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Luís Newton 25/02/2021
Luís Newton

opiniao@ionline.pt

Humanizar os ex-combatentes

Não é normal esta continuada vontade de abrir feridas na sociedade, de exaltar ânimos e levar ao extremar de posições em discussões muitas vezes inúteis, por estéreis.

Faleceu o tenente-coronel Marcelino da Mata, vítima de uma pandemia que não escolhe heróis ou vilões.

E a esse propósito é com alguma perplexidade que vou acompanhando o desfilar de algumas opiniões que vão aparecendo no espaço público.

Os extremismos, os ódios, o acirrar de ânimos em questões que fazem parte da nossa história, da nossa memória coletiva.

Tudo pode ser discutido, tudo pode ser debatido, as visões da História são todas válidas. Por isso existe pensamento. Por isso não há verdades absolutas.

O que já não é normal é esta continuada vontade de abrir feridas na sociedade, de exaltar ânimos e levar ao extremar de posições em discussões muitas vezes inúteis, por estéreis.

No meio de uma pandemia, a braços com uma gravíssima crise económica e social, nenhuma destas opiniões bombásticas contribuem para a resolução de algum problema. Pelo contrário.

Falta a serenidade necessária para a reflexão séria sobre os assuntos, que nos são arremessados como pedras e que mereciam outro tratamento por estarem intimamente relacionados com o que somos (e com o que queremos ser) como país.

Os ânimos exaltaram-se porque Mamadou Ba resolveu escrever que o tenente-coronel Marcelino da Mata era “um criminoso de guerra que não merece respeito nenhum”, um dia após ser conhecida a sua morte.

E o que vale uma opinião idiota? Nada. Assim como nada justifica que as afirmações tenham dado origem a um abaixo-assinado pedindo a sua extradição. É um cidadão português, querem extraditá-lo para onde?

Em Portugal ainda há liberdade de expressão e de pensamento, e a idiotice não é criminalizada.

Porém, o que teria sido mais produtivo era que se refletisse sobre a situação dos nossos ex-combatentes – seres humanos que ainda hoje vivem os terrores e as consequências da guerra.

São homens tão imperfeitos quanto imperfeita é uma guerra, mas são seres humanos.

A corrente moderna de pensamento diz-nos que não há heróis na guerra, só há memórias de sofrimento e angústia. A guerra não é poesia, é um pesadelo onde seres humanos matam outros seres humanos, muitas vezes em momentos desprovidos de qualquer humanidade.

E os que sobrevivem são, muitas vezes, pessoas que vivem atormentadas pelos horrores que testemunharam.

São as narrativas políticas que os procuram classificar em função da propaganda que é útil àqueles que os enviaram para combater, em nome de um ideário enquadrado num momento temporal.

Depois mudam-se os regimes e alguns não compreendem que podem tentar apagar esses períodos da memória coletiva, mas não conseguem apagar a memória do sofrimento e da angústia de quem tudo testemunhou.

Se calhar, o passar do tempo sem qualquer reconhecimento pelo seu sofrimento, pelo sofrimento das suas famílias, pode interessar àqueles que esperam que aconteça a todos os ex-combatentes o que aconteceu a Marcelino da Mata: que a morte silencie essa existência para sempre, na expetativa de não terem de ser lembrados de que, por preconceito ideológico primário, recusaram dar a atenção e o apoio que os ex-combatentes mereciam.

Dentro de 26 anos, Portugal irá celebrar novecentos (900!) anos enquanto nação independente. A República determinou que o símbolo máximo português, a bandeira, tivesse a maior parte da sua área com a cor vermelha.

O vermelho que representa o sangue derramado para que, hoje, alguns possam escrever disparates na língua de Camões.

E se em vez de disparates pudéssemos discutir como sarar esta ferida e garantir que os que sobreviveram possam encontrar descanso, dando assim descanso a quem os ama?

Esta sim, seria uma discussão humana.

 

Presidente da concelhia do PSD/Lisboa e presidente da Junta de Freguesia da Estrela

 


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