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"Bugiganga" vendida em feira de garagem revela-se uma herança da Dinastia Ming

"Bugiganga" vendida em feira de garagem revela-se uma herança da Dinastia Ming

Sara Porto 08/03/2021 20:10

Comprada por 35 dólares numa feira de velharias em New Haven (EUA), uma tigela de porcelana de 16 centímetros em forma de botão de lótus irá a leilão em Nova Iorque com um valor entre os 200 mil e os 400 mil euros. Não é caso único de uma obra-prima encontrada num local improvável.

Uma peça a que ninguém deu grande atenção ao longo de gerações, está a entusiasmar os especialistas em porcelana chinesa antiga. A história começa na cidade de New Haven, estado do Connecticut, EUA. No ano passado, um frequentador assíduo de feiras de velharias e antiguidades encontrou numa venda de garagem um objeto que lhe chamou a atenção: uma pequena tigela de porcelana branca com flores e figuras pintadas a azul cobalto.

A sua intuição dizia-lhe que a tigela era especial, mas estava longe de imaginar até que ponto estava certo. Comprou-o por 35 dólares, cerca de 30 euros, e enviou fotografias para a casa de leilões Sotheby’s de Nova Iorque solicitando uma avaliação.

Ao analisarem as imagens, os especialistas de cerâmica e arte chinesa Angela McAteer e Hang Yin não tiveram dificuldade em perceber que se tratava de uma peça muito rara. Segundo a Sotheby’s, a tigela de porcelana branca, devido ao seu formato de botão de lótus, é apenas uma de sete deste género conhecidas em todo o mundo, a maioria das quais pertence a museus.

“O estilo da pintura, a forma da tigela e até a cor azul dos pormenores são características daquele período da porcelana chinesa no início do século XV”, explicou McAteer, diretora do departamento de arte chinesa da Sotheby’s Nova Iorque, em declarações à Associated Press.

O olhar treinado dos especialistas confirmou que a tigela foi feita durante o reinado do imperador Yongle, o terceiro da linhagem da dinastia Ming, que governou desde 1403 a 1424, um período conhecido pelas técnicas distintas na produção de porcelana.

Segundo a leiloeira, a tigela é um produto Yongle por excelência e exibe “a combinação marcante de um material soberbo e de uma pintura com estampas levemente exóticas que caracterizam a porcelana imperial desse período”.
McAteer, em declarações à CNN, descreveu que o corpo de porcelana é “incrivelmente liso” com um “esmalte sedoso realmente untuoso”. As cerâmicas da dinastia Ming são famosas pela sua porcelana branca de titânio, um dos pigmentos brancos mais apreciados ​​pelos artistas ao longo da história e pelo azul cobalto das suas pinturas. As peças eram produzidas em fábricas em Jingdezhen, no Sul da China, que durante séculos forneceram delicadas porcelanas aos imperadores Ming e Qing. No início do século XIV, a indústria de produção de cerâmica teve um boom graças à encomenda de uma ampla gama de objetos para corte, a mando do imperador Yongle, que desejava exercer um maior controle governamental sobre os fornos em Jingdezhen.

Não se conhece o percurso da tigela até chegar à feira de velharias. Os especialistas da Sotheby’s presumem que o objeto terá passado de geração em geração da mesma família, sem que algum dos herdeiros calculasse a sua importância e valor. Agora, a peça de aproximadamente 16 centímetros de diâmetro vai à praça no dia 17 de março, numa venda integrada na “Semana da Ásia”, com um preço estimado entre 300 mil e 500 mil dólares, aproximadamente 200 mil-400 mil euros.

O ovo perdido da imperatriz Maria Feodorovna O caso da porcelana Ming descoberta numa venda de garagem não é inédito. Em 2014 o protagonista de uma história de contornos semelhantes – mas que envolveu valores ainda mais impressionantes – foi um ovo de ouro Fabergé. 

O objeto foi adquirido num mercado do Midwest americano por 14 mil dólares (mais de 11 mil euros). O comprador, que preferiu não revelar a identidade, tinha a intenção de o vender posteriormente com lucro. Durante algum tempo tentou encontrar quem lhe comprasse o objeto, mas sem sucesso. Pensou então desmontar a peça e vender o ouro, mas percebeu que o valor do metal precioso não chegaria para cobrir o seu investimento. Um dia, pesquisando na internet qual podia ser o seu real valor, a inscrição “Vacheron Constantin” no relógio no interior fê-lo suspeitar de que se tratava do ovo perdido da imperatriz Maria Feodorovna.

O Terceiro Ovo Imperial de Páscoa é uma peça saída da oficina de Peter Carl Fabergé como um presente do Czar para a imperatriz Maria Feodorovna na Páscoa de 1887. Os Romanov tinham o hábito de oferecer estes requintados objetos durante o período festivo.

A joia de 8,2 cm de altura é feita de ouro e cravejada de diamantes e safiras. Tinha sido vista pela última vez em 1902 em São Petersburgo. Depois da tomada do poder pelos bolcheviques durante a Revolução Russa de 1917, foi parar misteriosamente nos Estados Unidos.

Após a descoberta, o afortunado comprador contactou o especialista na ourivesaria de Fabergé Kieran McCarthy, e voou para Londres.

O antiquário londrino Wartski acabou por comprar o objeto, avaliado em 27 milhões de libras esterlinas. O ovo que esteve para ser desmantelado para se retirar o ouro encontra-se exposto na sala de exposições de Wartski perto de Bond Street, uma artéria da capital inglesa conhecida pelo seu comércio de luxo. A peça encontra-se num suporte de ouro apoiada por pés de pata de leão, três safiras suspendem guirlandas douradas ao redor, e um diamante serve de mecanismo de abertura que revela o relógio Vacheron Constantin que se encontra no seu interior.

Um quadro do século XIII no meio dos fogões Os acidentes da história levam por vezes os tesouros da arte por caminhos improváveis que não passam pelos grandes museus ou as residências dos milionários.
Em 2019, uma simples mudança de casa levou uma família que residia em Compiègne a fazer um pedido de avaliação de peças de arte à leiloeira francesa Philomène Wolf.

À vista de todos na cozinha, em cima de um fogão elétrico, os funcionários da leiloeira depararam-se com um pequeno painel de madeira ricamente trabalhado, sem assinatura, que retratava uma cena da Paixão de Cristo. Medindo apenas 24 centímetros por 20 e pintado em têmpera de ovo, o quadro apresentava características da obra dos artistas da Idade Média tardia conhecidos por primitivos italianos. Seguindo a sua intuição, Wolf levou a tábua a Eric Turquin, um proeminente especialista em mestres da pintura antiga com sede em Paris. A avaliação do quadro permitiu atribuí-lo a Cimabue, o lendário mestre florentino cujas obras conhecidas são imensamente valorizadas. Nunca uma pintura sua tinha sido leiloada nos tempos modernos.

A 27 de outubro de 2019, oito concorrentes disputaram esta rara pintura de Cimabue na leiloeira Acteon. O quadro, que representa Cristo a ser escarnecido, foi vendido por 24 milhões de euros, um novo recorde mundial para uma pintura medieval vendida em leilão.

* Editado por José Cabrita Saraiva.

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