se lancem numa refutação do tempo, na sua crítica social, pois, como defende Hartmut Rosa, “a sociedade moderna é a primeira sociedade na história humana que tem necessidade de acelerar para manter em pé a sua própria estrutura”. Ou, dito de outro modo, ela baseia-se na aceleração, sendo esta que lhe confere uma estabilidade dinâmica cujo efeito é semelhante a uma escalada sem fim. E para este pensador não é sequer possível decifrar a nossa forma de vida sem considerar este princípio da aceleração.

Em grande medida, aquilo de que nos vamos dando conta é de que o tempo está submetido também a uma campanha de saldos, e vê-se embaratecido. Ora, se nos passearmos por uma qualquer cadeia de supermercados, aquilo de que nos damos conta é de que há ali um labirinto deflacionário, em que tudo nos aparece como barato e simples e óbvio e comestível, e também assim nos vai parecendo a nossa passagem por este mundo. Recorro aqui a uma das reflexões de Manuel Vilas de “Em tudo havia beleza” (Alfaguara, 2019), em que este nos diz que se tudo é barato é porque está quase tudo caducado. “Se repararmos no prazo de validade do que compramos apanhamos a surpresa de boa parte dos produtos estarem tão baratos porque estão prestes a caducar. As bolachas estão quase caducadas, o peixe está quase caducado, é por isso que baixam os preços, porque os produtos são quase cadavéricos. Umas bolachas caducadas são como um cadáver. Mete medo comer coisas caducadas, é como lançarmo-nos ao forno da indústria da alimentação. Os técnicos que tinham de vigiar o prazo de validade dos produtos também caducaram. As pessoas caducam. Morrer é caducar, quero dizer que estendemos o conceito de término a tudo quanto nos rodeia. E, no final, a medida ou transcendência da nossa morte não está distante da medida e transcendência de um iogurte caducado.”
 
Tendo em conta o que acima se leu, não é de estranhar que também a literatura e até a poesia cedam a esta ordem de caducidade, poemas que já nascem quase caducados, que não criam qualquer barragem para impedir que a vida ceda a esse ruído infatigável de uma água chilra que tudo afoga, antes trazem inscrito um prazo de validade, essa data fúnebre, e, por isso, tanto do ambiente social que caracteriza actualmente os ritos literários o que tem em comum é o aspecto de um enterro. Nem é estranho, assim, que à medida que o tempo passa, e mesmo que nos seja retirada até a capacidade de lhe tomar o pulso, sequer o gosto, para essa vertigem concorram os exercícios de historicização, os quais têm, hoje, cada vez menos a ver com a história e cada vez mais com o jornalismo, actividade sempre suspeita pela forma como se associa a esse esforço de fabricar ou simular jornadas históricas. E, quanto mais irrelevante se torna a crítica literária, mais ela descende a esta condição agonizante, a de se reclamar, sem qualquer pudor, triunfos que permitem deter o tempo, romper a sua marcha. Ora, o que sabemos é que esse atrevimento pouca capacidade tem revelado neste século e no nosso país para reconhecer essas datas essenciais, apontar esses momentos secretos que arrancam a história ao seu recato. O problema é que, de há muito, vem faltando uma zona interior à arte, e aqueles que nela se movem como turistas num museu, num ambiente de fanfarra, esquecem o que disse Walter Benjamin, que esse interior é o asilo onde se refugia a arte. De ora em diante, caberia ao ocupante dessa zona o papel de “transfigurar os objectos”. Coleccionando-as, pondo-as em relação, caber-lhe-ia “essa tarefa de Sísifo de retirar às coisas, pelo facto de as possuir, o seu carácter de mercadoria”. Benjamin adverte, no entanto, que só lhe é possível “conferir-lhes o valor que elas têm para o amador, não o seu valor de uso”. Assim, “o coleccionador revê-se a sonhar um mundo não apenas longínquo e morto, mas ao mesmo tempo melhor; um mundo onde o indivíduo está tão desprovido do que precisa como no mundo real, mas onde as coisas são libertadas da servidão de serem úteis”.
 
Ao ser-nos proposta uma antologia de “seis poetas de agora”, um dos primeiros equívocos com que nos deparamos prende-se com uma incapacidade de derramar nas páginas que se seguem uma luz íntima, de tal modo que o tempo não é questionado, o carácter ilusório que cada vez mais faz dele uma identidade impossível não é reconhecido. E se não se fala nessa desilusão cai-se nesse registo de imitação, o de uma persistente publicidade em que até o “agora” do título nos surge como um dado adquirido, uma formulação genérica, como se este não fosse hoje precisamente um campo de batalha, um regime invasor que desterra o passado e adia por tempo indeterminado o futuro.
 
Se qualquer antologia tem um carácter exploratório, tenteante, aquilo que a esta falta é um atrevimento que desdobre os seus argumentos de tal modo que estes nos surjam como ousados. Partindo de um fragilíssimo enunciado, Ricardo Marques assina uma nota prefacial que, eximindo-se de um exame crítico das condições políticas, históricas e sociais que determinaram o ambiente em que terá eclodido a “novíssima geração” de poetas portugueses, não deixa de fazer soar essas cornetas – a pressão de “uma mundividência neoliberal sobre a cultura” – que parecem apontar a um cenário perfeitamente identificado e que o liberta de firmar um sentido, por mais fraco que seja, de um conteúdo messiânico no grito desta geração. Deste modo, submetendo-nos a uns vagos predicados, que se escusa a articular ou alicerçar de forma minimamente séria, o argumento que preside a esta antologia é mais um meter os papéis um tanto à balda na secretaria a ver se a funcionária, mal paga e sem paciência para se agastar com inanidades líricas, por boa-vontade, lhe carimba os impressos. É, assim, seguindo um princípio de inércia que o antologiador, depois de nos propor uma aliciante chave – a de que “já não dá para ser moderno” – despacha a coisa sem o menor zelo, explicando que os seis poetas que ali reuniu estão simplesmente “além do moderno”. E o moderno é aquilatado ao modernismo nessas típicas, tão vastas e monstruosas empolações, que se revelam ênfases do nada, de uma charlatanice conceptual, em que basta levantar uma nuvem de pó com ecos enfiados pelo meio para sugerir alguma agitação e, assim, dar de frosques antes que alguém se lembre de perguntar de quem são as cuecas sujas deixadas sobre o projector de slides.
 
Se nos diz que “falar de Modernismo em 2020 parece um pouco anacrónico”, Marques sugere que se tome a coisa num sentido lato, para que se possa admitir que “o Modernismo sempre existiu em todas as eras quando se dá uma ‘accelerated societal change brought about by a combination of new Technologies, knowledge revolutions, state formations and expanding intercultural contacts [that] contribute to radical questions and dismantling of traditional ontologies, epistemological, and institutional structures’”. Este tem de ser o mais glorioso exemplo desse acto de prestidigitação que passa por varrer o assunto para debaixo do tapete de uma citação suficientemente labiríntica para iludir a audiência e escapar à prova dos nove. A coisa vem assim mesmo, em inglês, com uma nota de rodapé, que atribui a frase a Susan Stanford Friedman, de quem até o nome parece um selo de garantia. Impossibilitado de se safar através de um esquema de outsourcing no que toca a sinalizar “o traço dominante que possa unir estes nomes”, ou seja, os seis poetas antologiados, Marques diz que a verdadeira característica desta geração é precisamente a dificuldade de se estabelecer qualquer consenso, por estarmos perante “uma geração que não se assume contra outra, nem em torno de um manifesto/revista/grupo, mas que se assume individualmente, em nome próprio, talvez pela primeira vez em muitas décadas”. Assim, apontando a um “caudal heterogéneo de nomes”, o antologiador só precisa de apertar o crachá de crítico contra o nariz do leitor e seguir caminho, deixando ao lume uma sopa da pedra, um caldo que, para nossa surpresa, consiste nisso mesmo: água e umas pedrinhas. Diz-nos que houve uma mudança do humano que foi sentida na poesia portuguesa nesta segunda década do século XXI, e que “o principal vértice desta mudança, ou pelo menos, o catalisador fundamental foi a massificação da internet, que contamina e aproxima tudo e todos: autores, editores e leitores”. Para juntar um fio de azeite à coisa, aponta também ao espectro da crise económica e a recessão provocada pelo crash de 2008 que “atirou definitivamente o mundo para um outro estádio sem paradigma, algures entre uma crítica à economia neoliberal e o desejo de uma revolução que nos leve de volta à natureza, ao básico, ao mais ínfimo e ao mais individual, longe de megalomanias épicas”. Se tudo isto parece uma salsada é porque o é, e a antologia que se segue diz menos sobre uma pretensa “novíssima geração” do que sobre uma certa ideia de produção em que tudo é pensado para ocupar um espaço num futuro índice de publicações, de estudos, de traduções, de obras originais.

Ricardo Marques só pode ser descrito como um desses autores prolíficos, autores que estão sempre de esperanças, que vão parindo sem nem precisarem de se deitar, que simplesmente seguem de umas para as outras, e que vivem nesse aborrecimento de só os amigos serem inteligentes, trocando as afinidades electivas pelas afectivas, impondo o consórcio, a lógica da pandilha, uma espécie de Instituto de Socorros Mútuos.
 
Assim, ao invés de pretender firmar essa “linha de água que suporta e separa os dois mundos e ondula” (Cesariny), vem-nos dizer que o Modernismo já não “serve de grande coisa enquanto conceito”, até porque nestas propostas, garante ele, já não há qualquer escândalo, e, talvez por isso, também já não será indispensável propor textos que realmente forcem sem limites a nossa imaginação, basta andar por aí e alvitrar umas coisas, dizer que “‘a cena é o poema da recusa em não em cena estar’ (Sónia Baptista) ou que, ironicamente, ‘[na literatura que finge] o que importa é fingir uma pose’ (Raquel Nobre Guerra)”. O facto é que, com a excepção de Elisabete Marques, nos outros cinco poetas Ricardo Marques parece encontrar cúmplices neste esforço “para provar que este mote é só um meio de porte” (RNG).

Se em Álvaro Seiça o antologiador nos diz ter encontrado  “um seguro experimentalismo”, talvez isso se enquadre numa certa falta de risco, sendo difícil encontrar nos textos seleccionados algo que escape à mais espúria oralidade, um registo que, se parece desafiar “graficamente a estrutura clássica do verso”, não consegue em qualquer momento lançar-se em digressões furiosas dentro ou à margem da tradição, ficando a mancha textual como pouco mais que um bando disperso de charcos reflectindo os dias. É nos versos de Elisabete Marques que vamos encontrar algumas pistas para dilucidar esse efeito de perda de um acento agudo capaz de desintegrar o presente. “Nunca a gramática foi tão quotidiana”, diz-nos um deles. E à volta, tudo parece anuir. E o que falta? Um apontamento que registe algo de banal e faça tremer o chão debaixo dos nossos pés, estremecendo com ele o pensamento. Um exemplo: “A morte da mosca, escreveu/ Duras, num apontamento, e evocava/ a inexplicável visão de um corpo/ azul-negro contra a parede/ da casa. Tão mínimo acontecimento/ era o terror inteiro a morder/ toda a compreensão do mundo./ Ao fundo da sala, o riso e o pulso.”

Na maioria das páginas deste sóbrio e elegante volume, com selo da editora Flan de Tal, falta até isto, esse registo simples, directo, capaz de captar “o sabor da gravidade” ou de outras leis físicas. A própria sensação do mundo se dilui, não se consegue extrair nenhum conhecimento ou sequer a experiência que foi o caroço em volta do qual se teceram os poemas mais representativos da poesia portuguesa na primeira década deste século. Parece haver, assim, para quem tome o pulso desde o fundo da sala, e tomando como exemplo a selecção que Marques nos oferece da década subsequente, um retrocesso, em que a poesia, em vez de ser o idioma dos primitivos de uma era nova, se tornou o zumbido dos últimos de uma era defunta deliciados com um qualquer cadáver dos tantos que ficam por aí a servir de sinalética no trânsito acelerado dos nossos dias. Enquanto isso, se também hoje as estações se apagam umas contra as outras, na suposta crítica à economia e ao tão aludido regime neoliberal, o que mais vemos impor-se são as “primaveras de sarcasmo” (Mário de Andrade), ouvimos também como “gemem sangues de alguns milréis fracos”, esses mesmos que, pretendendo furtar-se ao regime de caducidade geral, tanto mais se aplicam na criação de “formas mortais” desprovidas de assombro. Assim, já nem faltam os poetas “que algarismam os amanhãs”, e sinal desse registo acomodado é a forma como se traficam “sempiternamente as mesmices convencionais”.
 
Numa altura em que se confunde o exercício da poesia com a sua celebrização, em que a internet promove esse nivelamento, essa indistinção de tudo, ao invés de a poesia se lançar sobre um “território inédito”, o que se sente é uma falta de avidez, e talvez fosse recomendável, precisamente, trazer de volta o ímpeto que animou o modernismo, o seu grito que mandava parar o comboio, que apanhava o tempo entre as estações, aplicando-se em passar-lhe a perna, fintá-lo, mas também em evadir-se, tomar lições com o delírio e a indisciplina, deixar-se comover brutalmente, ter o lirismo como algo que nos compromete com a insurreição. Esse sobressalto que já não ficava sentado na secretária contentando-se em apurar um rigorismo gramatical que embosca, que leva a essas “aristocracias cautelosas” que hoje se identificam com as coisas da arte. Em vez de todo esse cerimonial melancólico, havia ali um desejo profundo, senão de provocar escândalo, ao menos de esporear a imaginação, levantar praça: “Todos para a Central do meu rancor inebriante”, clamava Mário de Andrade, exaltando um “ódio aos temperamentos regulares”, às intelectualices clínicas, ao omnipresente cálculo e às conveniências de toda a ordem. Mas, hoje, se já não dá para ser moderno, parecemos condenados a estes em quem cresce “o gosto pelo momentâneo” e que respondem apenas a um comando: “Eia, não pares nunca. Este é o imperativo” (Elisabete Marques). E, então, a mais das vezes, no poema engole-se uma mosca, mas em vez de mordê-la e as suas partes repulsivas, encontrando nelas algum paralelo para a compreensão do mundo, estas moscas sabem a rebuçados de mentol. Qualquer dos poemas de F.S. Hill aqui reunidos são um bom exemplo dessas sopas de cavalo cansado. Eis um exemplo tão característico do tipo de apontamento que, hoje, passa por poesia: “Para falar verdade/ interessam-me pouco as datas de nascimento/ Já nasci e morri tantas vezes/ que seria inútil fixar-me a um tempo/ que não é meu/ e depois a contabilidade é uma merda/ livro razão sem sentido e sem tesão/ mais vale inventariar pentelhos/ Sim/ despe-te amor/ o sol ruge”.
 
É esta remastigação quase burocrática de velhos motes o que vamos encontrando nestas páginas e que são um reflexo indistinto de tantas outras. E é neste sentido que a presente antologia não deixa de ter algum mérito como balanço, sendo, por outro lado, e de forma perversa, ainda mais interessante no aspecto em que participa num trabalho de ocultação das vozes que realmente foram marcando uma viragem num discurso em que a crítica é feita pela subversão das imagens, pela devastadora inteligência de gramáticas que já não se acrisolam enquanto transmissão de experiências quotidianas, mas se tornam diários densos e tumultuosos da vida naquele asilo a que se refere Benjamin. É nessas raras vozes que há alguma promessa, algum factor messiânico, vozes que têm sabido, mesmo que discretamente, traduzir um acordo de ritmo construtor e destruidor de mundos, em experiências de refundação do idioma, impondo-se num confronto enérgico com o regime mendicante, o ambiente de conventículo das letras, este em que grassam as trocas de favores, estes expedientes de auto-promoção que tornaram o meio literário tão patético e irrelevante.
 
Podíamos abrir ao calhas nas páginas onde se recolhem os outros poetas, e o que avultaria não é tanto uma heterogeneidade como uma conformidade de tom, uma insossa rebaldaria, a qual nos faz pensar o quão longe está esse movimento que, por conivência, se diz ser vibrante, com o aparecimento de novas vozes por toda a parte, num ambiente frenético de produção, de embaratecimento e saldos que nos procura criar essa sensação de se atravessar as fileiras bem abastecidas de um supermercado, em que a própria abundância nos comove, a forma como “tudo é barato e simples e óbvio e comestível”. E, então, lembramo-nos do diagnóstico feito por Cesariny há mais de meio século, notando que a literatura portuguesa actual “é não só a que enfrenta, e representa, algumas das piores condições em que pode gorar-se a literatura, como é também, ela própria, a pior possível. Ela vai lançada numa corrida cuja meta foi há muito retirada da pista. Não quer dizer que não continue a correr – em círculo – acertando, de quando em onde, nalgumas metas falsas postas pela necessidade da organização e pela decência em que há que conter o público. Tão pouco nego a existência dos talentos – mas uma literatura de talentos é a forma mais degradada que pode assumir uma literatura”.
 
E assim somos levados a pensar nas condições que têm promovido este ambiente de supermercado, a perceber que qualquer crítica literária tem de começar por compreender o próprio regime de produção, esta lógica da caducidade e o prazo de validade que os produtos literários hoje exibem à maneira dos iogurtes. E, no caso específico da poesia, se Ricardo Marques sugere que estamos a viver um momento de expansão, falando numa suposta explosão que ocorreu em 2013, com editoras a preencherem o mapa de norte a sul, numa repovoação ideal, por sinalizar um alargamento de horizontes, convém tirar o apito da boca para se falar destas coisas, e perceber como as pequenas editoras ou micro editoras que, de momento, dividem entre si o mapa e o território da poesia, acatam meramente os termos de uma rendição incondicional, sem alguma estratégia para conquistar posições noutra banda, sem o menor afinco em cartografar uma nova experiência de leitura destes tempos novos, no fundo, sem negociar mais que cuidados paliativos, como já foi notado. E exemplo disso mesmo é a impostura desta antologia, que, do ponto de vista de uma função crítica, não apenas se furta por todos os meios a um exame aturado das circunstancias de produção e circulação da poesia nos nossos dias, mas vem tomar o cadáver nos braços e arrastá-lo para uma triunfal valsa sem consciência do registo de paródia que nos serve. Anima-se ao celebrar o horizonte tomado pelos fogos de artifício e miragens que é a divulgação de poesia na internet, o qual certamente alcança hoje um público bem mais vasto, mas que se exprime por meio de likes e tanto lhe dá que lhe sirvam Fernando Pessoa ou frases motivacionais do mais ordinareco livro de auto-ajuda.

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