20/4/21
 
 
Afonso de Melo 03/03/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Uma gaveta para a fantasia

Num dia do início de Junho, em 1995, chovia cães e gatos em Liverpool, para utilizar essa expressão da qual os britânicos tantos gostam. Nesse dia eu poderia acrescentar aos felinos e caninos mais uma série de mamíferos de pequeno porte e um ou outro batráquio, enquanto me albergava uns minutos sob o algeroz a caminho de Anfield para assistir a um jogo entre a Inglaterra e o Japão. O Walter surgiu, subitamente, com um chapéu de abas largas, uma gabardina beije e um fato branco por baixo com o toque inusitadamente colonial para o lugar onde nos encontrávamos. Estive com ele em muitos lugares do mundo, e não me esqueço o jantar supimpa em casa do ministro dos Desportos em Tunes, mas desta vez fiquei verdadeiramente apalermado. Nem me deixou respirar. “Olha, tens de me arranjar maneira de entrar, preciso muito de falar com o Miura, vou ser empresário dele”. Miura andou uns anos pela Europa, mas já nem me lembro se o Walter chegou mesmo a representá-lo. Para lá disso não me sentia verdadeiramente poderoso ou influente, fosse perante quem fosse, para entrar em Anfild com a minha acreditação ao peito e afirmar simplesmente – “Este senhor está comigo”, ou algo do género. Os ingleses costumam ser muito protocolares in these kind of matters, if I may say so, – o que não impediu o bom do Walter de me surgir, uma hora mais tarde na cabina de imprensa, molhado até aos ossos mas sempre com o sorriso matreiro nos lábios, o sorriso de quem sabe que, no fim, resolverá as coisas à sua maneira, seja ela qual for. Depois do jogo fomos a um pub, bebemos umas pints, e ele procurou convencer-me de que era a única pessoa que podia escrever o livro da sua vida, com a travessia do rio Congo numa canoa, carregando o N’Dinga, o N’Kama e o Basaúla, ziguezagueando por entre os crocodilos e hipopótamos, logo no primeiro capítulo, por exemplo. Tenho uma gaveta da secretária dedicada ao meu amigo Walter. Notas, papéis avulsos recordações notas escritas por ele, faxes enviados de hotéis de lugares mais improváveis, tudo misturado numa fantasia luminosa na qual não existe lugar nem para a verdade nem para a mentira. Apenas para tudo o que fazia parte da criatividade deslumbrante de um homem que nunca foi capaz de deixar de ser menino.

 


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