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Walter Ferreira. A estrela negra do Estrela Vermelha

Walter Ferreira. A estrela negra do Estrela Vermelha

Afonso de Melo 03/03/2021 21:49

O ponto mais alto da carreira de Walter foi em Paris, no Red Star. Já muitos o esqueceram injustamente. Era dos espíritos mais livres que jamais passaram pelo futebol.

Falar do Walter Ferreira para mim é fácil. Fomos amigos, dos bons, camaradas de episódios que só ele era capaz de provocar. Houve tempos em que não havia semana que não me aparecesse para almoçar ou me telefonasse apenas para me contar uma daquelas histórias à Barão de Münnchausen que entre a verdade e a fantasia o fio era tão ténue como o nylon da sediela.

Já não há muitos que se recordem de Walter Caetano Carvalho Ferreira, nascido em Luanda em 28 de fevereiro de 1946 e isso é absolutamente injusto. Como foi injusta a forma como morrreu, em Luanda, miseravelmente encarcerado, irrevogavelmente doente. Chegou miúdo a Lisboa, para o Sporting, para jogar nos juniores, ainda muito garoto, e rapidamente arranjou sarilhos com o treinador Juca, ao ponto deste, certa vez, o ter enviado de urgência para o hospital Júlio de Matos. Avançado peitudo, tinha tudo para dar certo. Mas não havia espaço para o rapazinho em Alvalade. O Sporting emprestou-o ao Varzim. Não fez muitos golos, mas continuava a exibir a sua veia cínica, de um humor refinado. Passeava-se na marginal com um molho de notas amarrado a um dos calcanhares. Quando alguém estranhava a tonteria, dizia. “Andei a vida toda atrás do dinheiro e agora é a vez ele andar atrás de mim”. Passou pelo Belenenses e, na época de 1971-72, estava em Paris. Era precisamente aqui que eu queria chegar. No Red Star viveu meses aflitivos, com o clube sempre nos lugares mais baixos da tabela. Walter não era homem para se deixar ir abaixo. Volta e meia, quando estava numa fase de gabarolice, que eram frequentes, tirava da carteira um recorte da primeira página do L’Équipe que berrava: “Ferreira à sauvé Red Star!” Era a sua espécie de às de trunfo...

 

O salvador!

O jogo de maior orgulho de Walter Ferreira cumpre agora, no próximo 26 de junho, 50 anos. Última jornada do capeonato, deslocação ao campo do Valenciennes que estava, igualmente, com a corda na garganta, tendo a vantagem de o empate jogar a seu favor. Walter estava-se nas tintas para isso. “Disse a quem me quis ouvir que as vozes de África me segredaram a vitória ao ouvido. Não acreditaram em mim. Tanto pior. Estivemos a perder por 0-1 e, em seguida, marquei dois golos”, ouvi-o contar certa vez. As macumbas levou-as com ele para o túmulo. As manchetes ficaram por sua conta num tempo em que Paris tinha o Red Star e o Racing e o PSG ainda nem sequer fora fundado: “Ferreira en Vedette Américaine!”; “Walter a endossé le Cosume de Sauveur”; “Le Red Star sauvé par deux buts de son Portugais!”; “Pour Walter?! Hip-Hip-Hurrah!”

Walter sempre foi um inquieto. Tinha tantas ideias, algumas tão disparatadas (quando se tornou empresário de futebol andava de madrugada nas paragens de autocarros a escolher os negrões de marmita que iam para as obras e prometia transformá-los em grandes jogadores) que não havia como domar o seu espírito absolutamente livre.

De França seguiu para os Países Baixos e jogou no Voleendam, tendo batido o Ajax de Johan Cruyff na época de 1972-73. Depois seguiu para o Willem II e daí para a Bélgica e Alemanha, jogando no Antuérpia e no Wuppertaler, respetivamente. O seu regresso definitivo a Portugal deu-se sem grande brilho como jogador – Portimonense, Sanjoanense, Estrela da Amadora e Ermesinde – mas saiu dos relvados de peito empinado como andava sempre. Quando foi treinador do Fátima ia eliminando o Sporting da Taça de_Portugal, ganhando fora por 2-1 e, depois, perdendo em casa por 2-3. No final do jogo de Alvalade, na sala de imprensa, perguntou aos jornalistas: “Vieram cá para ver o leão, mas nós dominámos o leão. O único leão que deixei ver é este” – e virou-se de costas mostrando um enorme leão desenhado na camisa. Não perdia o momento em que o palco fosse dele.

Falar de Walter Ferreira é fácil. Esquecê-lo é impossível. Mas o tempo foi passando e já não há assim tantos que possam recordá-lo.

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