12/4/21
 
 
Carlos Gouveia Martins 05/03/2021
Carlos Gouveia Martins

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20 anos de Entre-os-Rios e muitas mais décadas de exemplo político sem vacina

Esta quinta-feira, dia 4 de março, assinalaram-se 20 anos sobre a trágica queda da ponte que ligava Entre-os-Rios a Castelo de Paiva. Ao rio Douro caíram três automóveis e um autocarro, resultaram 59 mortos.

Uma perda humana que nunca tem idade ou perde valor para os familiares, amigos e conhecidos de todos os que ficaram sem vida naquela noite fria. Uma noite que, recolhendo registos à data, coincidiu em época de fortes chuvas e mau tempo entre o distrito de Aveiro e o distrito do Porto. Por mais que se diga ou escreva, essas linhas de palavras nunca vão substituir nada nem ninguém. Seja 2, 10 ou 20 anos depois.

Naquele ano de 2001, esta tragédia mobilizou a política nacional. Desde logo o então Presidente da República em exercício, Jorge Sampaio, e o Primeiro-ministro de então, António Guterres. O Governo decretou dois dias de luto nacional pela terrível perda humana resultante da queda da ponte Hintze Ribeiro.

Porém, há algo que ficou igualmente para a história política desde 2001 até hoje (e continuará). Na sequência da queda da ponte, o então Ministro do Equipamento Social, o socialista Jorge Coelho, pediu demissão do Governo assumindo a “responsabilidade política” pelo acidente e tornando público que “não ficaria bem com a minha consciência se não o fizesse” este pedido de demissão de funções governativas.

Mas, friamente o então ministro Jorge Coelho teria culpa, técnica e prática, na queda do quarto pilar que fez ruir o tabuleiro da ponte e viu ceifar a vida a perto de seis dezenas de portugueses? Sem demagogia intelectual é possível afirmarmos prontamente que: Não, não tinha. Tinha tutela administrativa sobre quem acompanharia, naquela legislatura, também este tipo de processos associados à recuperação e preservação deste e de outros equipamentos afetos ao Estado português.

Naturalmente, entendemos todos, é fácil apontar o dedo afirmando que a antiga ponte carecia de uma vistoria e, à luz dos populares, era vista por quem a frequentava como estando em muito mau estado de conservação. É o que hoje podemos ouvir, recorrendo a arquivo, de várias peças informativas levadas a cabo sobre aquele equipamento. No entanto, é um erro técnico de acompanhamento que não sabemos se começa inclusive anteriormente ao mandato de ministro de Jorge Coelho e, sobretudo, à data era assunto que estaria longe da esfera de ação direta desse ministro.

Mesmo assim, saiu por consequência política. E que bem fica na memória este, infelizmente escasso, exemplo bom de um dirigente político.

É um exemplo de elevação política que perdurará na memória de quem gosta de política com sentido de Estado.

Muito mudou o mundo entre 2001 e 2021. Na política também há muita coisa que mudou. Desde logo, à cabeça, será que à data de hoje um Ministro pediria a demissão por uma tragédia humana destas que “simplesmente” fosse da sua tutela?

Podemos recordar facilmente os incêndios com perda humana e material em Pedrógão Grande, o caso mais recente de violência associada ao SEF ou ainda os lapsos no currículo para Procurador Europeu. Deu pedidos de demissão de ministros? Não. Nenhum desses ministros apressou-se a avaliar as consequências políticas e a sair do cargo que ocupa. Foi mais forte o estigma de sobrevivência política que, a bom da verdade, também quem lidera o Governo não foi capaz de contrariar.

Mas não é só na esfera governativa central que existem os “agarrados” ao cargo.

Atualmente, vivemos de manchetes que comprovam a abertura de inquéritos em torno de titulares de cargos públicos que, no caso do plano nacional de vacinação que decorre em consequência da pandemia, podem (ou não) ter atuado com abuso de poder na toma indevida de vacinas.

Houve casos de impraticabilidade no plano nacional de vacinas para a doença COVID-19, de Autarcas, dizia, mas também conhecidos esses “feitos” por outros dirigentes.

Primeiro, na linha cronológica desses casos (curioso ser 99% todos iguais), esses responsáveis e titulares de cargos públicos, justificaram o seu próprio erro (primeira hipótese) ou saíram do cargo em virtude da consequência do seu dito erro (segunda hipótese)? Óbvio que escolheram a primeira hipótese que, também, salvaguarda as suas sobrevivências políticas nos cargos que ocupam.

De facto, em 2021, faz muita falta na classe política a mesma elevação que o então ministro Jorge Coelho, no “longínquo” 2001, demonstrou no cumprimento das suas funções governativas. Não foi caso único.

Em 2014, Miguel Macedo apresentou demissão afirmando ver a sua “autoridade diminuída” embora já se saiba que não tinha nenhuma responsabilidade no caso dos vistos Gold. Em 2019 foi totalmente absolvido de culpa de todos os crimes, porém, neste caso (diferente do outro), viu-se julgado em praça pública injustamente. Porém, ao contrário de tantos outros (muitos neste governo), assim que viu a sua tutela atingida, tomou consequências políticas e mostrou desprendimento de lugares. Foi o mais recente exemplo de elevação política que a classe política deu, pós-Jorge Coelho.

São essas ações que trazem credibilidade. São esses agentes políticos – que sem ter culpa colocam o interesse dos cidadãos e do Estado acima dos seus próprios - que conseguem fazer com que os eleitores acreditem e respeitem a democracia. São esses governantes que fazem falta para impedir todos e tantos aqueles e aquelas que vivem de carreirismo político e agarradíssimos ao lugar (custe o que custar, com mais ou menos erros conhecidos).

São as ilações positivas que tiramos, também, de casos negativos e tristes como Pedrógão, o SEF e, claro, a tragédia de Entre-os-Rios.

Fica na história, resta saber reescrever bons exemplos com base no que de positivo se possa tirar.

 

Carlos Gouveia Martins

 

 


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