8/5/21
 
 
António Luís Marinho 05/03/2021
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

Alcochete? Peut être!

É uma sina bem portuguesa. A incapacidade de decisão, a navegação à vista, ao sabor dos ventos da opinião pública.

“Enquanto adiamos, a vida passa por nós a correr”. Séneca

A frase do então ministro das Obras Públicas, Mário Lino, proferida em 2007, ganhou estatuto de entrada direta na história do vocabulário político português, embora utilizasse uma palavra francesa: “Em Alcochete, jamais!” 
Na verdade, a frase foi: “Na Margem Sul, jamais”, citando especialistas que tinha consultado. 

Para o ministro do Governo de Sócrates, a Margem Sul era um “deserto” e, por isso, o tão desejado novo aeroporto de Lisboa nunca seria construído naquela localidade. Mário Lino preferia a Ota. Durou pouco, entretanto, essa decisão inabalável. Poucos meses depois, em janeiro de 2008, Sócrates, com Mário Lino ao seu lado, anunciava que o novo aeroporto de Lisboa seria construído …. em Alcochete e que poderia estar concluído em 2017.

Nessa altura, o socialista João Cravinho foi uma das vozes que se ergueu contra a decisão, afirmando que a opinião pública tinha sido manipulada e que interesses económicos se escondiam por detrás da decisão tomada. 
Na verdade, esta verdadeira novela da construção do novo aeroporto de Lisboa já dura desde 1958, isto é, 26 anos depois da inauguração da Portela. A primeira hipótese apontava para Rio Frio, na Margem Sul do Tejo.

Segundo um estudo publicado pelo investigador Nuno Marques da Costa, do Centro de Estudos Geográficos, o processo foi relançado já depois da revolução de 25 de Abril, em 1978, mas apontando a Ota como local preferencial. Em 1999, depois de realizados estudos de viabilidade económica e ambiental, a Ota continua a ser o local escolhido para a novo aeroporto. 

Em 2007, o local é posto em causa por outro estudo, desta vez da Confederação da Indústria Portuguesa – CIP, e o local preferencial passa a ser o Campo de tiro de Alcochete. O Laboratório Nacional de Engenharia Civil – LNEC passa a coordenar outro estudo, desta vez o da avaliação das duas opções e, como conclusão, confirma Alcochete como o local mais vantajoso. Três anos depois, em 2011, a conclusão é alterada pelo Governo e decidida a opção Portela +1. Um ano depois tudo fica adiado.  

Não se sabe bem o que se gastou já em estudos e contra-estudos. Sabe-se que foram dezenas de milhões de euros. 
O Governo de António Costa garantiu no ano passado, depois de mais estudos, que a solução mais viável, e definitiva, seria o Montijo. Na altura, o então ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, afirmava, contra a opção Alcochete: “Não temos recursos financeiros para financiar essa solução. Teria que ter um TGV e uma terceira travessia do Tejo para permitir uma chegada rápida dos passageiros a Lisboa. E quando custa isso?”. Pois bem, o que resta agora? A opção Alcochete volta a ser equacionada. 

É uma sina bem portuguesa. A incapacidade de decisão, a navegação à vista, ao sabor dos ventos da opinião pública, dos lobbies e de todos os interesses em jogo. Falta agora colocar a cereja no topo do bolo: aprovar uma lei que altere o direito de veto das autarquias, afastando assim este empecilho do poder local.

Precisamos mesmo de um novo aeroporto? Quantos estudos já o confirmaram? Acreditando que sim, já só nos resta recordar a frase escrita na parede do pontão, construído em 1977, para dar apoio às obras de Alqueva, outra novela portuguesa: “Construam-me porra!”

 


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