21/4/21
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 03/03/2021
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Como as crianças, Costa viaja no banco de trás

O Governo limita-se a seguir os fluxos comportamentais dos portugueses

1. Os portugueses já desconfinaram. Vê-se pelas ruas durante a semana e percursos aprazíveis nos sábados e domingos. Há um ano, pouco depois do vírus chinês ter chegado ao nosso retângulo e começado a fazer vítimas, o Governo mandou confinar quando estávamos já todos em casa. Agora, o povo está nas ruas, mas o executivo não deu ordem de soltura. Não era preciso uma empresa fazer um estudo daquilo que está na cara. A melhoria das condições sanitárias é óbvia e, no mundo, só há dez países com confinamento generalizado, sendo que nenhum deles é europeu. O Governo é fingidor e não atina, voltando a ser ultrapassado pelos acontecimentos, o que é recorrente. Costa faz lembrar uma criança sentada na cadeirinha, a ser conduzida e a perguntar se falta muito para chegar. Claro que não pode ser responsabilizado totalmente por tudo e, nomeadamente, pelos excessos do Natal. Da mesma forma, não é formalmente culpado pelo desconfinar informal em curso no país. Não se pode pôr um polícia em cada esquina e sabe-se que seria dramático um desconfinamentos feito de repente. Toda a gente concorda com o que está a acontecer gradualmente e à socapa, mas ninguém o assume. Do Presidente da República, ao polícia de giro, passando pelos governantes e políticos de esquerda e direita, aceitamos a entrada nas fases “o que tem de ser tem muita força” e “o caminho faz-se caminhando”. A vida económica e a vida social têm de ser retomadas para que haja recuperação, saúde física e saúde mental. Verdadeiramente grave é tudo ser feito sem enquadramento mínimo, sem cronologia das prioridades de abertura e, sobretudo, sem se saber o contributo concreto das vacinas já dadas para a descida dos números. Isto para além de não haver a mínima ideia do que faremos se a tendência positiva se inverter. Quando Costa apresentar o plano, já não corresponderá a nada. Também não faz mal porque por cá o Governo anda sempre atrás.

2. O Portugal comprou 38 milhões de vacinas. Como somos 10 milhões e haverá normalmente duas tomas por pessoa, sobrarão 18 milhões de vacinas para mais ou menos 9 milhões de pessoas. Estas, e muito bem, serão enviadas para países pobres como as nossas ex-colónias, num exercício de neocolonialismo que Mamadou a seu tempo criticará. Tudo bem! Não podemos é deixar de estar a par dos critérios de vacinação, nem podemos abdicar de os controlar. Se cá foi o que se viu, imagine-se nos países lusófonos em geral.

3. Rui Rio lá convenceu figuras relevantes a concorrerem às autárquicas. Carlos Moedas (Lisboa), Fernando Negrão (Setúbal) e José Manuel Silva (Coimbra) são respeitados, prestigiados profissionalmente e dedicados à causa pública. Vão dar o corpo aos votos, num ato de coragem. Moedas aceitou inesperadamente, depois de recusas reiteradas. Interlocutor da troika no tempo de Passos (um ponto de ataque), comissário europeu de sucesso e atualmente administrador na Gulbenkian, Moedas tem a tarefa complicada, mas fazível, de desalojar Medina, o PS e a esquerda toda. O seu avanço é um certificado de abnegação, quando se sabe que é administrador da Gulbenkian, sendo provável que ascendesse a presidente. Uma das coisas que estava por saber no momento do envio desta crónica é a situação em que ficam os seus vínculos com a fundação. É que não há nota de antecedente de acumulação de candidaturas políticas com mandatos de administração. Normalmente a fundação é administrada apenas por políticos e afins retirados. Noutro contexto, convém seguir a forma como Carlos Moedas se submeterá à hierarquia autárquica do PSD na qual pontifica o neófito Hugo Carneiro, a quem Rio deu plenos poderes para aprovar e rejeitar tudo o que sejam despesas e até conteúdos políticos. Carneiro é simplesmente um quadro burocrata, sem experiência pessoal ganhadora. Da parte de Rio falta o nome do candidato ao Porto. Menezes? O próprio Rio? Quem? Terá de ser de alguém conhecido, respeitado e politicamente corajoso. Nas equipas de Cavaco Silva houve figuras que preenchem totalmente esses requisitos.

4. A propósito de Hugo Carneiro, assinale-se o desplante quase ofensivo que usou em relação à provedora de Justiça num artigo que escreveu para justificar a iníqua lei que barra o caminho às candidaturas autárquicas independentes. Vale a pena ler o texto resposta de Isaltino Morais no Nascer do SOL em que coloca Carneiro no lugar e explica que a questão dos independentes visou fundamentalmente Rui Moreira. Isaltino aproveita para alertar Rio para as ambições pessoais de quem lhe está muito próximo e lhe pode causar danos políticos futuros. Uma espécie de “quem te previne…”. É essencial que PS e PSD revejam mesmo a lei dos independentes. Se não o fizerem, irão confrontar-se com um partido chapéu que até pode aparecer em legislativas, aumentando a cacofonia política.

5. Vale a pena olhar para os mais recentes estudos de opinião. O barómetro do grupo DN/JN/TSF confirma mudanças. Leve quebra do PS, minúscula recuperação do Bloco, subida da CDU e do PAN, isto à esquerda. À direita, estagnação do PSD, pequena descida do Chega, consistente crescimento da Iniciativa Liberal e total morbilidade (palavra da moda) do CDS. Alterar esta tendência passa obviamente pelas prestações nas autárquicas, nomeadamente do PS e do PSD.

6. Miguel Sousa Tavares é um jornalista e escritor conceituado em Portugal. Tem também projeção internacional, nomeadamente no mundo lusófono. Há muitos anos que assina uma excelente coluna no Expresso. Esta semana MST superou-se. O título diz quase tudo: “A imensa estupidez de querer derrotar a História”. Vale a pena ler, observar o equilíbrio e a cultura política democrática vertida no texto. Num país onde se impinge tanta porcaria aos estudantes, era essencial a crónica ser lida em voz alta nas escolas, nas faculdades e em muitos outros sítios, nomeadamente o parlamento, onde circulam alguns sectários de vários quadrantes.

7. Falar Bem Falar Melhor” é um inenarrável programa da RTP2 em que supostamente se ensinam coisas da nossa língua. Nem na televisão da Coreia de Norte se vê coisa tão datada e tão primária. Coitada da Margarida Mercês de Melo. Não merecia ter de apresentar aquele tesourinho desde já deprimente. O lema da RTP2 “é quem vê quer ver”. Naquele caso só pode ser “quem vê, não quer mais”. Façam mais séries do Cuidado Com a Língua, sff. Mas aquilo, não. Tenham dó!

 

Escreve à quarta-feira

 


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