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Marina Tsvietaieva. “O meu leitor nascerá daqui a cem anos”

Marina Tsvietaieva. “O meu leitor nascerá daqui a cem anos”

Rita Homem de Mello 03/03/2021 15:08

O marido descreveu-a como alguém que se atirava de cabeça para o furacão. Pasternak disse que ela viveu uma vida heroica. Marina Tsvietaieva enforcou-se em 1941 e, ao ler as cartas de Meu Irmão Feminino e «Noites Florentinas», também o leitor sentirá o nó a apertar-se à volta do pescoço.

 

Quando Marina Tsvietaieva escreveu Meu Irmão Feminino e «Noites Florentinas» tinha precisamente a idade que tinha a sua mãe quando morreu.

É um livro para ser decantado como um poema, ao jeito da última carta que escreveu a Rilke. Borra e corpo, líquido e segmentos, exílio e amor, revolução e perda, sangue e festa. “A minha festa na vida são os versos.” E sobre eles escreveu: “Os meus versos são um diário íntimo. A minha poesia é uma poesia de nomes próprios.” 

Pois bem, neste livro encontramos todos os nomes próprios de Marina. O do seu país, o dos seus irmãos, o da sua mãe, o das suas filhas, de Serguei Efron, seu marido, o da poeta Sónia Parnok, o mais forte dos seus amores homossexuais, o de amigos de infância, mas também o de críticos, do belo editor Heine, de outros poetas seus contemporâneos e de muitos lugares. São nomes que semeiam diferentes testemunhos biográficos de Tsvietaieva, da sua consciência poética, da sua geografia, da sua melancolia meteórica, da sua fisionomia, do seu tempo - “O meu leitor nascerá daqui a cem anos”, escreveu -, de si própria enquanto mulher, amante, poeta e mãe. 

“Ariadna Efron: - A minha mãe: a minha mãe é muito estranha. A minha mãe não se parece com uma mãe. As mães admiram sempre os filhos, e os dos outros, e Marina não gosta de nenhum filho. Tem cabelos castanhos-claros, que aos lados são frisados. Tem olhos verdes, o nariz curvo e lábios rosados. É magra e alta, e gosto dos seus braços. O seu dia preferido é o da Anunciação. É triste, viva, gosta de Versos e de Música. Escreve versos. É paciente, suporta sempre tudo até ao fim. É arrebatada e apaixonada. Está sempre com pressa. Tem uma grande alma. Uma voz suave. Um andar ligeiro. Marina tem os dedos cheios de anéis. Marina passa as noites a ler. Os seus olhos são quase sempre trocistas. Não gosta que a aborreçam com perguntas tolas, e fica muito zangada. Às vezes anda de um lado para o outro, perdida, e depois parece que acorda de repente, e depois fica outra vez como se quisesse ir não sei para onde”.

Tão verdadeiro e íntimo como este testemunho da filha mais velha, também poderá ser o do marido. Nele podemos ler: “Marina é uma criatura de paixões. Agora mais do que anteriormente. Atirar-se de cabeça ao furacão fez-se para ela uma necessidade, o ar da vida. Não tem importância quem hoje é a causa que desencadeia o furacão. Quase sempre (hoje exatamente como antes), ou melhor, tudo se constrói sob uma ilusão. Uma pessoa é imaginada, e o furacão desencadeia-se”.

Meu Irmão Feminino e «Noites Florentinas», editado pela Sistema Solar em Novembro último, foi traduzido a partir dos originais franceses por Aníbal Fernandes. Dividido na primeira parte em cinco curtos capítulos, desata como que em pequenos nós, na primeira pessoa ou na voz de amigos próximos da escritora, o fio da sua vida. E é precisamente esse tom confessional e intimista que nos seduzirá, neste misto de confissão revirada, escrita diarística e epistolar. Mas esse tom intimista e confessional com que imprime as suas cartas chega a ser pautado por uma hipérbole avassaladora capaz de nos sepultar vivos em alguns momentos. Nestas cartas não encontramos a mesma russa de O Conto de Minha Mãe ou A Torre Coberta de Hera por exemplo. Nestas cartas Tsvietaieva é apaixonada e intensa. Escancarada e vulcânica demais. Ao leitor só lhe restará enfiar quieto o coração às costas, porque Tsvietieva é dura, pesada. Nela, o abandono, a aspereza, a angústia, a impotência, fervilham no mesmo sentido dos ponteiros do sol no exacto momento em que este nunca se chegará a pôr. Nas suas palavras não há uma única brecha por onde o sufoco se possa debater e rolar. Com que verde se escarra a morte de uma filha, com quantas pedras se derruba a injustiça, com que remendos se fará um exílio? Com que desespero Tsvietaieva terá escrito as três cartas de despedida antes de se matar?

Como seria a isba onde morou com Serguei e Ariadna perto de Praga? E a floresta que a rodeava onde segundo Serguei Marina passava os dias como ermita? “Trabalha muito, vagueia sozinha na floresta, depois do trabalho, horas a fio, a murmurar fragmentos de poemas.”

A que nos saberiam estes testemunhos, caso não tivessem sido escritos sob forma de telegrama? É que na verdade, o primeiro corpo do texto, não deixa de nos chegar praticamente como um meteoro. São frases curtas demais, autênticas missivas providas de tormento. “O inconforto. Saio à procura de petróleo. Serguei compra maçãs. Coração cada vez mais apertado. Tormentos telefónicos. Ariadna enigmática, com alegria forçada. Vivo sem documentos, sem me mostrar a ninguém. Os gatos […] água da louça e lágrimas. […] Doença do Serguei”. Ou: “Desfaço o pensamento. Uma chaga viva. Para resumir: na noite de 27 de Agosto a Ariadna foi presa”. Frases cardíacas, como se a todo o momento de um colapso se tratasse. Mas é este pulsar colérico, arrebatado que lhe dá o ímpeto, a força, a consagração. 

É também ainda neste capítulo que ficamos a saber do nascimento do seu filho mais novo. Marina teve Gueorgui, o seu Mur, como carinhosamente o tratava, em homenagem ao gato Mur de E. T. A. Hoffmann. Mas Mur morreria em 1944, três anos depois de ver a mãe enforcada. E é assim que chegamos ao fim da primeira parte do livro, “Marina por Ela própria (ou quase)”, com depoimentos de Boris Pasternack a invocar as suas impressões sobre a escritora. Chegamos ao fim deste capítulo com a impressão de termos nós também a corda ao pescoço, a mesma com que Marina se enforcou naquela pobre casa de cinco paredes onde vivia miseravelmente com o filho.

“Boris Pasternack - Durante toda a vida Marina se defendeu do quotidiano com o trabalho intelectual. […] Viveu uma vida heroica. Para ela, cada dia era uma proeza - a proeza de ser fiel ao único país a que pertencia - o da poesia… “

Tsvietaieva e Boris Pasternack eram cúmplices e durante largos anos trocaram uma vasta correspondência. Mas neste livro, as variadas cartas que se seguem nos capítulos finais, ou seja, em “Meu Irmão Feminino” e em “Noites Florentinas”, embora muito distintas de outras tantas que Tsvietaieva escreveu, têm que ser lidas de forma a não se desvincularem do resto da sua obra. Embora sejam cartas transbordantes e totalmente providas de êxtase e alvoroço sentimental, são peças que fazem parte da sua lavoura literária. “Uma carta é uma espécie de comunicação do além, menos perfeita que o sonho, mas obedecendo às mesmas leis. Nem um nem outra acontecem a pedido: sonhamos e escrevemos não quando nós queremos, mas quando a carta quer ser escrita e o sonho acordado”, escreveu Marina a Pasternack a 19 de Novembro de 1922. 

Este registo epistolar ocorreu entre 1932 e 1934 no seu exílio em Paris. A primeira dirigida a Natalie Barney e a segunda inspirada por Abraham Vichniak. As duas dirigem-se sob a forma epistolar a interlocutores “ausentes”. A respeito destes interlocutores platónicos, Armando Silva Carvalho observou que “partindo de algumas marcas precisas que conservava na memória, Tsvietaieva recriava inteiramente a sua personagem e tratava a realidade com a maior liberdade. E o mesmo acontece nas suas cartas: muito frequentemente a carta, escrita por um motivo concreto, se tornava pretexto para ma transposição num plano diferente, mais elevado, lírico. Acontecia até esquecer-se do homem ou da mulher reais a quem escrevia para se apaixonar por aquilo que a sua inspiração lhe suscitava. Os traços e preocupações práticas dos seus correspondentes para ela eram simples pormenores”. E por isso se entendem o furor e a impetuosidade das suas cartas aqui reunidas. A própria apregoava: “Escrevam, escrevam mais! Fixem todos os momentos, todos os gestos, todos os suspiros! E não só os gestos da mão que os faz, e não só os suspiros - mas a forma dos lábios de onde eles voam com muita rapidez. Não desprezem o exterior. A cor dos olhos é tão importante como a sua expressão, a colcha da cama tão importante como as palavras que lá foram ditas”.

Dirigidas “a todas as mulheres numa só”, em “Meu Irmão Feminino” encontramos uma Tsvietaeiva mergulhada como que num monólogo complexo impregnado de uma paixão exuberante e convulsiva. “O desejo continuará a ser desejo. […] As águas, os ares das montanhas, as árvores são-nos dados para compreender a alma dos homens tão profundamente oculta”.

É sempre este compasso de desespero, a sua ânsia, a flor da pele amarga e violenta dos seus diálogos tantas vezes imaginários, que pautam as suas cartas, quer as de “Meu Irmão Feminino”, quer as de “Noites Florentinas”. “O meu amor não corresponde a nenhum tempo, a nenhum lugar. Nunca será uma entrada em certo quarto a certa hora. É uma saída de tudo, a começar pela minha própria pele! Quando acabar é o grande regresso a mim mesma. Enquanto eu o amar vai encontrar-me sempre entre si e mim, nunca em si ou em mim. […] A coisa que o tempo contém julgando conter o amor é outra coisa”. E será sempre outra coisa.

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