13/4/21
 
 
Imigração. "Emigrar não é para todos. Estou muito satisfeito aqui"

Imigração. "Emigrar não é para todos. Estou muito satisfeito aqui"

José Miguel Pires 03/03/2021 13:08

Francisco Marin tem 27 anos e imigrou para Portugal em 2018. É engenheiro civil, mas trabalha numa padaria em Aveiro, 
e na mala trouxe grandes sonhos.

A região de Aveiro é o palco de um fenómeno peculiar no país. Entre a capital do distrito, passando por Estarreja, Salreu, Murtosa, Vagos e outras tantas cidades da região, é possível sentir uma forte influência... venezuelana. As padarias, muitas delas cujos donos são portugueses que estiveram emigrados na Venezuela, oferecem produtos como “cachitos” (um género de croissant salgado com queijo e tiras de fiambre e de presunto)  ou, sobretudo no Natal, o “pan de jamón” (um género de bola comprida com presunto, azeitonas, queijo e outras iguarias que já não surpreendem os locais aveirenses e que já se misturaram na cultura da região ao longo dos anos. Aliás, até em algumas escolas da região se servem estes produtos típicos da gastronomia venezuelana. Mais uma curiosidade: uma pequena bandeira marca presença em várias das padarias da região, com um pacote amarelo da Harina Pan, farinha de milho cozida utilizada para fazer “arepas”, um dos pratos mais típicos do país.

Estes são apenas alguns exemplos da forma como a cultura venezuelana tem vindo a integrar-se nos costumes e nos hábitos dos aveirenses, não deixando de fora também a influência noutras regiões mais a Norte do país, como Oliveira de Azeméis ou mesmo Espinho, onde existe todo um complexo dedicado a esta comunidade: o Centro Social Lusovenezuelano de Espinho. Isto sem falar da forte presença de luso-venezuelanos na ilha da Madeira, que durante décadas viu milhares e milhares dos seus habitantes partirem para aquele país sul-americano à procura de uma vida melhor, e que agora, décadas depois, fizeram a viagem de regresso.

O fenómeno tem uma outra vertente curiosa: durante muitos anos, Aveiro tornou-se distrito anfitrião dos emigrantes portugueses regressados da Venezuela. Na região, há lusovenezuelanos que regressaram há 20 anos, como há quem tenha regressado há 2 anos. Uma novidade, no entanto, surgiu mais recentemente, nestes tempos mais conturbados no país de Chavez e Maduro: a chegada de imigrantes venezuelanos que pouco ou nada tinham a ver com Portugal nem com Aveiro.

Fruto da crise financeira, social e política do país, milhões de venezuelanos têm deixado o país à procura de uma vida melhor, a maioria deles fixando-se em países vizinhos como Brasil, Colômbia, Panamá ou mesmo Estados Unidos. A Portugal, no entanto, vão chegando alguns desses imigrantes, muitas vezes recomendados por amigos portugueses na Venezuela, ou por outros amigos venezuelanos que, estando cá, lhes sugerem a oportunidade.

Francisco Andrés Flores Marin tem 27 anos e imigrou para Portugal em 2018, com uma mala cheia de sonhos e ambições para a sua vida pessoal. Formado em Engenharia Civil, o venezuelano, natural da pequena cidade de Barinas, no interior do país, trabalha numa padaria em Aveiro, cidade que só conhecia através de relatos longínquos de amigos dos pais e um ou outro vídeo que lhe chegava às mãos.

Prontamente se juntou a ele Maciel, a namorada de longa data, e juntos encontraram em Aveiro um sítio para lutarem pelos seus objetivos de vida. Ambos a trabalhar na restauração, longe da sua área de formação, e acima de tudo longe da família – que ou está na Venezuela ou está noutros países, espalhados pelo mundo – como tende a acontecer com muitas famílias venezuelanas.

Como decidiste emigrar para Portugal?
Uns amigos portugueses da minha família estiveram muitos anos na Venezuela, quase 50 anos, e quando a situação ficou apertada economicamente decidiram voltar para Portugal. Montaram uma padaria em Aveiro e convidaram-me para vir trabalhar com eles. Eu ainda estava na Venezuela a acabar o curso, mas não produzia muito e achei que não valia a pena, por isso tomei a decisão de aceitar a proposta e emigrar.

Estavas a estudar o quê?
Sou graduado em Engenharia Civil pela Universidade Santa María. Acabei o curso, trabalhei três meses e percebi que não estava a ganhar grande coisa e que a situação não era a melhor, então decidi emigrar. Enquanto estudava, trabalhei também com o meu pai, que foi corretor de seguros durante mais de 30 anos.

Como foi o processo, tanto de encontrar casa como de adaptação ao trabalho?
Sinceramente, tive sorte, o que não é o caso de todos os emigrantes, porque normalmente não têm quem os receba ou trabalho quando chegam. Eu tive essa sorte, não me posso queixar. Os donos da padaria ensinaram-me o ofício. Nunca tive nada a ver com padarias,  aliás, a única experiência que tinha era como cliente. Mas eles ensinaram-me e comecei a trabalhar com eles aí. Depois saí, trabalhei noutra padaria, e depois numa fábrica. Acabei por voltar para a padaria onde inicialmente tinha trabalhado, já depois de os donos iniciais terem ido embora. Uma das colegas com quem tinha trabalhado inicialmente acabou por comprar a padaria com o marido e propuseram-me voltar a trabalhar lá.

Sei que vives cá com a tua namorada, Maciel. Vieram juntos?
Não. Primeiro vim eu, e depois a Maciel veio ao fim de quatro ou cinco meses. Ela começou também numa padaria e depois continuou na restauração. Na Venezuela, ela estudava e trabalhava, mas decidiu vir ter comigo também à procura de uma vida melhor e para estarmos juntos.

O que te fez, de vez, querer procurar uma nova vida?
Não há algo pontual, mas sim um conjunto de muitos fatores que me fizeram partir. O facto de ter a minha independência muito tarde lá, querer ajudar os meus pais e não poder, enfim, acabar por estar um pouco inibido nessa área. Quero progredir no sentido de conquistar independência económica, ter casa própria, carro próprio e um negócio, que apesar de não ter ainda, estou nesse processo e o país é muito nobre e está aberto aos estrangeiros. Tens de trabalhar duro, mas está tudo ao alcance.

Estavas à espera de encontrar uma comunidade tão grande de venezuelanos em Aveiro?
Para mim foi uma surpresa descobrir que havia tantos venezuelanos em Aveiro. Nunca tinha ouvido nada da cidade, o que sabia era da internet, pela Wikipedia ou vídeos no YouTube, e o que me comentavam os amigos da família, mas não tinha ideia de que havia tantos venezuelanos. Ainda assim não me juntei a muitos. Não tenho um grupo de amigos cá muito grande, a maior parte deles estão na Venezuela ou noutros países.

Apesar de haver muitos venezuelanos em Aveiro, que até tenho coincidido com eles noutros empregos… eu também procurei evitar um bocado, porque queria melhorar a língua. O maior impedimento foi mesmo a língua, mas com o tempo fui aprendendo aos poucos. E não tive aulas, foi tudo a trabalhar e a afinar o ouvido. Se me rodeasse de venezuelanos, nunca seria forçado a melhorar a língua. 

Qual foi a parte mais difícil na decisão de emigrar?
Como a maioria das pessoas, acho que não ter a família perto é das coisas que mais me afetou, mas do ponto de vista cultural não tive grandes dificuldades a adaptar-me. Até as brincadeiras são muito parecidas com as nossas, talvez um pouco menos efusivas. Lá somos um pouco mais alegres, porque de resto diria que somos parecidos. Sinto-me bem cá, nunca tive problemas de xenofobia, pelo contrário até, quando comento que sou de lá, há sempre alguém que tem um primo ou um tio que esteve ou está lá. Aqui em Aveiro há muita gente que tem relações com a Venezuela, de uma forma ou de outra e fui sempre muito bem tratado.

O mais difícil foi mesmo deixar a família, apesar de falar com eles todos os dias por telemóvel, mas não é a mesma coisa ter o calor, a companhia, é diferente. Ainda bem que tenho a Maciel cá, que tem sido um grande apoio e um grande pilar para mim.

E a família não pensa em emigrar também?
Os meus pais foram há pouco tempo para a Florida, nos Estados Unidos, mas ainda tenho primos e tios na Venezuela. Emigrar não é para toda a gente, há pessoas que estão conformadas ou na zona de conforto e dá-lhes medo a grande mudança que isto representa.

Que mudanças sentes no teu dia a dia, agora que já vives cá há uns anos?
Por vezes, fogem-me palavras em português a falar com a Maciel, com quem costumo falar em espanhol, e ela pergunta-me “por que falas em português comigo?” Como trabalho o dia todo com pessoas a falar em português, é normal que às vezes se confundam as palavras um pouco. É daquelas coisas que me acontecem. O café também é algo novo na minha vida. Na Venezuela não bebia, e agora sou um bocado viciado no café e no pastel de nata. Por isso, também já ganhei uns quilitos, mas isso até é bom sinal.

Ah, e uma muito importante. Na mesa, agora, temos bolo-rei. Não há o clássico Panetone, que na Venezuela se come muito, mas já temos bolo-rei e outros doces portugueses. Isso sim, não troco a minha “hallaca” (prato natalício típico) por um bacalhau cozido.

Como te sentes ao fim de alguns anos a viver cá?
Sinto-me muito agradecido pelas oportunidades que me foram dadas, oportunidades que não via há muito tempo no meu país. No futuro, vejo-me aqui, não tenho planos de regressar à Venezuela, se for será só de visita. No futuro, talvez gostasse de ter o meu próprio negócio, talvez no ramo de pastelaria ou algo mais, o destino é incerto. Mas se de algo estamos seguros é de que queremos ficar aqui. Tenho a segurança que o país dá a hipótese de seguir em frente e, se trabalharmos bastante, penso que conseguiremos ter aquilo que pretendemos.

 

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×