13/4/21
 
 
Afonso de Melo 25/02/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Quotas para andorinhas

Neste país pascácio, como lhe chamava O’Neill, outro em meu lugar já teria estabelecido quotas para a passarada diversa que me visita.

As andorinhas, enganadas, chegaram cedo e abrigam-se da chuva debaixo dos beirais. Não tardarão a bulhar com os pardais pelos grãos de arroz que lhes deixo no parapeito. Neste país pascácio, como lhe chamava O’Neill, outro em meu lugar já teria estabelecido quotas para a passarada diversa que me visita. E acreditem que, ao vê-las assim negras como se usassem togas ou becas, me vem à lembrança a quantidade de andorinhas que ocupam hoje as salas de tribunal. Não há julgamento que não contemple, hoje em dia, andorinhas em vez de pardais, tomada que foi a justiça pelas mulheres. Ainda se fossem boas (profissionalmente, valha-nos Deus!), aguentava-se. Mas têm, na sua maioria, uma conceção de equidade que faria Adão ser de novo expulso do Paraíso, tão brandas são com as suas iguais, tão arbitrárias são contra os que têm o azar de lhes surgir pela frente em forma de homens. A última juíza que tive de aturar era sensaborona como o chá da planta que lhe deu o nome, Tília. Esteve-se nas tintas para que não tivesse sido apresentada uma única prova de culpabilidade e decidiu por palpite – em vez de presunção de inocência. Preferiu a presunção de se instalar acima da justiça. A fedelha que representava o Ministério Público, que trocava sinalefas e caretas com a advogada da acusação como miúdas de liceu, estava mais preocupada com um texto por mim escrito em que desqualificava a instituição que serve do que no caso em si, perguntando às testemunhas se o tinham lido e não percebendo sequer que o desprezo destas pela resposta a atirava para o meio da manada de incompetentes que por lá pululam. A assistente Palmeirim, uma espécie de morgadinha dos canaviais do velho Júlio Dinis, com a indignidade própria de quem anda a brincar com o futuro da própria filha, roubando-a ao pai para a entregar ao infeliz de um tal sr. Fonseca que arrastou pela trela até à sala de audiências, limitou-se à maior das suas virtudes – a mentira –, levando a reboque uns poucos de irmãos que também não têm um pingo de vergonha no momento de faltar à verdade perante um magistrado. Tal como o almirante Pinheiro de Azevedo não gostava de estar sequestrado, encanita-me bastante ser condenado por coisas que não fiz. Nunca gostei de circos e nunca achei piada a palhaços e palhaçadas. Apesar de tudo, nunca me passaria pela cabeça estabelecer quotas para palhaços ricos e pobres. Tal como acontece com os pássaros, as quotas só serviriam para que os mais fraquinhos pilhassem um grão de arroz. Nos tribunais, as andorinhas tornaram-se maiores do que as cegonhas. Vestem-se de andorinhas, mas são abutres.

 

 

 


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