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Bazuca destruiu o interior de Portugal

Bazuca destruiu o interior de Portugal

Fernando Belezas 03/03/2021 11:03

Mas, por mero azar dos resilientes habitantes do interior, ofereceram a António Costa e Silva um bolo e este, sem sequer regatear, entregou-o em mão aos mais ricos de Portugal. Alguém acredita que agora eles o vão devolver?

Em 2027, será este o título de uma qualquer notícia de jornal que desvelará os efeitos do Plano de Recuperação e Resiliência 2021-2027 (PRR) no interior de Portugal. Pois, não tenham dúvidas. Para os que vivem no interior, este é um verdadeiro plano de resiliência. Ora, ou são resilientes, ou estão condenados ao esquecimento e ao desaparecimento.

O PRR, segundo o seu autor, visa “intervir em áreas relevantes nos domínios da inovação e da transição digital, da demografia, qualificações e inclusão, da transição climática e sustentabilidade e da coesão territorial”.

Nesta enumeração dos domínios de intervenção, como tem sido apanágio dos sucessivos governos, a coesão territorial ficou como sempre para o fim. Mas, infelizmente, essa enumeração é apenas um dos indícios, constantes desse documento, de que a estratégia que aí vem, mesmo uma vez terminada e contempladas as propostas da consulta pública, irá comprometer irremediavelmente o futuro do interior de Portugal e, em particular, dos territórios de baixa densidade.

Ora vejamos, poucos de nós acreditarão que o governo desista dos investimentos do PRR nas regiões do país em situação económica e social mais favorável, isto é, em Lisboa e Porto, em detrimento de outros investimentos em regiões numa situação economia e social de pré-catástrofe.

Desde logo, porque a história dos jogos de interesse diz-nos que, perante interesses conflituantes, sempre que há uma manifesta e genuína intenção de favorecer os mais fracos, aquele que detém o poder de controlar a negociação atribui o máximo de vantagens aos mais fracos, para que, posteriormente, na negociação com os mais fortes, lhes sejam apenas roubadas pequenas parcelas dessas vantagens e não as vantagens no seu todo. Ou seja, dá-se o bolo aos mais pobres, para que os mais ricos lhe roubem ou comprem algumas fatias.

Mas, por mero azar dos resilientes habitantes do interior, ofereceram a António Costa e Silva um bolo e este, sem sequer regatear, entregou-o em mão aos mais ricos de Portugal. Alguém acredita que agora eles o vão devolver?

Mas vamos ao PRR, em si. Num plano que visa a coesão territorial, seria possível supor que haveria um foco no investimento específico nos territórios de baixa densidade e uma identificação clara do montante de investimento que cabe a esse território. Mas o autor do PRR é claro nas suas intenções. Num plano de 143 páginas, a expressão “baixa densidade” é apenas referida por três vezes: duas para se referir à criação de “35 novas unidades móveis para cuidados de saúde primários para cobertura das regiões de baixa densidade” e uma para destacar a relevância das intervenções “na infraestrutura que contribuirão para uma coesão territorial transfronteiriça e para a dinamização da mobilidade nos territórios de baixa densidade”.

Se as primeiras duas referências são claras e não levantam quaisquer questões, a segunda só pode ter sido realizada por mero lapso de escrita. Pois, em primeiro lugar, no que respeita aos 1032 milhões de euros de investimento na mobilidade sustentável, a sua totalidade vai para áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mais precisamente na extensão das linhas de metro e na descarbonização dos transportes públicos. Por sua vez, entre os investimentos em rodovia, apenas 110 milhões, de entre um total de 662 milhões de euros são especificamente destinados a regiões de baixa densidade. Sendo os restantes 552 milhões de euros distribuídos, por todo o país, indiscriminadamente.

E é isto! No que respeita aos territórios de baixa densidade, este plano fica por aqui. A falta de transparência do PRR, obsta a que se conheça a verdadeira dimensão do investimento nas regiões que correspondem a aproximadamente 60% do território, mas só a apenas 20% da população, 20% das empresas e 14% do pessoal ao serviço das empresas, de acordo com dados do Ministério da Coesão Territorial. Será precisamente esse valor que o PRR quer esconder ou foi mero esquecimento? 

Se o jogo é o das escondidas, é grave e deverá levar à demissão dos responsáveis políticos. Se foi mero esquecimento, não estranhem que os populismos e as correntes políticas neoliberais continuem a ganhar terreno entre o povo do interior. Pois afinal, se o estado se esquece deles, não terão também eles o direito de se esquecerem do estado?

Por fim, duas notas.

Aos portugueses do interior, peço a minha absolvição: - Perdoai-me por não ter contribuído para a consulta pública do PRR. Mas, jamais o poderia fazer. Uma qualquer contribuição, tornar-me-ia cúmplice da sentença que reconhece oficialmente o esquecimento e o desaparecimento das populações do interior de Portugal.

E, uma nota de esperança: - Ainda vamos a tempo de reformular a bazuca. No entanto, tal reformulação, só será possível se quem ofereceu o bolo aos mais ricos, se disponibilizar agora para lhes pedir a sua devolução, em nome do superior interesse da nação.

Fernando Belezas

Presidente da Rural Move – Associação para a promoção do investimento nos Territórios de Baixa Densidade

 

 

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