18/4/21
 
 
António Galamba 01/03/2021
António Galamba

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A culpa dos portugueses e a ausência de plano

A culpa é dos portugueses, nunca do titular de cargo político. Por tantos desmandos, truques e manigâncias no exercício de funções públicas tem sido difícil criar uma cultura de responsabilidade.

Alguns membros do Governo têm ensaiado o exercício verbal de projetar a culpa pelo descontrole ocorrido no surto pandémico nos comportamentos dos portugueses. O impulso de sacudidela da água do capote é totalmente contraditório com a narrativa da excecionalidade cívica da observância das regras impostas tantas vezes enunciada ao longo desta tormenta. É só mais uma contradição, mas é justa, porque no limite, a responsabilidade maior para o que é feito ou não pelos eleitos resulta das opções dos eleitores. Têm a colheita da sementeira eleitoral que concretizam, não indo votar ou fazendo as opções que fazem.

Da mesma forma que não se pode esperar que em mais de quatro décadas de desequilíbrios entre direitos e deveres desaguem num comportamento equilibrado, também não se pode querer que reiterados exercícios políticos em que ninguém assume a responsabilidade de forma consequente pelos atos ou omissões tenham a veleidade de mudar de registo. A culpa é dos portugueses, nunca do titular de cargo político. Por tantos desmandos, truques e manigâncias no exercício de funções públicas tem sido difícil criar uma cultura de senso e responsabilidade que permita separar o trigo do joio, elevar o nível cívico de exigência em relação ao desempenho de funções, além da participação eleitoral, e qualificar quem desempenha funções de públicas no quadro da ética republicana.

Aliás, o exercício de verberar culpas em relação aos outros ou ao passado, assume uma centralidade crescente na maquilhagem das insuficiências do presente e no desesperado esforço de, à falta de obra, procurar efervescências públicas e mediáticas que sustentem determinados posicionamentos ou fins. A culpa é do passado, a culpa é do Padrão dos Descobrimentos, a culpa é da burguesia do teletrabalho, a culpa é a desculpa e a desculpabilização, com a anuência soporífera dos portugueses.

Houvesse mais exigência, connosco próprios e com os outros, em especial com os que têm obrigações particulares de serem eficazes e consequentes com o que disseram que iam fazer e com o que fazem, e teríamos um país muito melhor, com menos bitaite inconsequente nas redes sociais e mais responsabilidade individual e comunitária. Mas não, como comunidade de destinos navegamos num quotidiano corrente ou excecional, como o atual, em que a culpa é sempre dos outros, porque essa é a melhor forma de desculpa para o estado a que chegámos.

Ora queremos confinamento, ora queremos desconfinamento, sem cuidar de avaliar se estamos comprometidos com o que é preciso ser feito e exigir de cada um faça a sua parte, assumindo de forma consequente responsabilidades pelas omissões. E ao contrário do que é dito, o problema central nunca é a falta de planeamento, mas a falta de responsabilização pelo que não é feito.

Não há computadores nas escolas no tempo anunciado, ninguém assume. Há incêndios florestais com fatalidades ou roubos em Tancos, ninguém assume. Anunciam-se planos, medidas e iniciativas que não são concretizadas, ninguém assume.

O problema não é a ausência de planeamento. Já se esqueceram que havia um Plano de Saúde para o Outono-Inverno 2020-21, para responder ao desafio do inverno, do frio e da gripe no contexto da pandemia? E, no entanto, o plano e o papel mantiveram uma frutuosa relação inconsequente e os resultados da impreparação ou da insuficiência de soluções ficaram à vista de todos. Este foi um quadro de insuficiência, mas há os contextos de alegada existência de recursos em que o problema também se coloca.

A pandemia tem tido e continuará a ter impactos brutais, além da perda de vidas e das vidas que ficaram marcadas com sequelas para sempre, reforçando a pressão sobre os cuidados de saúde. A Europa de demasiados alheamentos em relação à realidade dos povos, mais pela natureza das lideranças existentes do que dos instrumentos ao dispor do projeto europeu, procurou responder à emergência, mas fê-lo num quadro similar ao que a anterior solução governativa, com o apoio do PCP e do BE, tinha concretizado em Portugal. Desta vez, há resposta e vai haver dinheiro para tudo e para todos. 

A “Bazuca” foi apresentada como “a pipa de massa” que vai chegar para tudo, para os que estão no sistema e para os que têm estado à margem do sistema, permitindo-se fazer tudo e mais alguma coisa, sempre com o sentido de afirmação, na consciência e no planeamento de afirmar as soluções como sendo de “dinheiro bem gasto”, numa das últimas oportunidades. Arregimentou-se um consultor, apuraram-se ideias e saiu mais um plano para a Bazuca, entre a compensação da despesa já realizada com a resposta à pandemia e às suas consequências sociais e económicas, e a realização de impulsos de recuperação e resiliência. Havia e há um plano, mas a expetativa criada (dinheiro para tudo e todos) e os crescentes impactos da pandemia na vida das pessoas e nas realidades que compõem a sociedade portuguesa, já apresentam desfasamentos incompatíveis. 

Há um plano, por muito dinheiro que exista para este plano, mesmo com os restos do Portugal 2020 e o novo Portugal 2030, nunca será o suficiente para responder ao que se acumulou em décadas como problemas estruturais, às realidades emergentes da pandemia e aos desafios do futuro. Basta ver as reivindicações dos mais diversos setores, em tempo e consulta pública do Plano. Gerir sem critério inteligível por todos, sem sentido de responsabilidade própria e sem uma visão integrada para o país, numa lógica de turno de sobrevivência política só poderia acabar num quadro excecional em que o nível de decibéis do leilão, das licitações e das tensões vai assumir proporções nunca atingidas. Agora some-se a isto o nível de desespero de alguns, os media que temos, o fervor das redes digitais e o populismo em vigor, num quadro de grande dispersão, ausência de compromissos de equilíbrio e volatilidade.
Não, não vai ficar tudo bem, mas é a colheita do que foi semeado, com o apoio de muitos.

Notas Finais
Perdigão perdeu a pena. A justiça nunca será levada a sério quando permite a utilização pública e mediática do Palácio Santana (Presidência do Governo dos Açores) ou da Quinta Vigia (Presidência do Governo da Madeira) para fins partidários de enamoramento do PSD com o Chega, numa total confusão entre partido e Estado.
 
Perdigão pode ter ganho a pena. Rui Rio percebeu o que o PS não conseguiu ver. Para “ganhar” as eleições autárquicas é preciso um foco mediático na noite eleitoral. Previsivelmente, nem o PS terá mais autarquias do que as que tem, nem o PSD conseguirá ganhar as eleições recuperando a maioria dos municípios, logo, é preciso criar pontos de interesse mediáticos. Moedas em Lisboa demonstra ambição no principal pilar da sustentação do poder interno no PS nos últimos 14 anos. O PS devia ter o ser ramalhete, desde logo, nas capitais de distrito, mas não tem. Arriscar a perder, ganhando.

Escreve à segunda-feira


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