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Covide. A história da freguesia para lá da comparação com a doença

Covide. A história da freguesia para lá da comparação com a doença

Maria Moreira Rato 02/03/2021 13:59

Em Covide, no concelho de Terras de Bouro, os 343 habitantes desafiam os estereótipos e mostram que são muito mais do que um paralelismo entre a toponímia e o coronavírus.

A Organização Mundial da Saúde decidiu usar um nome que seja pronunciável e que não remeta para uma localização geográfica específica, um animal ou grupo de pessoas para evitar estigmatizações, segundo disse em conferência de imprensa o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em fevereiro do ano passado.

Contudo, esqueceu-se de que, nas abas da serra do Gerês, no concelho de Terras de Bouro, em Braga, encontra-se a peculiar freguesia de Covide. De acordo com os Censos de 2011, tem 19,87 km² de área e 343 habitantes, sendo a sua densidade populacional de 17,3 hab/km². A localidade cujo nome, muitas das vezes, é associado à covid-19, tem dado que falar desde março do ano passado. 

Aos 46 anos, Domingos Fujaco conta com 16 enquanto presidente da Junta de Freguesia de Covide. “A localidade é grande, a densidade populacional é que é pouca”, começa por explicar o dirigente que sempre ouviu a família associar a Covide à palavra covil, ou seja, uma cova habitada por animais ferozes ou uma toca.
“Somos poucas pessoas e tomámos os devidos cuidados como o distanciamento social e a utilização do equipamento de proteção individual”, avança o político que alertou a população para a necessidade de cuidado redobrado devido à existência do lar de idosos. 

“Mas, felizmente, acho que correu tudo bem tendo em conta o panorama mais negro do resto do país”, afirma sobre a situação epidemiológica em Covide que, segundo o boletim diário da Direção-Geral da Saúde, desta segunda-feira, mantém-se em risco elevado de infeção pelo novo coronavírus, por integrar o concelho de Terras de Bouro, que tem uma incidência cumulativa de 267 por 100 mil habitantes.

“Liderar tem sido igual. Aquilo que se passou na nossa freguesia passa-se nas freguesias vizinhas”, declara com assertividade. “Criámos todas as condições, como a entrega de medicamentos ao domicílio, para proporcionar o máximo de bem-estar aos conterrâneos, mas quase toda a gente tem familiares que as ajuda. De qualquer modo, auxiliámos duas ou três pessoas inicialmente”, explicita.

Acerca do fenómeno dos turistas que, no verão passado, tiraram fotografias junto da placa de toponímia, à entrada da freguesia, e adornaram-na com autógrafos e autocolantes, Fujaco considera que a mesma se tornou “um ponto de atração” e é, acima de tudo, motivo de admiração para “os emigrantes que estão espalhados por esse mundo inteiro e que ficaram admirados com o nome”. Todavia, nunca sentiu “que as pessoas fossem ofensivas”. 

Em abril do ano passado, temendo a popularidade da freguesia, o presidente publicou na sua página pessoal do Facebook duas imagens das placas de Covide a 19 e 20 quilómetros da freguesia, com a seguinte legenda:“Se não cumprirem com as regras para a covid-19, poderemos ter de enfrentar a covid-20. Apelo a todos os que nos visitam que cumpram as medidas. Somos uma população muito vulnerável e temos uma instituição de elevado risco, o lar de idosos. Todos juntos vamos conseguir”.

O fenómeno não andou a par e passo com os infetados por covid-19 e, apesar de não saber o número destes de cor, tem a certeza de que “não foram mais do que 15, estiveram duas ou três famílias infetadas”. De certa forma, acha piada ao élan criado em redor da freguesia e recorda um episódio vivido no Hospital de Braga: “Quando fui fazer uma cirurgia, brincaram comigo, disseram que tinham um Covide e riram-se, e eu também, mas a população em si não sai muito beneficiada”, confessa.

“Quero que as coisas voltem ao seu ritmo normal. Temos os cafés fechados que eram o ponto de encontro dos mais idosos que arranjavam sempre um momento de partilha”, assume com desânimo. “Chegam-me relatos de solidão, de pessoas que não sabem há quanto tempo não saem de casa, que se isolaram mesmo”, admite com tristeza. 

“Para além desses estabelecimentos, temos também três restaurantes que só fazem take-away, mas isso é muito pouco. Têm tido momentos de dificuldade”, realça, fazendo o paralelismo com o panorama negro vivido pelo setor da restauração ao nível nacional. “E, quando isto passar, não sei como será. No ano passado, tivemos um verão forte depois do confinamento, mas esperemos que a doença passe de vez”, pede.

“Gosto de trabalhar para a comunidade, senão não estaria neste cargo. Tenho objetivos que não consegui cumprir e espero continuar à frente da junta para concretizá-los”, assume, divulgando que um rapaz que viu nascer “vai ser ordenado e tornar-se padre, o que será um momento de grande orgulho”.

“Estamos no Parque Nacional Peneda-Gerês que é uma mais-valia para nós e 50% da freguesia está integrada no mesmo. Temos um bom cartão de visita com as montanhas, os trilhos, os riachos, as cascatas, em suma, muitas coisas que podem criar movimento com facilidade”, conclui.

Esta é também a opinião de Ana Freitas, de 36 anos, que nasceu em Covide, e tem estado separada da mesma durante alguns períodos de tempo. “Quando o vírus surgiu e lhe atribuíram o nome de covid-19, associei-o de imediato à minha freguesia mas, neste momento, já nem penso nisso”, diz.

“Muitas pessoas fazem questão de tirar uma selfie ou uma foto simples junto à placa e penso que esse acaba por ser um cliché que todos nós já praticámos, ao longo da nossa vida, em algum local”, justifica a professora do pré-escolar e do primeiro ciclo. 

De arquiteto a guardião da memória coletiva Aos 49 anos, Carlos Martins vive há 18 no Porto, mas não esquece a terra que o viu nascer e demonstra-o através da página Terras de Bouro Antigo, no Facebook, que alimenta há cinco anos.
“Fui guardando as imagens e os documentos que recebia e achei por bem divulgá-los e aproximar mais as pessoas à região para se conectarem, principalmente, os emigrantes”, salienta, garantindo que dos cerca de 3500 seguidores que tem, “muitos estão no estrangeiro”.

Arquiteto de formação e profissão, percebeu que, aquando do surgimento da pandemia, a freguesia de Covide beneficiou do turismo. “E isso verificou-se ao nível das redes sociais e também na comunicação social. Mesmo ao nível nacional, figuras públicas como o jornalista Daniel Oliveira decidiram captar uma imagem junto da placa”, avança, constatando que “houve uma grande adesão de pessoas que se deslocaram ao Gerês e quiseram passar por Covide para tirarem a fotografia da praxe”.

“É uma região com vários pontos de interesse desde o artesanato, pelos resquícios da ocupação romana como a Geira e, no fundo, é uma localidade de montanha típica do Minho”, diz, clarificando que encontrando-se “mesmo à porta de cascatas, com um património natural vasto, perto da Serra Amarela e da aldeia de Vilarinho das Furnas, percebe-se o encanto que lhe é inerente”.

Na ótica de Carlos, quando se fala de Covide, tem de se falar obrigatoriamente de Maria Adelaide Soares, “a mulher obreira que fez renascer Covide através da Fundação Calcedónia e que dedicou mais de meio século da sua vida ao serviço comunitário, tornando-se, assim, uma líder e modelo de referência humanista da freguesia”.

O arquiteto evocou igualmente a gestão que era feita, no início do século XX, por meio de um sistema de comunalismo – trata-se de uma ideologia ou forma de organização social que se prende com a existência de comunidades utópicas que praticam a abolição da propriedade privada, a divisão do trabalho de acordo com as possibilidades do indivíduo e a divisão dos benefícios entre todos de acordo com as necessidades de cada um – e que considera ser “um marco da História de Covide”. 

“O regedor era escolhido pelos povos da freguesia e fazia executar e cumprir os usos e costumes”, elucida, referindo-se à designação, em vigor, entre 1836 e 1977 atribuída ao representante da administração central junto de cada freguesia, em Portugal. “Assim, existia uma espécie de encontro democrático, num local denominado d’A Carreira, em que se discutiam as leis, debatiam-se as multas, falava-se dos hábitos da freguesia e de tudo aquilo que estivesse na ordem do dia”, como a limpeza das levadas da água, o concerto dos fornos e das cabanas para a vigia do gado ou a marcação do dia para fazer carvão.

Em relação à página que fundou e à qual doa grande parte do seu tempo, acredita que não é a freguesia de Covide que a dinamiza, mas sim “os conterrâneos que gostam de ver publicadas fotografias dos seus antepassados, de locais históricos, de romarias e tudo que diga respeito ao próprio concelho”.

“É uma página sem fins lucrativos, que não espera grandes seguidores. Por vezes, nas mensagens privadas, até me pedem números de telefone como o dos correios”, continua. “E quero dar feedback para que as pessoas percebam que alguém as ouve porque sei que temos uma população extremamente envelhecida”, defende. “As casas de turismo têm ocupação no verão, mas queremos que Terras de Bouro chegue às pessoas no resto do ano”, conclui.

 

 

 

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