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Os doentes esquecidos no plano de vacinação da covid-19

Os doentes esquecidos no plano de vacinação da covid-19

Marta F. Reis 26/02/2021 13:53

Só doentes de risco com mais de 50 anos foram incluídos nas prioridades de vacinação. “Há muitos poucos doentes neuromusculares que chegam aos 50 anos”, diz Joaquim Brites, que lamenta que os apelos para rever os critérios não tenham tido qualquer resposta. Sociedade de Medicina Interna também defende prioridade.

Com o plano de vacinação da covid-19 a sofrer contínuos ajustes, os doentes raros com doenças mais graves pedem para ser também incluídos nas fases prioritárias de vacinação. Luís Brito Avô, coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Raras da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, também o defendeu publicamente num artigo publicado nos últimos dias. Até agora não houve resposta nem da task-force nem da comissão técnica de vacinação, diz ao i Joaquim Brites, presidente da Aliança Portuguesa de Associações de Doenças Raras. “Enviámos seis emails e nem uma confirmação de leitura”, lamenta. O problema com o atual plano não são os critérios que definem os doentes de risco considerados prioritários nesta fase de vacinação, como ter doença respiratória com suporte de ventilação ou doença cardíaca grave, mas ter-se limitado o alcance a doentes com mais de 50 anos. Muitos doentes com patologias raras têm estes diagnósticos, a maioria desde infância mas são mais novos e por isso não entram na lista de doentes a convocar para vacinação.

Há um ano fechados em casa Joaquim Brites sublinha que no caso dos doentes com patologias raras do foro neuromuscular, muitos com necessidade de suporte de ventilação, muitas vezes a esperança de vida é inferior a 50 anos. A ausência de resposta tem gerado crescente indignação nas famílias. “Temos muitos doentes com 20, 30, 40 anos que é urgente vacinar. Compreendo que não há vacinas, vamos ter de aceitar ainda uns dias e umas semanas com essa dificuldade, mas é dentro dessa dificuldade que se definem critérios de prioridade”, apela. Dá o exemplo do filho de 29 anos, com diagnóstico de distrofia muscular de Duchenne, e que há um ano que não sai de casa. Não depende de ajuda ventilatória durante o dia, mas faz tratamento todas as noites. “Ao estar a dizer que das pessoas com dificuldade respiratória só a partir dos 50 anos têm prioridade na vacinação, significa que todos os que não tem 50 anos e têm esse problema desde sempre, ficam excluídos.” Brites vai mais longe e defende que depois de anos a baterem-se pela integração destes doentes, muitos com uma situação ativa, é um sinal contraditório dado pelos decisores. “Temos um regimento de artilharia a coordenar a vacinação, uma porta de armas em que ninguém entra. Se ninguém considera urgente a necessidade de se vacinar estes doentes para que se possam sentir mais à vontade é alguém que não percebe nada”, critica.

Pedir aos médicos assistentes para sinalizar casos Luís Brito Avô considera que não está em causa vacinar todos os doentes raros do país, mas todas as situações em que a doença signifique uma deficiência grave e que compromete a função cardiorespiratória, e também pessoas que nascem com imunodeficiência primárias, com o sistema imunitário comprometido. “Sejam de que áreas forem das doenças raras, do foro metabolismo, do colagénio, neuromusculares. A grande questão é que quase 50% destes diagnósticos são pediátricos, cerca de 30% das pessoas atingem a idade adulta e são adultos jovens, que não estão sinalizados neste momento para serem vacinados. São pessoas de alto risco que não estão a ser contempladas quando vacinamos apenas pessoas com mais de 50 anos”, explica.

Portugal, como outros países europeus, não tem ainda um registo nacional de doenças raras que permitisse sinalizar os doentes com indicação clínica para fazer a vacina, mas o médico defende que essa situação poderia ser ultrapassada se fosse pedido aos médicos assistentes e centros de referência para identificar os doentes elegíveis. Sem ser possível estimar ao certo quantas pessoas poderiam ser elegíveis, acredita que sejam “centenas de doentes” que estão a ser deixados de fora do plano de vacinação.

O i tentou perceber junto da Direção-Geral da Saúde se a inclusão destes doentes está a ser equacionada pela comissão técnica de vacinação mas não teve resposta.

O plano de vacinação já sofreu diferentes ajustes e tem sido mais demorado do que o esperado fruto de atrasos na entrega de vacinas por parte das farmacêuticas. Já esta semana o novo coordenador do plano admitiu que poderá de ter de haver novos ajustes. Está a ser ainda equacionado o espaçamento das doses das vacinas da Pfizer e Moderna, o que segundo o responsável poderá permitir vacinar mais 200 mil idosos nas próximas semanas, ultrapassando a escassez de vacinas. A comissão técnica de vacinação da Direção-Geral da Saúde já tinha recomendado um intervalo maior entre a primeira e a segunda toma da vacina da Pfizer em janeiro. Gouveia e Melo admitiu também que está a ser equacionada a vacinação de estudantes das áreas da saúde que intervêm em contexto hospitalar.

A campanha de vacinação arrancou a 27 de dezembro, inicialmente de forma simbólica pelos profissionais de saúde. Em janeiro, a vacinação esteve concentrada nos lares e este mês começaram a ser chamados para vacinação os doentes de maior risco com mais de 50 anos e idosos com mais de 80 anos. Até esta quarta-feira foram administradas 752 317 doses da vacina em Portugal: quase 500 mil pessoas iniciaram a vacina e 255 mil têm agora as duas doses tomadas.

Segundo o último relatório de vacinação, até dia 21, o último domingo, 19% dos portugueses com mais de 80 anos tinham já iniciado a vacinação e 8% já tinham as duas doses feitas. Até aqui, as únicas pessoas com menos de 50 anos vacinadas são profissionais de saúde ou de lares ou pessoas em unidades de cuidados continuados. Desde o início da campanha de vacinação foram vacinados 182 jovens com 16 e 17 anos. A vacinação neste grupo etário está prevista nesta fase igualmente em jovens que estejam institucionalizados, seja em unidades de cuidados continuados pediátricos ou da área da saúde mental e Instituições de Acolhimento de Crianças e Jovens em Risco, independentemente de haver ou não uma patologia de base. Nestes contextos, a preocupação foi mitigar o risco de surtos.

 

 

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