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Jon Fosse. A arte de musicar filosofia com prosa poética

Jon Fosse. A arte de musicar filosofia com prosa poética

Guilherme P. Henriques 02/03/2021 14:46

Manhã e Noite, breve romance do norueguês Jon Fosse, alia a riqueza da linguagem à profundidade digressiva - ambas sob a forma de um enredo místico e estruturalmente distintivo.

 

O primeiro capítulo narra o nascimento do pescador Johannes; o segundo e último narra o dia da sua morte, em que é atingido por “um sentimento tremendamente poderoso que o liga a tudo o que vê”. Tudo formando um ciclo breve, mas simultaneamente profundo. Sobre a vida, sobre a morte e sobre Deus.

A singularidade do estilo narrativo evidencia-se da primeira à última letra. Com uma escrita poética e despojada, marcando um ritmo particular - numa cadência permanente de vírgulas e espaços sem pontos finais -, o narrador seduz-nos com uma simbiose elíptica entre a heterodiegese e o pensamento das personagens: tudo trocado, mesclado, fundido.

É nessa fusão que surge o enriquecimento da linguagem. É nessa fusão que Fosse cavalga assumindo a prosa poética, e é à boleia desta última que descreve o nascimento do protagonista Johannes, com recursos onomatopaicos que fazem dos sons mais pungentes descritores que as palavras: “e a velha parteira Anna diz uma coisa qualquer e uma qualquer coisa faz pressão na cabeça dele e a escuridão deixa de ser vermelha e isso mesmo ah ah ah isso ah e ah oh muito bem ah eh ah eh ah o bramido ah a agitação ah o velho rio e depois eh oh tudo sim pff pff ah pff tranquilo pff e as vozes e depois este terrível som e a pressão eh ah eh e este frio que trespassa ah ah […] eh água tranquila eh ah oh ah e os ásperos grunhidos e as vozes eh hm ah ah hm ah ai ah e depois a eh luz”. 

Empregando este estilo tão vincado quanto impactante, o autor oferece conteúdo para além da forma. Com digressões filosóficas que vão preenchendo os espaços da história propriamente dita, surge a interrogação sobre dois tipos de vazio: o da origem (pré-nascença) e o do destino (morte); a viagem do ser-humano entre o nada e o nada; entre a manhã e a noite. E este questionamento alumiado por um outro, expressa ou implicitamente imbuído em cada página: o da (in)existência de Deus: “que Deus criou o mundo e dele fez um lugar bom e que Ele é omnipotente e omnisciente como têm por hábito dizer os devotos, não, ele nunca acreditou inteiramente nisso, mas que Deus existe, não, não há nenhuma dúvida quanto a isso”. Uma narração sempre provocadora. Sempre inquieta. Sempre alta. 

Mas Jon Fosse não divaga de forma gratuita, pedante ou ostensiva. Não. Jon Fosse pensa, deambula e questiona transportando o peso das digressões para a leveza da arte ficcional. Em Writing like praying (um documentário de Rodrigo Casullas, disponível no YouTube), o escritor fala-nos da época em que dedicava o seu tempo ao estudo da filosofia e, simultaneamente, à escrita de ficção: foi então, diz o autor, que compreendeu a diferença entre, por um lado, o estilo da poesia e do romance, e, por outro, o estilo dos ensaios científicos; vivia, segundo as suas palavras, uma espécie de esquizofrenia entre o lado académico e o lado artístico. Percebendo que tinha de optar por um dos dois, Jon Fosse abraçou o segundo: “I decided, quite early, that I had to stay on the artistic side, on the musical side of it”.

Jon Fosse escolheu, portanto, a ficção, a arte, a música. E o fascinante é que trouxe consigo - transformado, mas não perdido - o engenho filosófico-ensaístico. E é assim, musicando filosofia com prosa poética, que o norueguês, frequentemente comparado a Ibsen e a Beckett, propulsiona a sua arte literária. 

Este Manhã e Noite tem traços da dramaturgia, da poética e da prosa - o que não é de estranhar, sendo Fosse um dramaturgo, poeta e romancista; mas aqui, neste livro, o brilho do engenho está em ser tudo isso ao mesmo tempo, testando a pertinência das categorizações enformadas pelos géneros literários: um romance?; um poema?; um conto?; uma novela; um ensaio?; um grito?; uma música?

A literatura é sobretudo uma ideia, um todo indivisível de permanente afirmação e simultâneo questionamento sobre a vida, sobre a morte e sobre o algo para além disso. E Jon Fosse é um escritor contemporâneo que merece ser lido. De manhã à noite.

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